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Dia Estadual do Frevo de Bloco: cinco clássicos que mantêm viva a memória do Carnaval pernambucano

há 9 minutos
4 min de leitura

De “Evocação nº 1” a “Madeira que Cupim Não Rói”, repertório dos blocos líricos atravessa gerações e transforma saudade, identidade e tradição em música pelas ruas de Pernambuco


Bloco Rural - Foto: Hugo Muniz
Bloco Rural - Foto: Hugo Muniz

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon / Cadê teus blocos famosos? / Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum / Dos carnavais saudosos”. Os versos de “Evocação nº 1”, composta por Nelson Ferreira e lançada no Carnaval de 1957, fazem da saudade um convite à memória do Carnaval pernambucano.


Neste domingo (11), Dia Estadual do Frevo, a Manguetown Revista celebra o legado e a musicalidade de um dos gêneros mais emblemáticos de Pernambuco com uma seleção de cinco frevos de bloco clássicos que ajudam a contar a história dessa expressão cultural — e que todo mundo deve conhecer.


Também chamado de marcha de bloco, o frevo de bloco tem uma sonoridade marcada por instrumentos de cordas, como violões, cavaquinhos e bandolins, além de sopros e percussão. Os corais, as melodias e as letras que evocam encontros, despedidas e carnavais passados ajudam a construir o caráter lírico dessa tradição, ligada às agremiações que ocupam as ruas do Recife e de outras cidades pernambucanas.


1. “Evocação nº 1” — Nelson Ferreira


É difícil falar de frevo de bloco sem lembrar desse clássico. Composta por Nelson Ferreira e consagrada no Carnaval de 1957, “Evocação nº 1” recupera nomes de antigos foliões e agremiações que marcaram a história do Recife, como o Bloco das Flores, o Andaluzas em Folia, o Pirilampos de Tejipió e o Apôis Fum.


A canção olha para um Carnaval que já não existia da mesma forma e transforma essa lembrança em música. Ao perguntar pelos blocos famosos do passado, Nelson Ferreira não apenas homenageia personagens e agremiações: também registra uma memória coletiva, permitindo que novas gerações conheçam parte da história da folia pernambucana.


O sucesso da composição fez dela uma das referências mais conhecidas do gênero, mantendo vivos nomes que poderiam ter ficado restritos às lembranças dos antigos foliões. 


2. “Valores do Passado” — Edgard Moraes

Bloco da Saudade - Foto: Rodrigo Pires
Bloco da Saudade - Foto: Rodrigo Pires

Se “Evocação nº 1” convoca personagens e blocos de outros carnavais, “Valores do Passado”, de Edgard Moraes, também funciona como um registro musical das agremiações que ajudaram a construir a identidade carnavalesca do Recife.


A composição, criada em 1962, reúne referências a blocos antigos e celebra um repertório de tradições que embalaram gerações. A relação com a memória está no centro da canção e também da trajetória do Bloco da Saudade, que surgiu na década de 1970 inspirado pelo desejo de reviver os antigos carnavais líricos.


A música tornou-se o hino da agremiação, que ajudou a fortalecer a presença dos blocos líricos no Carnaval recifense. Assim, cantar “Valores do Passado” é também reafirmar a continuidade de uma tradição que encontra na música uma forma de permanecer viva.

3. “Frevo da Saudade” — Nelson Ferreira e Aldemar Paiva


A saudade também pode ser uma maneira de manter alguém por perto. Em “Frevo da Saudade”, parceria de Nelson Ferreira e Aldemar Paiva, a lembrança aparece como companhia afetiva, transformando a ausência em melodia e sentimento compartilhado.


A canção representa uma das marcas do frevo de bloco: a capacidade de combinar a atmosfera festiva do Carnaval com letras que falam de amor, recordação e passagem do tempo. É uma música que convida o folião a cantar junto e também a reconhecer nas palavras experiências pessoais e sentimentos que continuam presentes mesmo depois que a festa termina.


Esse encontro entre celebração e melancolia ajuda a explicar por que tantos frevos de bloco permanecem no repertório dos carnavais pernambucanos. São canções que não dependem apenas da lembrança de uma festa específica: elas também guardam sentimentos que passam por diferentes gerações.


4. “Relembrando o Passado” — João Santiago


Como o próprio título anuncia, “Relembrando o Passado”, de João Santiago, transforma a memória dos antigos carnavais em matéria-prima para a música. A composição revisita a alegria dos desfiles e os blocos que marcaram a experiência de foliões de outras épocas.


A canção se aproxima de um traço recorrente do gênero: a lembrança de ruas ocupadas, encontros e agremiações que fizeram parte da vida cultural do Recife. Ao recuperar esse universo, o frevo de bloco também funciona como uma espécie de arquivo afetivo, preservando referências que nem sempre aparecem nos registros oficiais da história da cidade.


A saudade, nesse repertório, não significa apenas olhar para trás. É uma maneira de transmitir histórias e referências culturais para quem não viveu aqueles carnavais, mas pode conhecê-los e recriá-los por meio do canto. 


Bloco Carnavalesco Madeira do Rosarinho - Foto: Victor Soares
Bloco Carnavalesco Madeira do Rosarinho - Foto: Victor Soares

5. “Madeira que Cupim Não Rói” — Capiba


Entre os clássicos associados à força dos blocos líricos pernambucanos, “Madeira que Cupim Não Rói”, de Capiba, ocupa um lugar especial. A obra é lembrada pela energia de seu canto coletivo e pela imagem de resistência que o título evoca.


A música se conecta ao caráter comunitário do Carnaval de rua: cantar junto, acompanhar a agremiação e compartilhar o espaço público são partes fundamentais dessa experiência. No universo dos blocos líricos, a orquestra, o coral e os foliões constroem uma sonoridade que depende justamente dessa participação coletiva.


Ao lado de composições marcadas pela saudade, o clássico de Capiba ajuda a mostrar que o frevo de bloco não se resume à nostalgia. O gênero também carrega força, pertencimento e continuidade — elementos que fazem a tradição seguir presente nas ruas e no imaginário cultural de Pernambuco.


Uma tradição que segue viva nas ruas


Bloco das Flores - Foto: Bruno Campos
Bloco das Flores - Foto: Bruno Campos

Os cinco frevos mostram diferentes maneiras de narrar o Carnaval pernambucano: a homenagem aos antigos blocos, a preservação da memória, a saudade dos encontros e a força da celebração coletiva. São músicas que atravessam o tempo porque permanecem ligadas às pessoas, aos lugares e às experiências que formam essa tradição.


Em um estado onde o frevo é parte fundamental da identidade cultural, os blocos líricos mantêm viva uma forma particular de ocupar as ruas. Com suas orquestras, corais, estandartes e repertórios, eles fazem da música uma ponte entre gerações e reafirmam que o Carnaval também é memória, poesia e patrimônio vivo.


Neste Dia Estadual do Frevo, revisitar esses clássicos é uma forma de reconhecer a história que continua sendo cantada — e de garantir que os carnavais saudosos também encontrem espaço no nosso presente.

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