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Chico Science: 60 anos de um futuro que ainda está acontecendo

Eu não consigo me lembrar da primeira vez que Rios, Pontes e Overdrives, Praieira ou Manguetown chegaram aos meus ouvidos. Talvez seja daquelas transmissões invisíveis que a gente herda sem perceber, como um sotaque, uma memória ou um cheiro que reconhecemos mesmo sem lembrar quando aprendemos. Algumas músicas simplesmente passam a fazer parte do ar que a gente respira. Pelo menos foi assim comigo.


Chico Science. Imagem: Arquivo pessoal
Chico Science. Imagem: Arquivo pessoal

Talvez por isso, aos 23 anos, eu nunca tenha conseguido dizer exatamente quando Chico Science entrou na minha vida. Ele já estava lá. Nos fones de ouvido de alguém no ônibus, em algum bar do Recife, numa festa improvisada entre amigos, numa rádio distante tocando tarde da noite. Chico é desses artistas que não chegam, eles já estavam.


E então chega 13 de março. Sessenta anos do nascimento de um homem que viveu tão pouco e, ainda assim, alterou para sempre o imaginário cultural de um lugar inteiro. Pensar em Chico aos 60 anos é um exercício quase impossível. Não porque falte imaginação, mas porque a presença dele já parece grande demais para caber em projeções.


De Olinda para o mundo, Chico Science não foi apenas um músico. Foi uma lente. Um tipo de mediador entre tempos, ritmos e territórios. Ele olhou para o mangue, aquele território que durante muito tempo foi visto como margem, como sujeira, como esquecimento,  e percebeu ali um centro. Um centro pulsante.


O mangue virou metáfora. Virou ciência. Virou estética.


Chico entendeu que a lama também é fértil. Que da lama nascem caranguejos, histórias, ritmos, sobrevivências. E que um lugar que parecia condenado ao silêncio podia, na verdade, produzir uma das linguagens culturais mais originais do Brasil.


Junto da Nação Zumbi e de tantos outros artistas da cena que viria a ser conhecida como Manguebeat, Chico desenhou uma cartografia afetiva de Pernambuco. Uma cartografia onde cabiam os maracatus, os caboclinhos, o hip hop, o rock, os beats eletrônicos, os terreiros, as antenas parabólicas e as ruas quentes do Recife.


Mas dizer que ele “representou Pernambuco” ainda é pouco.


Porque Chico não fez um retrato turístico. Ele não romantizou nada. Pelo contrário: ele apontou feridas. Falou de desigualdade, de abandono urbano, de uma cidade cortada por rios e pontes que muitas vezes também eram fronteiras sociais. Falou de um estado cheio de potência criativa, mas historicamente atravessado por ausências culturais, sociais e principalmente políticas.


E fez isso com poesia, com batida, com urgência.


O mais impressionante é perceber que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Dois discos fundamentais, alguns anos de explosão criativa e uma obra que parece muito maior do que sua própria duração. Como se o tempo ao redor dele tivesse se comprimido para caber mais ideias, mais som, mais visão.


O que Chico Science conseguiu construir não é apenas importante. É irrepetível.


Não porque seja impossível fazer algo grandioso hoje, mas porque a combinação de tempo, contexto, sensibilidade e coragem que ele teve é algo que simplesmente não se fabrica. Muitos tentam copiar a estética, a sonoridade, os símbolos. Mas Chico nunca foi apenas um estilo.


Ele era uma maneira de olhar para o mundo.


Por isso, trinta anos depois de sua explosão cultural, ainda existe algo quase misterioso na forma como ele continua presente. Há jovens que descobrem suas músicas agora e sentem que elas falam diretamente com o presente. Há artistas que encontram ali um ponto de partida para criar outras linguagens. Há cidades que ainda tentam compreender o que ele revelou sobre elas mesmas.


Chico Science não pertence apenas aos anos 90.


Ele pertence ao futuro que ele mesmo ajudou a imaginar.


Sessenta anos depois do seu nascimento, talvez a pergunta mais honesta não seja “o que Chico estaria fazendo hoje?”. Talvez a pergunta seja outra: o que a gente tem feito com o mundo que ele ajudou a abrir?


Porque Chico deixou uma pista muito clara: a cultura nasce onde menos esperam que ela nasça. Nos mangues, nas periferias, nos encontros improváveis, nos artistas que insistem em criar mesmo quando tudo ao redor parece negar essa possibilidade.


Talvez por isso sua obra continue viva.


Porque enquanto houver alguém com os pés na lama e a cabeça conectada ao mundo, Chico Science ainda estará ali.


Inconfundível.


E absolutamente imortal. 


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