Golarrolê e a cidade: quando a pista de dança vira território de ocupação urbana no Recife
- Manu Gomes

- há 20 horas
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Com novo local para a celebração de 20 anos, a Golarrolê relembra como explora lugares da cidade nos últimos anos; Allana Marques, co-fundadora, comenta trajetória e impactos da produtora de evento no Recife

Ao longo de duas décadas, a Golarrolê transformou espaços improváveis em pontos de encontro, ressignificando a relação do público com a cidade — e agora ocupa o pavilhão do Pernambuco Centro de Convenções em um novo capítulo de sua trajetória. No dia 09 de maio, às 20h, acontece o show de 20 anos da Gola com a participação de Pabllo Vittar, Tati Quebra Barraco e DJs residentes de festas Gola como MALEDITA, Brega Naite e Odara.
Fundada em 2006, antes de ser a festa que nós conhecemos, a Golarrolê foi uma inquietação. Nasceu do desejo de dançar ao som de uma música que não encontrava espaço nas pistas do Recife dos anos 2000. Mas o que começou entre amigos, como resposta a uma ausência, logo se transformaria em algo maior: um movimento que não apenas ocupa a cidade, mas a reinventa.
Ao longo de 20 anos, a Gola — como é chamada por seu público — construiu um percurso que acompanha e tensiona o próprio crescimento urbano e cultural do Recife. Mais do que promover eventos, o coletivo passou a ativar espaços, deslocar centralidades e propor novas formas de viver a noite. Em vez de apenas acontecer na cidade, a festa passou a transformá-la.
Da pista ao movimento

Em entrevista à Manguetown Revista, Allana Marques — DJ, produtora cultural e co-fundadora da Golarrolê (ao lado de Lucas Logiovine) — explicou que a Golarrolê surgiu em um contexto em que determinadas sonoridades ainda eram pouco exploradas na cena local. House, electrohouse, electroclash, nu-disco e techno encontraram ali um espaço de experimentação e encontro.
“Então a gente fez o que muita cena underground faz quando não se vê representada: criou o próprio espaço”, conta Allana. “Sem muita pretensão inicial, a Gola acabou se tornando um movimento. Ao longo desses 20 anos, ajudamos a construir uma cena alternativa forte.”
O que era instintivo no início — a escolha de lugares possíveis para realizar as festas — foi, com o tempo, ganhando outra dimensão. “No começo, não existia essa consciência clara de ‘ocupação urbana’. Era muito mais intuitivo. A gente buscava espaços que coubessem nossas ideias”, explica. “Depois veio a virada de chave: percebemos que não estávamos só fazendo festa. Estávamos criando pontos de encontro, ativando lugares, movimentando economia criativa.”
Cartografia afetiva da noite recifense

A história da Golarrolê também pode ser contada a partir dos espaços que ocupou. Cada endereço marca uma fase, uma descoberta, uma nova camada de relação com a cidade.
Da potência cultural da Galeria Joana D’Arc, no Pina, às noites no Club Nox, em Boa Viagem, e no Gentleman Loser Pub, também no Pina, passando por experiências marcantes no Catamaran, no Cais de Santa Rita, em São José, e em espaços como o Cais do Sertão e o Armazém 14, no Recife Antigo, a Gola desenhou uma verdadeira cartografia afetiva da noite recifense. Nesse percurso, lugares antes vistos como improváveis — ou relegados ao esquecimento — foram ressignificados e passaram a ser vividos de forma intensa, coletiva e cheia de novos sentidos.
“A Galeria Joana D’Arc foi a primeira casa da Gola. Um lugar já carregado de potência cultural, onde a gente encontrou território fértil para semear”, lembra Allana. Com o crescimento da festa, veio também a necessidade de expandir. “Cada novo lugar sempre teve um pouco disso: necessidade e desejo.”
O Catamaran, por exemplo, tornou-se um dos casos mais emblemáticos dessa ressignificação. “Era um lugar que não estava no imaginário como pista de dança. E de repente virou um dos locais mais marcantes da Gola”, conta. “Fazer uma festa ali, com o rio, o vento, a paisagem urbana… tudo isso mudou a experiência para muita gente.”
A cidade como pista, encontro e pertencimento
Ao longo dos anos, a Golarrolê ajudou a ampliar o mapa da vida noturna do Recife, especialmente no Recife Antigo. Mais do que ocupar fisicamente os espaços, a festa contribuiu para construir novas relações afetivas com a cidade.
“A gente percebe um público mais aberto a explorar, a viver esses espaços históricos de forma contemporânea”, diz Allana. “Isso cria pertencimento. E quando existe pertencimento, existe cuidado, memória e continuidade.”
Essa transformação não foi planejada como estratégia desde o início, mas construída de forma orgânica. “Nunca foi um plano. Foi acontecendo. A pista de dança sempre foi o ponto de partida, mas nunca o único lugar de atuação”, afirma. “Hoje existe uma consciência maior desse papel, mas sem perder a essência: conectar pessoas, ativar espaços e movimentar cultura.”
20 anos depois: um novo capítulo no Pernambuco Centro de Convenções

Duas décadas após sua criação, a Golarrolê inaugura um novo capítulo em sua trajetória ao ocupar o pavilhão do Pernambuco Centro de Convenções. Inicialmente previsto para o campus Recife da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o evento ganha um novo endereço, marcando uma mudança que reconfigura a experiência desta edição comemorativa.
Mais do que uma substituição, a alteração aponta para outra forma de ocupação: agora em um espaço fechado, com estrutura pensada para grandes públicos e que permite maior controle sobre a realização do evento, especialmente diante de variáveis como clima e logística.
A comemoração dos 20 anos acontece no dia 9 de maio, a partir das 20h, em uma área desenhada para potencializar o encontro coletivo. O espaço será dividido entre as áreas Front e Open Bar, ambas integradas ao palco, além de contar com bares, banheiros e ambientes de convivência pensados para quem quer viver a festa intensamente — mas também encontrar pausas ao longo da noite.
A escolha dialoga diretamente com a trajetória da Gola: abrir caminhos onde antes não havia, ressignificar espaços e ampliar os mapas possíveis da cidade.
Os ingressos estão disponíveis neste link abaixo: https://share.google/eeA1SBlXDfOYrZ4UZ
Entre festa e intervenção cultural

Ao olhar para trás, fica evidente que a Golarrolê ultrapassou a dimensão do entretenimento. Tornou-se uma plataforma que articula música, cidade, estética e comportamento, contribuindo para pensar o Recife como um organismo vivo, em constante transformação.
“A Gola deixou de ser só pista e virou também plataforma cultural”, resume Allana.
Nesse percurso, cada ocupação foi também um gesto político — ainda que nem sempre nomeado assim — de reivindicar a cidade como espaço de convivência, criação e liberdade. Agora, ao ocupar o Pernambuco Centro de Convenções, a Golarrolê reafirma sua vocação: transformar o urbano em experiência, o espaço em encontro e a festa em cultura viva.
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