Mestres Assis e Damião Calixto lançam primeiro álbum em dupla, gravado a céu aberto no Sertão
"Toadas da Serra da Imaginação" reúne 12 canções gravadas sem instrumentos num assentamento do MST em Arcoverde, com os sons da natureza como única ambientação

Os mestres Assis Calixto, 80 anos, e Damião Calixto, 79, lançaram em agosto o álbum "Toadas da Serra da Imaginação", o primeiro trabalho que os dois irmãos assinam em dupla. O disco reúne 12 canções gravadas ao ar livre no Assentamento Pedra Vermelha, na zona rural de Arcoverde, no Sertão de Pernambuco, sem nenhum instrumento musical, as vozes dos mestres são acompanhadas apenas pelos sons de pássaros, bois, cavalos e vento. O lançamento oficial aconteceu no dia 15 de agosto, no povoado das Caraíbas, distrito rural de Arcoverde, onde os dois cantaram as toadas ao vivo pela primeira vez.
Nascidos na comunidade Rio da Barra, no município de Sertânia, Assis e Damião chegaram a Arcoverde em 1952, quando ainda eram crianças. Desde então, construíram uma trajetória de mais de sete décadas dedicada à cultura popular do Sertão. Os dois são Patrimônios Vivos de Arcoverde e cidadãos arcoverdenses, título concedido pela Câmara Municipal em 2025. Assis também é Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2019.
Junto com outros integrantes da família, lideram o Samba de Coco Raízes de Arcoverde, grupo fundado em 1992 pelo irmão Lula Calixto, que recebeu indicação ao Prêmio da Música Brasileira em 2025, primeira vez que o grupo concorre à premiação.
"O lançamento desse trabalho também significa resgatar a identidade das toadas, sobretudo porque somos aboiadores originários do Sertão de Pernambuco. Aprendemos as toadas com mulheres consideradas aboiadoras, que corriam a cavalo e cantavam com Sabino Sapateiro.", descreve Mestre Assis Calixto.
Tradição do aboio como raiz
A toada e o aboio são manifestações da cultura sertaneja ligadas ao cotidiano dos vaqueiros, cantos entoados durante o trabalho com o gado e as andanças pelo campo. Assis e Damião aprenderam o repertório com mulheres aboiadoras que cantavam ao lado de Sabino Sapateiro, referência histórica da tradição na região. Duas das faixas do álbum são composições do próprio Sabino. Oito são de autoria de Assis Calixto, uma é de Deyvid Calixto e uma é de domínio público.
A escolha de gravar sem instrumentos é central para o conceito do disco. "Em 'Toadas da Serra da Imaginação', a voz é o principal instrumento", explica Kell Calixto, filho de Damião e responsável pela produção musical do álbum. A captação, mixagem e masterização ficaram a cargo de Buguinha Dub. Toda a ficha técnica é formada por pernambucanos, com a maioria de Arcoverde. “A gente faz tudo isso hoje graças às vivências com o pessoal que acompanhou Sabino, cantando durante as andanças da vida, nos plantios nas hortas e pela natureza”, agradece Damião Calixto.
A técnica das vozes também segue uma tradição específica. Segundo os mestres, as toadas são cantadas sempre em primeira e segunda voz, uma prática que vem do Samba de Coco Raízes de Arcoverde e que é repassada oralmente aos integrantes do grupo há décadas. "Nunca nos esquecemos disso. E foi assim que ensinamos ao grupo que canta e toca com a gente", diz Damião.
Gravação na serra como homenagem ao irmão

A escolha do Assentamento Pedra Vermelha, território ligado ao MST, foi motivada pela relação do local com a memória do mestre Lula Calixto — irmão de Assis e Damião e fundador do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, morto em 1999. A Serra da Imaginação, visível do assentamento, era um dos lugares por onde Lula costumava passar.
"Essa Serra tem tudo a ver com as caminhadas do nosso grande mestre Lula Calixto. Sempre a gente procura um canto que ele andava muito — e é por isso que escolhemos gravar as toadas nesse ambiente, cenário e território de lembranças familiares.", afirma Mestre Assis Calixto
Damião aponta ainda outra razão para a escolha: "A localidade da gravação também traz recordações de onde moramos em Sertânia, na comunidade Rio da Barra, justamente pela existência da casa de taipa, como a nossa morada de origem." A faixa de encerramento do disco, "Criação Lula Calixto", é uma homenagem direta ao irmão, com composição de Assis e participação do poeta Diosman Avelino.
O repertório
As 12 faixas do álbum misturam composições autorais de Assis Calixto, dois clássicos do aboiador Sabino Sapateiro e colaborações de outros integrantes da família. Confira a sequência:
1. Maria Elena — composição: Assis Calixto; participação com poesia e voz: Luna Vitrolira
2. Florisbela — composição: Assis Calixto
3. Uma Morena — composição: Assis Calixto
4. Imbuzeiro Verde — composição: domínio público
5. Boi Pretinho — composição: Deyvid Calixto
6. Touro Baiano — composição: Assis Calixto
7. Vaca Mimosa — composição: Assis Calixto
8. Xote do Vaqueiro — composição: Assis Calixto; participação com a voz: Damares Calixto e Pecon Calixto
9. Tô na Mesa de um Bar — composição: Assis Calixto
10. Prisão de Domineu — composição: Sabino Sapateiro
11. Minha Mãe — composição: Sabino Sapateiro
12. Criação Lula Calixto — composição: Assis Calixto; participação com poesia e voz: Diosman Avelino
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