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Luara Gal: quando o corpo vira arquivo, resistência, presente e futuro na cena Ballroom do Recife

Multiartista transforma a dança em território de sobrevivência, afeto e construção coletiva


A dança sempre esteve ali, mesmo quando precisava existir em silêncio. Antes dos palcos, das batalhas e das performances, ela habitava o quarto fechado, o corpo contido, a feminilidade reprimida. Hoje, aos 21 anos, Luara Gal ocupa a cena Ballroom do Recife com presença, técnica e consciência política. Fotógrafa, graduanda em Artes Visuais e dançarina, ela constrói uma trajetória em que movimento, identidade e pertencimento caminham juntos. “A dança está muito interligada com quem eu sou. Ela sempre foi bastante feminina, mesmo quando eu não podia colocar isso para fora”, conta em entrevista à Manguetown Revista.


Luara Gal é uma multiartista pernambucana. Imagem: Reprodução/ Redes Sociais
Luara Gal é uma multiartista pernambucana. Imagem: Reprodução/ Redes Sociais

Foi pela fotografia que Luara começou a circular na cena noturna, registrando festas e corpos dissidentes até que, em uma ball (uma ball — baile, em português — no contexto Ballroom é um evento competitivo de celebração da cultura), conheceu a comunidade Ballroom pernambucana. “Eu via as pessoas performando e pensava: eu não quero estar só atrás da câmera. Eu preciso fazer alguma coisa”, relembra. O primeiro contato com a dança veio pela contemporânea, na Escola João Pernambuco, na Várzea, Zona Oeste do Recife, experiência que abriu caminhos para entender o corpo como potência expressiva. Mas foi nas danças pélvicas e, posteriormente, no vogue, que Luara encontrou um vocabulário capaz de traduzir sua história. “A dança contemporânea me ensinou a explorar o que meu corpo já tinha. O vogue me deu linguagem, comunidade e estrutura”, afirma.


O divisor de águas veio em 2024, quando venceu uma batalha de dança e ganhou um mês de aulas com Vívian Marvel, referência nas danças pélvicas em Pernambuco. A partir dali, Luara passou a compreender a dança também como estudo, método e transmissão de saberes. “As aulas foram um divisor de águas. Aprendi sobre coordenação motora, anatomia do torso, história das danças afrodiaspóricas. Isso mudou tudo”, diz.


O processo culminou no projeto “Vogue de Putona”, no qual realizou sua primeira performance solo e ministrou sua primeira oficina. “Eu nunca tinha feito performance solo, nem oficina. Fiz as duas. A oficina lotou, foi uma troca babado. Ali eu entendi que também posso ensinar”, celebra.




Femme Queen e o jogo da cena


Dentro da Ballroom, Luara se reconhece como Femme Queen, categoria que celebra mulheres trans e travestis que performam a feminilidade em sua máxima potência. O caminho, no entanto, foi de insistência e treino. “Levei chop (‘Chop’ na cultura Ballroom significa a eliminação de um participante em uma categoria durante um baile) em categoria de iniciação e isso mexeu comigo. Pensei: não dá, preciso treinar mais. Comecei a estudar pesado”, lembra. O esforço trouxe resultados: Grand Prizes (é a consagração máxima conquistada ao vencer uma categoria específica em um ball), amadurecimento estético e a construção de um repertório que mistura vogue, danças pélvicas, performance e improviso. “Fui entendendo meu feeling dentro do jogo, feminilizando cada vez mais os movimentos”, explica.


Esse crescimento também passa pela Kiki House of Kunoichis, casa da qual Luara faz parte e que considera família. Fundada pela Statement Founding Mother Kunoichi Yuri, a casa é uma das pioneiras da Ballroom em Pernambuco e tem um papel central no acolhimento e na formação de travestis e pessoas trans. “A house me ensinou muito mais do que dança. Me ensinou sobre elaboração de projetos, produção cultural, sobre trabalhar com cultura para além do palco”, afirma. Ela destaca ainda o papel fundamental das irmãs que a fortaleceram no processo, como Princess Chikita Kunoichi, que a notou na cena, e Vyvo Kunoichi, responsável por levar oficinas de escrita de projetos culturais para dentro da casa.



Ballroom como sobrevivência


Para Luara, a Ballroom vai além da estética e do espetáculo: é uma tecnologia de sobrevivência. “A Ballroom me salvou e me salva todos os dias. É um lugar onde eu estou com as minhas, onde a gente constrói família de verdade”, diz. Em um contexto de marginalização, a cena se organiza para promover saúde, formação e autonomia, com oficinas, rodas de conversa, ações de redução de danos e produção cultural. “A gente mexe com dança, moda, música, educação, saúde. Mesmo assim, ainda falta reconhecimento e estrutura”, critica. Ainda assim, ela insiste: “A gente não passa despercebida. Quando a gente dança, quando a gente chega, a atenção vem”.


Entre batalhas, oficinas e performances, Luara Gal constrói um percurso que reafirma o corpo como arquivo vivo e a dança como gesto político. “É um convite”, resume. “Chega perto da Ballroom. Está acontecendo aqui, agora, debaixo do teu nariz.”



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