“Manas”: o grito silencioso que ecoa das margens do Brasil
- Maria Eduarda Silva

- 25 de abr.
- 3 min de leitura
Dirigido pela pernambucana Marianna Brennand, o longa transforma denúncia social em cinema sensível e inquietante

Entre silêncios profundos e uma rotina atravessada pela sobrevivência, “Manas” (2024), de Marianna Brennand, não é apenas um filme, é um confronto direto com aquilo que o Brasil insiste em não enxergar.
Ambientado na Ilha do Marajó, o longa acompanha Marcielle, uma menina de 13 anos que vive com os pais e os irmãos em um contexto de vulnerabilidade marcado por relações familiares frágeis e pela presença constante da violência. A ausência da irmã mais velha, Claudinha, que deixou a comunidade ao se envolver com um homem nas balsas, atravessa toda a narrativa como uma promessa ambígua de fuga.
Ao longo do filme, essa ideia de que Claudinha “deu sorte” começa a se desfazer, revelando as fissuras de um destino que, na verdade, reproduz o mesmo ciclo de exploração que atinge outras meninas da ilha.
É nesse processo de percepção que Marcielle passa a olhar com mais atenção para a irmã mais nova, reconhecendo nela os mesmos riscos que atravessaram a trajetória de Claudinha e que ainda estruturam o cotidiano ao seu redor. Esse deslocamento do olhar da protagonista marca um ponto central da narrativa, em que o desejo de escapar dá lugar à urgência de proteger sua irmã.
Diferente de narrativas tradicionais, “Manas” aposta em uma progressão dramática sutil. O filme se organiza em acúmulos, pequenos gestos, conversas interrompidas e situações aparentemente banais vão construindo uma tensão crescente, até que o espectador compreende, quase sem perceber, a dimensão estrutural da violência que atravessa aquelas vidas.
O que Brennand constrói aqui é um cinema de tensão contida. Em “Manas”, não há espetacularização da dor ea violência nunca é mostrada de forma explícita, mas se infiltra em cada gesto e em cada silêncio. A câmera observa mais do que explica, e permite que o horror surja naquilo que não é dito. Com cortes discretos, o filme permite que as cenas respirem, evitando a pressa e convidando o espectador a permanecer naquele espaço. Os sons ambientes de água, vento, motores de embarcação e vozes ao fundo constroem uma atmosfera imersivaque intensifica a sensação de realidade.
A força do longa também passa pelo elenco, que mistura atores profissionais e pessoas da própria região. A protagonista Jamilli Correa (Marcielle) entrega uma atuação crua, que carrega o filme nas costas sem recorrer a explosões dramáticas. Há uma verdade ali que vem da vivência no território e da urgência em denunciar o que o país finge não saber que existe.

Visualmente, a fotografia transforma a paisagem amazônica em algo ambíguo, ao mesmo tempo que é deslumbrante, também é opressora. O rio, que poderia simbolizar liberdade, aparece como rota de exploração.
Mas o maior mérito de “Manas” está em sua dimensão política. Sem discursos panfletários, o filme expõe uma engrenagem de violência que atravessa família, economia e cultura. Não há apenas um vilão, há um sistema que se perpetua na naturalização da violência e na falta de alternativas para sobreviver.

Premiado no Festival de Veneza e acumulando reconhecimentos em festivais, o longa confirma a potência de um cinema brasileiro que olha para dentro, para suas margens, suas feridas e suas contradições.
“Manas” não oferece conforto nem respostas fáceis. Ao final, o que fica é um incômodo persistente. E talvez seja exatamente isso que o torna tão necessário: um filme que não pede para ser apenas assistido, mas para ser sentido e, sobretudo, lembrado.
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