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O Cine Arrimo e a reinvenção do futuro audiovisual nas periferias do Recife

Projeto transforma muros de arrimo em tela e aponta caminhos para democratizar o acesso ao cinema na cidade


Em uma cidade como o Recife, onde a maior parte das salas de cinema está concentrada em shoppings e distante das periferias, pensar outras formas de exibição se torna urgente. Foi a partir desse incômodo que nasceu o Cine Arrimo, com a proposta de descentralizar o audiovisual e criar novas possibilidades de encontro entre público, território e narrativa.


A iniciativa ganhou viabilidade por meio da Lei Paulo Gustavo, através de edital municipal, permitindo estruturar uma ação que unisse formação, produção e exibição de filmes periféricos. O encontro com o território veio a partir de um movimento paralelo. Enquanto o projeto ainda buscava um local para acontecer, o coletivo Sargento Perifa, já atuante no Córrego do Sargento, no bairro de Linha do Tiro, procurava a Prefeitura do Recife com o interesse de desenvolver ações ligadas ao cinema na comunidade. 


Sessões do Cine Arrimo transformaram o muro da comunidade do Córrego do Sargento, na Linha do Tiro, em tela de cinema. Imagem: Carbonel/Manguecrew
Sessões do Cine Arrimo transformaram o muro da comunidade do Córrego do Sargento, na Linha do Tiro, em tela de cinema. Imagem: Carbonel/Manguecrew

Com a articulação da gestão pública, os projetos se encontraram e passaram a caminhar juntos, levando o cinema para um espaço simbólico e cotidiano da comunidade: o muro de arrimo. 


“Quando a gente conheceu o território, viu que era ali. Já existia uma organização muito forte, com ações culturais, sociais e educativas acontecendo sem apoio do poder público”, lembra Janaína Guedes, uma das idealizadoras do projeto.

A partir disso, a parceria com o coletivo Sargento Perifa guiou a iniciativa. Embora a coordenação do projeto viesse de fora, toda a equipe de execução foi formada por moradores da própria comunidade. O resultado foi uma construção coletiva, enraizada no território e atravessada por quem vive e produz cultura no dia a dia do Córrego do Sargento.


"Botar o cinema na rua, no meio da galera, é massa demais porque quebra aquela barreira de que arte é coisa de elite. O Sargento Perifa tá aqui pra isso, pra ocupar o espaço e mostrar que nossa vivência é tela de cinema. É bonito ver o povo se reconhecendo, olhando pro muro e vendo que o morro é puro talento", afirma Gilberto Luiz, coordenador do Coletivo Sargento Perifa.

A programação Cine Arrimo foi dividida em dois momentos: uma oficina de introdução ao audiovisual e uma mostra com filmes produzidos em Recife, principalmente nas periferias e no próprio Córrego do Sargento. A proposta era garantir que o público não apenas assistisse, mas também produzisse suas próprias narrativas.


Moradores do Córrego do Sargento acompanharam as exibições do Cine Arrimo em sessões abertas realizadas na comunidade. Imagem: Carbonel/Manguecrew
Moradores do Córrego do Sargento acompanharam as exibições do Cine Arrimo em sessões abertas realizadas na comunidade. Imagem: Carbonel/Manguecrew

Durante a mostra, foram exibidos 38 filmes, entre curtas e médias-metragens, vindos de diferentes territórios periféricos. Mas foi no último dia que o projeto exibiu os filmes produzidos pela própria população. “Exibimos sete filmes feitos pela própria comunidade. Foi o momento mais forte. As pessoas se vendo na tela, reconhecendo suas histórias, muita gente se emocionou wuando você se vê na tela, a relação com o filme muda completamente. É diferente de assistir a um blockbuster que não dialoga com a sua realidade”, afirma  Janaína.


Essa barreira, além de geográfica, é também histórica. Janaína relembra sua experiência em exibições no interior do estado, como no Cine Guarany, em Triunfo, onde a dificuldade de atrair público revelou uma barreira: “antigamente, o cinema era um espaço de elite. Tinha que ir de paletó e gravata, não era para todo mundo e isso ficou no imaginário. Muita gente ainda não se sente pertencente a esse espaço”.


As sessões do Cine Arrimo exibiram filmes produzidos em periferias pernambucanas e de outras regiões do país, aproximando o público de narrativas ligadas aos próprios territórios. Imagem: Carbonel/Manguecrew
As sessões do Cine Arrimo exibiram filmes produzidos em periferias pernambucanas e de outras regiões do país, aproximando o público de narrativas ligadas aos próprios territórios. Imagem: Carbonel/Manguecrew

Hoje, o problema ganha novas camadas. Mesmo com o aumento da produção audiovisual em Pernambuco, faltam espaços de exibição. Em Recife, os poucos cinemas de rua ativos, como o Cinema São Luiz, que atualmente só funciona no fim de semana, além de outros espaços, como os cinemas da Fundação Joaquim Nabuco e o cinema gratuito da UFPE ainda mantêm alguma programação, porém não dão conta da demanda. “A gente tem muitos filmes sendo produzidos, nas periferias, no centro, em todo canto, mas não tem onde exibir. Essa conta não fecha”, reafirma a produtora.


A cidade que inventa suas próprias telas


Diante da ausência de políticas estruturadas de exibição, a própria sociedade cria alternativas. Cineclubes, sessões independentes e ocupações culturais têm se multiplicado pela cidade, muitas vezes de forma autônoma e sem financiamento. Espaços como unidades do Compaz e iniciativas independentes em bares e centros culturais vêm assumindo esse papel de circulação. Ainda assim, a sustentabilidade dessas ações segue sendo um desafio. “A gente precisa parar de romantizar. Cultura não se faz só por amor. As pessoas precisam viver disso”, afirma Janaína.


Entre crianças, jovens e moradores da comunidade, o Cine Arrimo reuniu o público em exibições ao ar livre, fortalecendo o cinema como espaço de encontro e pertencimento. Imagem: Carbonel/Manguecrew
Entre crianças, jovens e moradores da comunidade, o Cine Arrimo reuniu o público em exibições ao ar livre, fortalecendo o cinema como espaço de encontro e pertencimento. Imagem: Carbonel/Manguecrew

Pensar no futuro do cinema em Pernambuco, portanto, passa por olhar para essas experiências que já estão em curso. Para Janaína, há caminhos possíveis, como ativar equipamentos públicos, investir em cineclubes, revitalizar salas de rua e, principalmente, garantir que os filmes cheguem às pessoas que os inspiram, “o cinema pode estar nos bairros, nas escolas, nos espaços públicos. A gente precisa criar essas janelas”.


Enquanto isso, projetos como o Cine Arrimo seguem sendo símbolo de resistência da sétima arte, apontando para a urgência de descentralizar o cinema e romper com um histórico elitista que, por tanto tempo, delimitou quem podia ocupar as salas de cinema. Ao emergir dos territórios e devolver às pessoas o direito de narrar e se reconhecer, iniciativas como essa reinventam o próprio sentido de fazer e ver cinema, deslocando o lugar do privilégio para o pertencimento e abrindo caminho para futuros mais plurais, onde todas as histórias possam, enfim, ser projetadas.


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