Quando os editais não bastam: como artistas do Sertão são invisibilizados e por que é tão difícil alcançar os grandes centros em Pernambuco
- Genivaldo Henrique

- há 8 horas
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A cultura de Pernambuco é rica. Vibra, emociona e constroi pontes para artistas brilhantes que merecem, cada vez mais, um espaço nos grandes espaços não só do estado, como também de todo o país. Um dos maiores expoentes atualmente é o músico João Gomes, natural de Serrita, no Sertão, e querido nacionalmente.
Ainda assim, no entanto, é impossível negar que chegar a esse patamar, mesmo hoje em dia, com a possibilidade de divulgação em massa por meio das redes sociais, é muito difícil - assim como foi para o próprio João Gomes. Isso vale principalmente para quem está longe dos holofotes da Região Metropolitana do Recife (RMR), que naturalmente recebe o destaque em projetos governamentais e até patrocínios e oportunidades para a carreira.
Em um ambiente tão “competitivo” quanto o da produção musical, onde a busca por espaço para divulgar a própria arte é tão difícil, qual parece ser a válvula de escape para novos artistas? Naturalmente, editais e programas do próprio governo de Pernambuco, como o Funcultura, ou até iniciativas federais, como a Lei Paulo Gustavo, que já destinou cerca de R$ 99 milhões em editais de fomento cultural no estado desde 2023.
O problema, no entanto, é quando nem ações do tipo conseguem abarcar a diversidade cultural de Pernambuco. Em entrevista à Manguetown Revista, o produtor cultural Léo Lemos, natural de Afogados da Ingazeira, Sertão de Pernambuco, com ampla experiência na condução de artistas periféricos na região, relatou alguns dos desafios enfrentados por artistas para encontrarem maior visibilidade no estado.

Com experiência também como assessor de imprensa tanto de artistas da RMR, quanto do interior, Léo chama atenção principalmente para a disparidade de cobertura para as duas regiões, inclusive da mídia.
“Se a gente for pensar nesse imaginário coletivo, o que é ser famoso? O artista precisa ser famoso ou ele basta ser artista, sabe? [...] Trabalho hoje com dois pifeiros que, para estudiosos do pífano, são os melhores pifeiros de Pernambuco, mas eles não têm fama alguma. Eles não saem em blogs, os jornais culturais de Recife não conhecem eles”, começou.
“Então a gente tem essa questão. Os artistas aí de Recife conseguem ser famosos porque acessam os mecanismos de fama, acessam os mecanismos de comunicação para as pessoas conhecerem eles, e, enfim, consumi-los. Aqui no Sertão, a gente não tem isso, porque os jornais não chegam aqui, a mídia não chega aqui. Então, acho que o primeiro grande ponto é esse: a fama que esses artistas não têm", completou.
Reconhecimento é mais que urgente
Por não serem amplamente divulgados ou consumidos nos principais centros de Pernambuco, esses artistas recorrem a programas públicos e editais em busca de financiamento. Léo Lemos explica, por exemplo, o papel da política de Registro do Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco. Esse reconhecimento pode ser concedido individual ou coletivamente a pessoas que mantêm tradições culturais do estado e fortalecem o compartilhamento desses costumes em suas regiões.
Os artistas contemplados também têm prioridade em chamamentos e eventos do governo do estado, como o Pernambuco Meu País, cortejos brincantes de grandes festejos, como Carnaval e São João, dentre outros. Os nomes são escolhidos em um concurso que elege, anualmente, seis novos Patrimônios Vivos de Pernambuco. O concurso é dividido em várias etapas, como a de apresentação de documentação dos candidatos e análise que leva em conta a relevância do trabalho desenvolvido, idade do candidato ou tempo de existência do grupo e avaliação da carência social. Depois disso, o Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural – CEPPC nomeia vencedores em publicação no Diário Oficial do Estado.
Léo Lemos explica ainda que o principal está na simbologia do prêmio, que "é o fundamental, porque ainda que esse mestre nunca tenha sido reconhecido, uma nomeação no peso do Patrimônio Vivo compensa o passado inteiro de esquecimento". O problema, no entanto, é que nem sempre o programa consegue acessar quem mais precisa.
"Existe a política do Patrimônio Vivo, mas ela não chega onde deveria chegar. Ela chega ao Recife para beneficiar, por exemplo, uma mestra do Maracatu que só tem 50 anos de vida, se não me engano. E eu respeito o legado dela, mas duvido que esse legado seja mais importante do que o de Joana, que é uma mestra de 80 anos, irmã de outro Patrimônio Vivo. Quatro filhos dela sambam coco, oito netos sambam, o bisneto dela samba coco. Então, se você pegar um legado como o dessa mestra e dizer que o dela é menor do que uma mestra do Maracatu de Recife, eu acho um abuso", afirmou.
"O Sertão é a maior região do estado de Pernambuco e, por isso mesmo, ela é a região que mais tem artistas populares, se você for olhar, e esses artistas, eles estão todos isolados. E não há da parte do governo... tipo, os governos municipais, eles são incipientes, eles são incompetentes, irresponsáveis, inclusive, porque não têm preocupação alguma com esse patrimônio cultural que são esses artistas", completou.
“É muito difícil quando a linguagem está mais distante”
Em uma realidade onde editais representam uma espécie de “porta de entrada” para novos artistas chegarem a outros territórios, a própria comunicação pode ser um empecilho. Foi o que descreveu Richard Soares, 26 anos, produtor cultural natural de Afogados da Ingazeira e forte expoente da cultura Hip Hop local.
À Manguetown Revista, ele explica que, no início da carreira, teve grande dificuldade de acesso aos próprios editais e por uma questão muito simples - e invisibilizada: a comunicação. O exemplo que utiliza é o Funcultura, um dos principais mecanismos de fomento e difusão da produção cultural em Pernambuco. Por mais que seja organizado pelo próprio governo do estado, o artista conta que não se via representado em ferramentas desse tipo.

“Se a gente parar para pensar, a questão financeira para fazer com que a gente pudesse continuar a produzir novos projetos só veio se alinhar com a Lei Paulo Gustavo e a PNAB [Política Nacional Aldir Blanc], que são fomentações mais recentes. Através do Funcultura era muito difícil enviar projetos e [pensar] formas de como realizá-los”, começou.
“A maior parte da comunicação desses projetos é acadêmica, mas a maioria dos artistas são jovens periféricos, e boa parte ainda está lutando para terminar o Ensino Médio. Em 2016, quando comecei a cursar História, eu que dei um gancho para trazer uma turma também para fazer esses projetos. É muito difícil quando a linguagem está mais distante”
Cria do Hip Hop e da cultura underground, Richard trabalha também com cinema independente e possui forte atuação na cena musical no interior do estado, levando como principal referência na sua arte o Movimento Manguebeat. Apesar dessa dificuldade enfrentada na comunicação e linguagem, já participou de editais para projetos diversos, incluindo o videoclipe “A Ponte”, que traz uma visão próxima do cotidiano misturada a mixagens eletrônicas. O projeto contou com apoio da Lei Paulo Gustavo e é um marco da carreira do artista, que, por mais que reconheça a importância de ferramentas do tipo, cobra por melhores mecanismos de apoio a produtores.
“A parte mais difícil é essa interação entre o estado e os produtores. O edital tem se tornado mais acessível, mas ele ainda não é. Falta um gancho para atingir artistas da zona rural, por exemplo. Falar do Recife é fácil, os artistas daqui estão muito mais interligados. No Sertão, não. Temos uma defasagem muito grande. Falta também uma forma de comunicação mais viável”, iniciou.
“O gancho para realizar um projeto com esse financiamento não é só sobre o bel-prazer de produzir, mas sobre a nossa existência. As pessoas periféricas lutam pra caramba para trabalhar nessa escala 6x1, e às vezes até coisa pior. E quando a gente consegue um projeto, juntamos várias pessoas para que ele seja realizado e difundido. Mas o problema ainda é que os orçamentos são baixíssimos. Muita gente chega para realizar, querendo dar o nome ali, sempre pensando que em uma próxima oportunidade vai ter mais e vai poder chegar mais junto Isso é muito difícil”, afirmou.
A própria cultura do Hip Hop, tão vasta e rica lírica e musicalmente, para Richard, também ainda é muito apagada. "Essa invisibilização é da conjuntura completa, desde o racismo estrutural, até como a própria política é estabelecida. A gente tem muitas camadas", explicou.
Para o artista, poucos festivais de fato agregam a cena a um contexto de destaque merecido. Se já é difícil chegar aos grandes palcos, ocupá-los de maneira justa e adequada se torna mais uma dor de cabeça em meio à falta de organização e consideração pelos artistas.
"No Sertão, sei que poucos lugares trazem esse apoio. Afogados da Ingazeira até realizou pequenos eventos, mas eles tratam [artistas do Hip Hop] como exóticos. Parece que estão ajudando, mas na verdade estão distanciando. Colocando um muro de informação entre a pessoa que consome o Hip Hop de fora, e também quer conhecer o daqui, mas o próprio evento [uma programação] mais distante, de mais difícil acesso e em horários e dias que a classe trabalhadora vai estar muito mais voltada ao seu trabalho", destacou.
‘Viver música’ é plural - até certo ponto
É bem sabido que a vivência na música é plural, abrangente e experienciada, cada uma à sua forma, por artistas de toda parte. Esse é o caso do poeta, cantor e compositor Islan, 28 anos, natural de São José do Egito, também no Sertão. Na arte, encontrou uma poderosa ferramenta para se expressar, e, hoje, desenvolve lindamente uma carreira que, sim, tem seus percalços, mas que já criou - e continuará criando - muita beleza para a cultura do estado.
Em entrevista à Manguetown Revista, ele contou que, logo aos 12 anos, quando começava a aprender a tocar violão, fez parte de uma banda chamada "Metal Milícia", onde começou a desenvolver sua paixão e talento pela música. Ainda na adolescência, em atividades extracurriculares da escola, se juntou ao grupo "Vozes e Versos", onde passou cinco anos trabalhando com música nordestina, poesia e cultura popular.

"Com eles eu gravei um CD e um DVD, com algumas composições minhas. E já pensava isso como uma carreira, como um trabalho que no futuro viria a ser uma ocupação, mas muito nesse lugar da experimentação porque eu acho que é uma realidade de muitos músicos do interior, principalmente aqueles que não têm alguém na família que é artista, como é o meu caso. Acho que a família se preocupa muito com a sua segurança financeira porque sabe as dificuldades de trabalhar com arte, principalmente fora dos grandes centros. Então havia essa preocupação de tentar fazer com que eu deixasse a música nesse lugar do hobby", afirmou.
Foi com essa vontade de fazer sempre mais que, de 2018 em diante, tem na arte a única ocupação, seja como músico, seja como poeta. Em 2024, foi finalista do Festival Frevo Sertão com uma de suas composições. Já em agosto do ano passado, lançou "Islan", primeiro EP da carreira, que lhe rendeu uma indicação ao 17º Prêmio da Música de Pernambuco na categoria Álbum de Cultura Popular, motivo de muito orgulho para o artista.
Até chegar a esse ponto, no entanto, muito terreno precisou ser galgado. Islan, assim como Richard, passou por editais e programas culturais, e reconhece como são importantes para artistas do estado. A luta, porém, não para por aí. Além do aspecto financeiro e dificuldades de agenda, ele conta ainda que, mesmo hoje em dia, ainda vê um distanciamento do Poder Público para o Sertão - o que dificulta ainda mais que sua arte chegue aos grandes centros.
"Outro ponto que levantaria é o quanto a gente está longe de programadores e curadores, seja do Poder Público, seja da iniciativa privada, dos principais eventos, festivais e projetos que acontecem no nosso estado. A imensa maior parte do estado é o Sertão, mas ainda assim a gente não está no centro do assunto quando o negócio é programação de grandes festivais. Não vou citar o nome de nenhum, mas eu acho que todos vivenciam a mesma carência de conhecer trabalhos do Sertão. E não só isso, de se preocupar em viabilizar a chegada de trabalhos do Sertão. Então a gente tem que investir muito para chegar quando a gente consegue esse espaço", contou.
Como deixar de isolar
Ao entender tantas vivências que, apesar de plurais, têm alguns dos mesmos empecilhos enraizados em suas trajetórias, como mudar? Como achar uma saída para isso, uma solução ou sequer uma nova política cultural para que os projetos, de fato, acessem que mais precisa? Leo Lemos explica que, hoje em dia, já existe um impulsionamento: cerca de 20% dos recursos das ferramentas de fomento estaduais são destinados ao Sertão. O problema, no entanto, está justamente no isolamento desses artistas.
“Nossos mestres são muito isolados. Então entendo que os editais sozinhos não funcionam. Então o governo teria algumas estratégias. Por exemplo, a política do Patrimônio Vivo é essa estratégia que poderia chegar nisso, começou.
O produtor explica ainda que, uma ação que consideraria “justa” para Pernambuco seria uma divisão igualitária dos recursos: 25% para cada região, de igual para igual - levando em consideração que os municípios da Região Metropolitana do Recife (RMR) já recebem fomentos próprios.
“Mas há ações mais urgentes que essa, e universal, que seria o governo do estado parar de barrar projetos porque enviamos um documento errado. Isso chega a ser ridículo: todos deveriam ser medidos pela qualidade artística, não barrar alguns por burocracia. Somos a favor que os períodos de recurso possam ser usados para substituir arquivos errados e a gente poder concorrer pela qualidade artística do projeto. Mas esse é um sonho que nem todos embarcam”, completou.
Aos novos artistas do interior, seja ele qual for, Islan chama atenção, ainda, para o papel da arte na vida das pessoas, e a importância em fazer conexões pelo caminho. Por mais que seja difícil superar essas adversidades, sonhar em ocupar os grandes espaços e dedicar-se para tal é uma tarefa para todo músico, poeta, dançarino, ator, e por aí vai.
"A gente precisa estar nos lugares, conhecer as pessoas, viver coletivamente essa cena artística em que você está inserido [...] Acho que é você criar conexões reais com as pessoas, sabe? Não só com quem faz junto com você a cena, mas com o público também, com as pessoas que curtem o seu trabalho, que gostam de você como pessoa. Eu acho que, antes da criação de qualquer obra, a arte é sobre conexão. Então, que a gente construa essa conexão, que a gente preze por essa conexão entre as pessoas", disse.
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