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Entre memória e abandono: Curta “Alucine Olinda” transforma o Cine Olinda em símbolo de resistência cultural

Difícil imaginar um filme olindense sendo exibido em um cinema de rua na própria cidade, não é? A cena evidencia uma ferida antiga e persistente: a dificuldade de produções locais encontrarem espaço de estreia nos próprios territórios onde nascem, especialmente quando esses mesmos equipamentos culturais já não existem mais ou se encontram em estado de abandono, como o antigo Cine Olinda.


Presente e passado: duas imagens do Cine Olinda. Da esquerda para a direita, uma imagem noturna do cinema olindense abandonado e, à direita, uma de como ele era imponente no passado. Imagem: Divulgação/Alucine Olinda | Arquivo
Presente e passado: duas imagens do Cine Olinda. Da esquerda para a direita, uma imagem noturna do cinema olindense abandonado e, à direita, uma de como ele era imponente no passado. Imagem: Divulgação/Alucine Olinda | Arquivo

É justamente nesse contraste entre criação e apagamento que nasce o curta-metragem “Alucine Olinda”, dirigido pelo jovem realizador pernambucano Igor Luiz Ribeiro. Com cerca de 20 minutos de duração, a obra mergulha na trajetória do antigo cinema do bairro do Carmo, em Olinda, transformando sua história em um exercício sensível de memória, denúncia e imaginação sobre o que foi perdido e o que ainda pode ser reconstruído.


Nesse contexto, a Manguetown Revista acompanha desde 2024, de perto, o caso do Cine Olinda, cobrando a gestão municipal e também outras autoridades públicas sobre o futuro do espaço e a ausência de avanços concretos em sua revitalização. O veículo de comunicação teve acesso ao filme, que combina entrevistas, imagens de arquivo e uma linguagem experimental para reconstruir a atmosfera de um espaço que já foi referência de lazer e cultura popular. O curta propõe um olhar crítico sobre o abandono do patrimônio e provoca o público a refletir sobre os futuros possíveis para o Cine Olinda.


Inaugurado em 1911 como Cine Theatro de Variedades, o espaço marcou gerações e se tornou um dos símbolos culturais do centro histórico de Olinda. Ao longo das décadas, no entanto, o brilho das sessões deu lugar ao silêncio, à degradação estrutural e a sucessivos anúncios de revitalização que nunca saíram do papel.


Entre os anos 1960 e 1970, o cinema encerrou suas atividades e foi desapropriado pelo poder público. Desde então, o prédio atravessa um longo ciclo de abandono institucional. Em 2016, artistas, produtores culturais e moradores chegaram a ocupar o espaço no movimento “Ocupe Cine Olinda”, tentando recolocar o tema na agenda pública. A mobilização, porém, perdeu força diante de impasses políticos e da ausência de respostas concretas.


Agora, quase uma década depois, o cenário cultural de Olinda volta a ganhar visibilidade com produções recentes do audiovisual pernambucano, enquanto “Alucine Olinda”,  uma obra que tensiona passado e presente, lembrando que a cidade é patrimônio mundial da UNESCO desde 1982, mas ainda enfrenta dificuldades na preservação de sua própria memória.


A sinopse do filme apresenta o  Cine Olinda como um personagem vivo, um espaço que, mesmo em ruínas, ainda reflete a própria cidade e suas contradições. Entre o gótico e o abandono, o prédio se transforma em metáfora, um cenário que beira o horror e escancara o descaso com a cultura local.


A estreia acontece em São Paulo, durante a 15ª Mostra Ecofalante de Cinema, entre os dias 28 de maio e 10 de junho, reunindo produções voltadas a questões sociais e ambientais. Enquanto isso, em Olinda, o cinema que dá nome à obra segue à espera de um futuro que ainda não chegou.



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