Cine Polytheama: O gigante adormecido e a precarização dos cinemas de rua na Zona da Mata Norte de Pernambuco
- Isabelle Annes

- há 7 horas
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Patrimônio histórico e cultural de Goiana é marcado pelo abandono de um espaço que marcou gerações
Cine Nacar, da Goiana do meu passado,
Também já foste Rex e Polytheama,
Que fazes tão soturno, tão calado,
E não respondes a quem te clama?
Teus filmes, magia de sonhos animados,
No fulgor da tela, as comédias e os dramas,
Em que cantos manténs guardados?
Por que não mostras a quem te chama?
Vãs perguntas que em mente faço
Para, ao abandono, paredes mudas,
Quando, por ele, na Direita passo,
E fere-me, mui dolente, tão aguda,
Brandida por fantasmagórico braço,
Atroz, ávida e sanhuda,
Perseguidora no meu encalço
Sem que viva alma me acuda,
Por idos memoriais espaços,
A lâmina fina, fria, pontiaguda,
Da saudade, sintoma, traços,
De quem do porvir já descuida!
Josué Antônio Fonseca da Sena
(Goiana em Versos e Prosa)

Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, n° 249, Centro de Goiana, Zona da Mata Norte de Pernambuco. Essa é a localização exata de um patrimônio que guarda, em cada um de seus tijolos, um pedaço da história da cultura pernambucana: o cineteatro Polytheama – também conhecido como Cine Nacar, Cine Rex, ou simplesmente Polytheama. Espaço que já foi marcado por uma variedade de nomes, por ser travessia entre tempos, corpos e identidades, e, agora, por poltronas vazias e um cenário solitário.
Uma Goiana diante de telas
Um dos únicos cinemas da cidade, o Polytheama era um dos poucos locais do município que funcionava como centro de socialização entre as diversas comunidades do interior pernambucano no século XX. Inaugurado em 1914, o prédio com nome de origem grega refletia bem seu significado: “lugar de muitos espetáculos”, pois, além de cineteatro, ele chegou também a ser rinque de patinação e sala de bilhares.

Além disso, o espaço emblemático não era o único Polytheama existente, – também havia um em Recife, na Boa Vista, e outro em São Paulo – mas era único para cada um dos indivíduos que habitavam ou passavam por Goiana.
No início do século XX, o ambiente surgiu como uma promessa de modernidade. A multidão enchia a rua principal motivada pelo fascínio do desconhecido, ansiando por conhecer as luzes que transformavam imagens em espetáculo. Dominado por filmes estrangeiros, o cinema era mudo ou com música o acompanhando. Em uma certa época, devido à demanda, chegou a ter duas formas de acesso: cadeira no salão com preço “normal” ou nos fundos, com preço mais baixo e legendas invertidas.
Foi nesse mesmo ambiente afetuoso que muitas histórias foram escritas e são lembradas com carinho até hoje. Um desses casos é o de Caio Dornelas, diretor, produtor e roteirista cinematográfico, que contou em entrevista à Manguetown Revista um pouco da sua relação com o espaço .“Eu cheguei no Polytheama antes dele fechar. O meu avô trabalhou como mestre de cerimônias, locutor e apresentador dos espetáculos que aconteciam lá dentro. Já a minha avó era bilheteira do Cinema Urubatã, então os dois se conheceram entre um cinema e outro. É uma relação bem íntima, bem próxima. É uma geografia que está bem presente na minha memória, no meu crescimento e na minha adolescência”, afirma.

Caio é o idealizador da Mostra Canavial de Cinema, um festival que incentivou a produção audiovisual na Zona da Mata Norte de Pernambuco e buscou democratizar o acesso ao cinema nesta região.
Assim como outros indivíduos que tiveram suas histórias interligadas ao Polytheama, o diretor lamenta o declínio do ambiente que foi palco das mais belas e diversas linguagens. Ele reafirma a riqueza cultural de Goiana, propondo que o Polytheama, enquanto cineteatro, poderia receber e abraçar diversas expressões artísticas, locais ou não. “A gente perde uma janela e uma luz muito importante para a cultura local. Também perdemos o cinema e a arte como motor de interação entre as pessoas”, comenta Caio, reforçando a perda de um palco que poderia estar contribuindo com a valorização da memória e da identidade do povo goianense.
Em entrevista, o diretor comenta que a precarização dos cinemas de rua está entrelaçada a uma série de falhas econômicas, afastando o público cada vez mais desses espaços. “O entretenimento virou mais individual, privado e doméstico, ao invés de ser compartilhado e socializado nas salas de cinema. É um prejuízo considerável”, reflete Caio..
O desaparecimento dos cinemas
Na década de 1980, porém, o patrimônio começou a entrar em decadência, acompanhando um movimento de declínio dos cinemas de rua, como aconteceu com o Cine Urubatã. “Com a pressão social e o medo de que a mesma coisa acontecesse com o Polytheama, os políticos se organizaram na época e o prédio se transformou em um equipamento público municipal. Mesmo assim ele não funcionava mais enquanto cinema, ficou ali obsoleto”, relata a produtora cultural e pesquisadora no âmbito de território, trabalho e ambiente, Hevelyne Figueirêdo.
A pesquisadora explica que, quando o Polytheama estava em ruínas, no começo dos anos 2000, um terreno em anexo se transformou em espaço de ensaio de grupos de percussão e maracatu de baque virado, tentando agregar vida no lugar tão marcado pelo abandono. Em 2010, após investimento público e restauração, reabriu suas portas com cerca de 220 lugares, mesmo que já tenha chegado a comportar cerca de 1.000 espectadores anteriormente.
Após sua reabertura, acendeu no peito de muitos cidadãos uma chama antes apagada: aquele prédio esquecido teria, enfim, seu papel simbólico de volta. Mas não foi bem assim. “Em 2010, houve uma reforma do Polytheama, através do programa do Promata e da FUNDARPE. Esse equipamento foi devolvido para a sociedade e houve a Mostra Canavial de Cinema, idealizada pelo Caio Dornelas, além da ocupação do espaço por um cineclube da cidade, com algumas sessões e discussões também. A partir disso, esse equipamento começa a ser usado com fins artísticos, mas com a troca de gestão municipal e ausência de uma comissão gestora, chegou ao estado que está hoje. Ressaltando que na época não existia um conselho de cultura consolidado que pudesse interceder pelo equipamento”, diz a pesquisadora.
A falta de comprometimento da gestão municipal em relação a isso é nítida. Hevelyne reflete como o Polytheama está completamente degradado, com cupins e mofo. Além disso, segue sucateado e com os equipamentos sem funcionamento. “Em 2022, com a Lei Paulo Gustavo repassando verbas diretamente a estados e municípios para fomentar o setor cultural, foram incluídas linhas de apoio para reformas, manutenção, modernização e ativação de salas de cinema, cinemas de rua e cinemas itinerantes. Essa linha foi devolvida aos confres públicos federais, porque, de acordo com a gestão do prefeito Eduardo Honório Carneiro, o valor destinado era baixo e não supriria uma reforma da complexidade necessária para o Polytheama, que já se tinha uma proposta de projeto de reforma do mesmo.”, relata.

Diversos relatos indicam que o uso irregular dos equipamentos e a falta de programação são a base para uma dificuldade de manter o espaço em funcionamento de forma contínua. Após um tempo da reforma, o Polytheama passou a ser ocupado novamente, mas não com a finalidade de cinema. “A prefeitura ocupou esse espaço. A maior parte de ações municipais, encontros, formaturas, desfiles, fóruns e reuniões passaram a ser nesse equipamento”, relata Hevelyne. Com a tomada da gestão municipal, esse ambiente tão rico e necessário acabou se tornando obsoleto por não ter sido gerido e devolvido de forma correta para a população. “A reforma foi em 2010, a gente está em 2026. Há mais de uma década o espaço se encontra fechado, passando seu centenário de portas fechadas”, comenta a produtora.
A pesquisadora reforça a importância de atores sociais e empresas de audiovisual, formadas por jovens, que lutam para democratizar o acesso ao cinema em Goiana e manter essa chama viva. De acordo com ela, esses incentivadores promovem a movimentação pela preservação da cultura audiovisual na cidade, citando o exemplo do Iapoi Cine Clube, que desde 2009 desenvolve ações para promover um cinema mais acessível para os goianenses. “Quando você olha para um equipamento como esse, no interior, é totalmente diferente numa região metropolitana, tem outra dinâmica social. Quando o cinema não está acessível, a população se perde, porque é um espaço para pessoas de todas as idades”, reflete a mesma.
Ela afirma a importância da preservação de espaços como o Polytheama especialmente para os jovens do interior, que possuem poucas formas de entretenimento na cena cultural. “Cineteatro numa cidade do interior pode mobilizar a cultura com o surgimento de novos projetos, alimentando o sistema cultural como um todo e dando essa vitalidade, com mais circulação de pessoas movimentando o centro”, reforça a pesquisadora.
Pensar na precarização dos cinemas de rua da Zona da Mata Norte é pensar também no prejuízo que o cinema nacional e local sofre com a pouca extensão que lhe é dada. “É uma mistura de tristeza e falta de esperança que as coisas mudem. Para manter um cinema no interior em funcionamento, com uma programação e uma vida realmente pulsante, é necessário um alinhamento de muitos fatores”, afirma Caio Dornelas. As plataformas e a falta de investimento público acabam invalidando a presença de produções locais na distribuição e no compartilhamento para a audiência geral. Sem a existência desses cinemas de rua, especialmente nas cidades interioranas, um holofote se apaga e cada vez menos espaços serão ocupados.
Ainda que existam algumas poucas experiências de cinemas mantidos por articulações específicas, como o Cine São José em Afogados da Ingazeira, a grande maioria sofre com o fechamento ou a subutilização. A dificuldade de diálogo com os governos e as esferas pública e privada só enfatizam uma única certeza: a esperança que esses cinemas sejam reativados é mínima. “Não existe diálogo produtivo com o poder público há muitos anos. Entra governo, sai governo, as pastas de turismo e cultura responsáveis por essa parte mudam as cabeças, mudam as filosofias, mas não existe nenhum contato produtivo real”, comenta Caio.
De acordo com o Painel de Dados da Lei Paulo Gustavo, fornecido pelo Ministério da Cultura, Goiana utilizou cerca de 42,78% dos recursos oferecidos para o audiovisual, que também inclui a possibilidade de restauração das salas de cinema. Nem metade do valor oferecido foi utilizado para reformar um patrimônio tão rico e importante, que faz parte de maneira fundamental da história de Pernambuco. Apesar disso, o que se sabe sobre a reforma do Polytheama é que houve a abertura de um processo licitatório para adequar o espaço para reuso e devolvê-lo à sociedade. “A preocupação se dá em como esse espaço vai ser gerido, porque na última reforma, ele foi entregue de forma modernizada e estruturada para o município e, por questões de gestão, ele ficou obsoleto”, afirma a goianense.

O paradoxo é bem claro. Goiana é uma cidade que esbanja sua tradição de maneira muito rica, com música, manifestações populares e muito mais. O Polytheama poderia integrar todas essas linguagens e cumprir sua função enquanto mobilizador social. Sem ele, a cidade perde mais que um cinema: perde um local de encontro, de construção coletiva e de circulação artística.
Hoje, ele ecoa em ambiguidade - ao mesmo tempo que suas paredes guardam ecos de vozes e aplausos, ressoam também o silêncio de uma política que desvaloriza esse pedaço tão importante da cultura pernambucana. Enquanto houver memória, ele nunca desaparecerá por inteiro. Nem ele, nem diversos outros cinemas de rua que sofreram com o mesmo descaso. Sua lembrança é mantida através das memórias e afetos de todos que um dia tiveram a chance de compartilhar a experiência de habitar o Polytheama.
Apesar disso, a esperança é uma só: que suas luzes voltem a acender e que o gigante, por tanto tempo adormecido, possa enfim despertar.
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