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Afeto, Olhar e Experimento: A Arte Fotográfica de Newaqualtune

Através da edição e da lente de sua câmara, a fotógrafa traduz o afeto, carinho e o movimento.


Diretamente de Igarassu, Maria Eduarda Abreu, conhecida artisticamente como Newaqualtune, é estudante de Letras na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e fotógrafa. Seu trabalho se destaca pela afetividade e pela experimentação visual.


Em entrevista exclusiva à Manguetown Revista, Newaqualtune contou sobre sua trajetória na fotografia. 


“Começou nesse local afetivo, depois virou um espaço de diversão. Eu posso continuar me divertindo para além das fotos que eu já tenho, posso criar mais material. Então é experimentação mesmo. É pensar quais possibilidades uma imagem pode ter para além do que ela aparenta ser. Que outro aspecto essa coisa que a gente está vivendo pode assumir quando é modificada por um elemento visual e estético da edição da imagem?”, conta Newaqualtune.


Newaqualtune. Foto: Vitor Correia
Newaqualtune. Foto: Vitor Correia

Início 


Para a igaraçuara, trabalhar com arte e fotografia nunca havia sido uma opção. Desde pequena, sabia que queria ser professora, e esse era seu único plano até então.

O primeiro contato com a fotografia aconteceu durante a pandemia, em 2020, e, diferente de muitos casos, não surgiu a partir do ato de fotografar, mas da edição e da experimentação com imagens já existentes.


“Durante o processo pandêmico, todo mundo estava ficando maluco em casa, com a cabeça basicamente destruída. Eu enfrentava muitas coisas ao mesmo tempo e sentia muita saudade da rua, das pessoas, dos meus amigos. Peguei as fotos que já tinha e comecei a editar. A fotografia surgiu não necessariamente tirando fotos, mas revisitando imagens que eu já tinha e editando elas.” conta a fotógrafa. 


Foi nesse processo que a fotógrafa encontrou um respiro diante da tensão do período pandêmico. A partir daí, com o incentivo de Vitor Correia, amigo e fotógrafo que confiou em seu olhar, a fotografia e a edição de imagem passaram a fazer parte da vida de Maria Eduarda Abreu.


“A fotografia surgiu muito mais na edição da imagem do que, necessariamente, na captação. Foi algo de que gostei tanto que começou a ganhar força. Em 2020, nesse processo de revisitar momentos que já estavam enquadrados em outro contexto, nasceu a Newaqualtune”, conta a fotógrafa.


Newaqualtune Foto: Vitor Correia
Newaqualtune. Foto: Vitor Correia

O nome artístico também carrega significados profundos. Inspirada por um álbum em homenagem às mulheres, do cantor niLL, a faixa Aqualtune/Alluka despertou o interesse da fotógrafa, que decidiu pesquisar sobre a história de Aqualtune, avó de Zumbi dos Palmares. Aqualtune foi uma mulher africana trazida de forma forçada ao Brasil, cuja trajetória é marcada por lacunas históricas, mas que fundou o Quilombo dos Palmares em Pernambuco.


“Fiquei muito emocionada com a história de Aqualtune, não só por quem ela foi, mas por ser de Pernambuco. Isso tornava tudo ainda mais local, mais nosso”, conta.

Mesmo inspirada por essa trajetória de resistência, Maria Eduarda não quis se colocar como Aqualtune, mas como uma extensão dessa história.


“Eu queria dar continuidade à história dela. Daí veio o ‘New’, Newaqualtune, que também dialoga sonoramente com o nome do cantor. Foi assim que Newaqualtune surgiu”, completa.


A construção do olhar 


“Eu brinco com a luz, com a cor, com os ângulos que se formam a partir da edição. É uma forma de dar outra vida a uma imagem que já está estática. A edição cria movimento a partir de outros elementos visuais, de algo que já existiu e está ali cristalizado.”


Não somente responsável por despertar seu encanto com a fotografia. A edição ocupa um papel importante no trabalho da fotógrafa, pois, além de revisitar momentos, permite observar detalhes antes despercebidos.


“É no momento de editar que a gente percebe detalhes que não tinha visto antes. A gente revisita e lança outro olhar. O que me manteve foi isso: que lugar a gente não olhou? Quando tira uma foto, a gente olha para a rachadura? Para o chão desfeito? Que outros lugares deixamos de ver porque nosso olhar não foi treinado para perceber beleza ali?”, reflete Newaqualtune.


Felipe Araújo, Vila rural, Igarassu Imagem: Newaqualtune
Felipe Araújo, Vila rural, Igarassu. Foto: Newaqualtune

Inicialmente, o afeto e a diversão foram propulsores na construção do olhar fotográfico, tanto na captação, quanto na edição de imagens. Mas, a territorialidade também ocupa um lugar em seu trabalho.


Nascida e criada em Igarassu, a fotógrafa tem a água como uma de suas temáticas mais recorrentes.


“A gente tem Itamaracá, Mangue Seco, Vila Rural, com rios incríveis. São meus lugares de afeto. Cresci no mar, cresci indo para o rio. Fotografar esses elementos da natureza, tão específicos, é fotografar Itamaracá, Pontal da Ilha, Vila Rural, Mangue Seco. São lugares que compõem meu afeto”, diz.


Felipe Araújo, Vila rural, Igarassu. Foto: Newaqualtune
Felipe Araújo, Vila rural, Igarassu. Foto: Newaqualtune

No Recife, o olhar se desloca. A cidade provoca outra forma de observar.


“Eu comecei a perceber que esse local de deslocamento me fazia olhar para uns detalhes muito específicos. Eu fotografava paredes, pichações, grafites, gravuras, rachaduras. Enquanto em Igarassu meu olhar é afetivo, ligado à água e à memória, no Recife ele é mais deslocado. O que a cidade está me dizendo e eu não consigo ouvir? O que está na parede tentando se comunicar comigo?”, conta a artista.


A importância do território para a fotógrafa, também passa pela percepção da pouca visibilidade artística de Igarassu, muitas vezes vista apenas como destino turístico. Newaqualtune não só nasceu e mora em Igarassu, mas ela também olha pra cidade.


“A foto vem de alguém que tem muita intimidade com aquele lugar, que tem pouquíssima visibilidade no campo da experimentação artística. A gente faz turismo, mas qual é a conexão artística que existe com esse espaço?”, questiona.


Além do afeto, experimentação e território, Newaqualtune consumia muito cinema e música, isso também moldou seu olhar, através de inspirações como Jonas Mekas com seu documentário “Ao Caminhar Entrevi Lampejos de Beleza”, projetos de David Lynch.


“São olhares que me compuseram. Coisas que fogem de uma captação exata da realidade. O que posso inventar em cima disso? O que posso ficcionalizar? Que beleza posso criar nessa imagem?”, afirma.


Para além das lentes


Nome Newaqualtune na parede do CAC, UFPE. Imagem: Maddu Lima
Nome Newaqualtune na parede do CAC, UFPE. Imagem: Maddu Lima 

Mesmo percebendo a singularidade de seu processo, Newaqualtune relata que demorou a se reconhecer como profissional, muito por questões de autoestima e pela ideia de que fotografar espaços afetivos não teria valor para outras pessoas.


“Eu também me surpreendo com o resultado, porque aquela foto comunica comigo, eu comunico com ela. Então é muito difícil se colocar nessa categorização de profissional quando a gente não sabe qual a entrega que a pessoa espera que você dê em relação àquilo.” conta.


Ainda nesse processo de se denominar profissional, a associação do “bom profissional” ao equipamento quase desmotivou a fotógrafa no início.


“Passei cinco anos achando que ser fotógrafa profissional significava ter equipamento profissional. Para alguns trabalhos isso faz sentido, mas para a experiência artística, para contar histórias que precisam ser mostradas, isso é realmente necessário? É um campo extremamente elitista e competitivo em torno de equipamento”, aponta.


Essa lógica também limita o acesso de pessoas que desejam iniciar na fotografia, sobretudo aquelas vindas de contextos periféricos e não urbanos.


A fotógrafa também critica a escassez de políticas culturais em Igarassu e as barreiras enfrentadas por quem vive fora dos grandes centros.


“Ao mesmo tempo em que você não é profissional porque não tem equipamento, também não pode acessar um edital porque não é ‘daqui’. E com que dinheiro eu vou comprar um equipamento ? É um sonho bem ingrato, porque você tem que bancar uma coisa que não vai ser valorizada de início, porque só vai ser valorizada quando você tiver esse dinheiro inicial. E como é que você vai ganhar esse dinheiro inicial?” reflete.


Atualmente, Newaqualtune desenvolve projetos com pessoas que se identificam com seu trabalho e também leva suas imagens para espaços urbanos por meio do lambe, ampliando o alcance de sua fotografia para além das galerias.


Conheça o olhar de Newaqualtune


Alice Ferreira, Vila rural - Igarassu. imagem: Newaqualtune
Alice Ferreira, Vila rural - Igarassu. imagem: Newaqualtune
Wagner,  edifício holiday - Recife, 2024 Imagem: Newaqualtune
Wagner,  edifício holiday - Recife, 2024 Imagem: Newaqualtune

“A foto era muito boa, mas era muito melhor saber que a foto não foi minha. Eu fotografei a foto, mas a pose era dele, a vontade de ser fotografada era a dele. Foi ele que quis me mostrar os anéis. Ele quis que ficasse na sombra do edifício, sabe?” conta a fotógrafa.


Recife, 2023 Imagem: Newaqualtune
Recife, 2023 Imagem: Newaqualtune

Itapissuma, 2024 Imagem: Newaqualtune
Itapissuma, 2024 Imagem: Newaqualtune

“Eu nunca falei especificamente sobre essa minha conexão com as fotos que eu tiro ou sobre as coisas que eu faço. Muito pouco e eu achei que a imagem entregava tudo, mas acho que faltava letra também e faltava esse espaço. “


Conheça mais do olhar de Newaqualtune nas redes sociais:





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