Dia Nacional das Artes: A arte como afeto, vivência e identidade
- Isabelle Annes

- há 3 minutos
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Para além de entretenimento, a arte cria vínculos, traduz sentimentos e ajuda a compreender o mundo e a própria identidade

A arte acompanha a humanidade como uma forma de expressão, memória, comunicação e pertencimento. Na música, na dança, no teatro, nas artes visuais e em tantas outras linguagens, ela cria formas de traduzir aquilo que nem sempre pode ser dito apenas por palavras. No Dia Nacional das Artes, celebrado em 12 de agosto, a data convida a olhar para essas manifestações não apenas como produções culturais, mas como parte da própria construção de quem somos.
Para a cantora e estudante de música Sofia Souza, de 21 anos, essa relação começou ainda na infância. Estudante do Conservatório Pernambucano de Música, onde cursa a formação técnica em Canto Popular, Sofia cresceu em um ambiente que estimulava o contato com diferentes linguagens artísticas. “Eu sempre tive envolvimento no universo artístico de forma geral, porque na minha família a gente sempre prezou por alimentar essa vontade de descobrir o que é a arte, entender as linguagens da arte”, conta.
Essa aproximação com a arte foi, principalmente, atravessada pela memória familiar. O avô de Sofia, Nelson Poeta, foi um artista e ativista político próximo de manifestações culturais e musicais da Zona Norte do Recife. Morador do Alto de Santa Isabel, o poeta-cantor utilizava a arte como instrumento de expressão e denúncia durante o período da ditadura militar. O mesmo chegou a participar e vencer um concurso de calouros em Pernambuco, o que o levou ao Rio de Janeiro para participar do programa do Chacrinha, na década de 1970. Para Sofia, a trajetória do avô deixou uma compreensão que ultrapassa o fazer artístico: a de que a arte também carrega responsabilidade.

“Eu me identifico como uma pessoa que não consegue sobreviver sem a arte. Eu acho que a arte para mim não só é um espaço de identificação, mas também de pertencimento e de diálogo”, afirma. A história de Sofia evidencia uma dimensão muitas vezes esquecida quando se fala sobre produção cultural: a dimensão afetiva. Antes de ser profissão, obra ou apresentação, a arte pode nascer dentro de casa, nas relações familiares, nos espaços frequentados durante a infância e nas experiências que passam de uma geração para outra.
Foi aos oito anos que Sofia entrou no Conservatório Pernambucano de Música. A partir dali, passou a ter mais contato com diferentes expressões artísticas. Também integrou o coro infantil do Baile do Menino Deus, experiência que, segundo ela, modificou sua maneira de enxergar a arte. Foi nesse momento que percebeu que a música poderia ser também uma forma de comunicar quem era.
A relação construída desde cedo permanece presente em sua trajetória. Atualmente, Sofia integra o Combo CPM, um grande grupo do Conservatório, e é vocalista da banda Coff Reggae, da qual faz parte desde 2024. A circulação por diferentes gêneros e espaços musicais também contribui para sua formação enquanto artista. Entre estudos, apresentações e experiências coletivas, ela encontra possibilidades para compreender melhor a própria voz e construir, aos poucos, uma identidade autoral.
Se a arte pode nascer do afeto, ela também ajuda a elaborar sentimentos e compreender melhor o mundo. Música, cinema, literatura, dança, teatro e artes visuais não são apenas representações da realidade: muitas vezes oferecem outras formas de interpretá-la. Para Sofia, existem questões que podem parecer complexas demais para serem compreendidas apenas por conceitos e explicações, a arte cria novas maneiras de aproximação.
Essa capacidade de transformar experiências individuais em algo compartilhável faz da arte também um espaço de diálogo. Uma música pode carregar uma memória familiar, uma dança pode expressar aquilo que o corpo não consegue explicar, uma fotografia pode preservar uma lembrança, uma peça pode provocar perguntas sobre a sociedade. São diversas linguagens, mas todas podem estabelecer uma ponte entre as pessoas e os sentimentos.

Segundo Sofia, a importância do Dia Nacional das Artes está justamente na possibilidade de reunir diferentes manifestações sob uma mesma celebração. A arte não se limita a uma única linguagem ou formato, mas sim nas múltiplas expressões que compõem a cultura. A data também permite pensar sobre a produção artística brasileira como uma forma de memória e identidade. Em um país marcado por diferentes povos e territórios, as manifestações culturais ajudam a contar histórias sobre de onde viemos e sobre quem somos.
Nesse sentido, valorizar a arte significa também reconhecer os artistas, os espaços culturais, os mestres e mestras da cultura, os grupos, as instituições e as comunidades que mantêm essas expressões vivas. Mais do que uma comemoração no calendário, o Dia Nacional das Artes pode ser entendido como uma oportunidade para lembrar que a arte não está distante da vida cotidiana. Ela está nas memórias familiares, nas festas populares, nos palcos, nas ruas, nas escolas, nos museus, nos terreiros, nos cinemas e nas músicas que acompanham diferentes gerações.
Para Sofia, celebrar a arte é reconhecer justamente essa capacidade de constituir pessoas e sociedades. “As linguagens artísticas contam o que a gente é, de onde a gente veio e como a gente vai estar e é no mundo”, resume. E talvez seja essa uma das maiores forças da arte: transformar afeto em linguagem e experiência em memória. Porque, antes de ser apenas aquilo que se contempla, a arte também pode ser aquilo que ajuda a sentir, compreender e pertencer.
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