Lantejoulas, liberdade e desbunde: o Vivencial que transformou a cena pernambucana
Livro de Márcio Bastos recupera a história do grupo teatral que transformou o mangue, a boemia e a dissidência em matéria-prima para desafiar a ditadura em Pernambuco
Antes de o mangue virar símbolo de uma revolução cultural, ele já era palco de outras insurgências. Entre Olinda e Recife, durante os anos mais duros da ditadura militar, um grupo de artistas transformou o teatro em espaço de liberdade, deboche e enfrentamento. Formado por homossexuais, mulheres, pessoas trans, negros, estudantes, trabalhadores, intelectuais e tantos outros sujeitos considerados desviantes, o Vivencial construiu uma das experiências mais radicais das artes cênicas brasileiras. Agora, essa história ganha novo registro em "Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial", do jornalista e escritor Márcio Bastos.

Publicado pela Autêntica, o livro integra a coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha, dedicada à memória da resistência LGBTQI+ no Brasil. O lançamento acontece neste sábado (7), a partir das 14h, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE), em Olinda. A obra percorre a trajetória do coletivo desde sua origem, em 1974, quando Guilherme Pontes Coelho ainda era noviço no Mosteiro de São Bento, até a dissolução oficial do grupo, em 1983.
O primeiro espetáculo, Vivencial I, já carregava a provocação que marcaria a trajetória das vivecas, como os integrantes se chamavam. A montagem misturava textos de Bertolt Brecht e Jean Genet, poemas de Fernando Pessoa e notícias de jornais para falar de racismo, machismo, Igreja e diversidade sexual. A repercussão foi suficiente para incomodar a direção do mosteiro. Anos depois, já fora dos muros religiosos, o grupo encontraria no mangue o território para erguer seu próprio espaço: o Vivencial Diversiones, construído pelos próprios integrantes em uma área de mocambos e palafitas na comunidade de Ponte Preta, entre Recife e Olinda.

O espaço virou ponto de encontro da boemia pernambucana e recebeu teatro, música, performances, cinema e até shows de striptease. Em meio à repressão da ditadura, as vivecas fizeram da irreverência uma forma de resistência. Cerca de 30 espetáculos foram montados ao longo de quase uma década, reunindo artistas profissionais e pessoas sem formação teatral. Entre os personagens recuperados pelo livro estão Roberto de França, o Pernalonga, que entrou no grupo aos 15 anos, e a travesti Lolita, uma das figuras lendárias da boemia do Recife.

Dissolvido oficialmente em 1983, o Vivencial nunca desapareceu completamente. Em 2024, antigos integrantes se reuniram em Olinda para celebrar os 50 anos do grupo, reencontro que reuniu mais de 200 pessoas e aproximou as antigas vivecas de uma nova geração. Entre figurinos, memórias e histórias de uma época em que subir ao palco também era desafiar o mundo, permanece a definição de Guilherme Coelho: "Nunca achei que o Vivencial acabou; se diluiu". Agora, com Lantejoulas no mangue, essa memória volta a brilhar.
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