“O Irôko, a Pedra e o Sol” retorna aos palcos com temporada marcada por fé, homoafetividade negra e música afroancestral
- Manu Gomes

- 16 de abr.
- 4 min de leitura
Espetáculo pernambucano une teatro e música ao vivo para abordar homoafetividade, racismo religioso e ancestralidade, com apresentações no Recife e Sertão

O espetáculo “O Irôko, a Pedra e o Sol” ganha nova temporada em abril, com apresentações no Recife e em Salgueiro. Nesta sexta-feira (17), a montagem chega ao Teatro Hermilo Borba Filho, dando início à sequência de sessões na capital. Ao todo, são cinco apresentações no mês, com ingressos entre R$ 15 e R$ 30 no Recife e entrada gratuita no interior. A classificação indicativa é de 16 anos.
Criada pelo grupo O Poste Soluções Luminosas, a obra reafirma sua potência estética e política ao reunir teatro, música ao vivo, dança e narrativa afroancestral. Em cena, a montagem propõe uma imersão em temas como amor, fé, violência simbólica e resistência.
A circulação integra o projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”, que viabiliza a temporada no estado. Após a estreia no terreiro Ilê Àse Òrìsànlá Tàlábí, em Paulista, o espetáculo segue para o Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife, e encerra sua trajetória no Quilombo Conceição das Crioulas, em Salgueiro.
Os ingressos podem ser adquiridos via plataforma Sympla: https://www.sympla.com.br/evento/luz-negra-o-iroko-a-pedra-e-o-sol/3371468?share_id=whatsapp
Amor e resistência no centro da narrativa
Sob direção, texto e concepção de Samuel Santos, a peça apresenta uma história de amor entre dois jovens negros, Severino e Sebastião, em uma comunidade quilombola marcada pelo apagamento de suas raízes ancestrais. Ao viverem uma relação homoafetiva, atravessada ainda pelo diagnóstico de HIV, os personagens enfrentam o preconceito, o isolamento e a violência estrutural.
A dramaturgia articula elementos da tradição oral, espiritualidade afro-brasileira e crítica social para tratar de temas urgentes, como LGBTfobia, racismo religioso, sorofobia e violência contra a mulher.
“É um amor que enfrenta o preconceito, uma fé que nasce da ancestralidade e uma narrativa sobre resistência”, resume o diretor.
Ancestralidade como linguagem estética

A abertura da obra é guiada por uma evocação simbólica do orixá Exu, situando o público em um território onde crenças foram historicamente silenciadas. A peça constrói, assim, um diálogo entre espiritualidade, memória e identidade, destacando o impacto da evangelização em comunidades quilombolas e o apagamento de práticas afro-indígenas.
Esse contexto não é apenas ficcional: a montagem dialoga com dados e relatos contemporâneos sobre o avanço de outras matrizes religiosas em territórios tradicionais, tensionando disputas simbólicas e culturais ainda presentes no Brasil.
Trilha sonora ao vivo e identidade pernambucana
Um dos destaques do espetáculo é a trilha sonora executada ao vivo, composta por 15 músicas autorais com letras de Samuel Santos e criação musical de Beto Xambá e Thulio Xambá, integrantes do grupo Bongar.
Inspirada por tradições como o Candomblé, a Umbanda, a Jurema Sagrada e a cultura Xambá, a sonoridade da peça evoca rituais, celebrações e cotidianos, conectando música e narrativa em cena.
Elenco e estética como afirmação política
Com um elenco formado majoritariamente por artistas negros, periféricos e populares, o espetáculo reforça a representatividade nas artes cênicas. Em cena, 12 artistas atuam, cantam e dançam, construindo uma experiência coletiva que atravessa corpo e voz.
O figurino, assinado por Agrinez Melo, também atua como linguagem dramatúrgica. A composição visual mistura referências africanas com elementos de rigidez ocidental, criando um contraste simbólico entre opressão e resistência.
Trajetória e reconhecimento
Desde sua estreia em 2022, “O Irôko, a Pedra e o Sol” vem consolidando sua relevância no cenário cultural pernambucano. Em 2023, foi um dos espetáculos mais aclamados do estado e, anteriormente, recebeu o Prêmio Sesc Nacional de Artes Cênicas.
A obra já circulou por diversas cidades e festivais, reafirmando seu compromisso com a descentralização cultural e o diálogo com diferentes territórios.

Programação:
17/04 (sexta-feira), 18/04 (sábado): Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE - Cais do Apolo, nº 142 - centro)
Horário: 19h
Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira)
Gratuidade para pessoas travestis, trans e soropositivas
19/04 (domingo): Teatro Hermilo Borba Filho (Recife/PE - Cais do Apolo, nº 142 - centro)
Horário: 17h
Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira)
Gratuidade para pessoas travestis, trans e soropositivas
25/04 (sábado): Quilombo Conceição das Crioulas (Salgueiro/PE)
Horário: 19h
Gratuito
Ficha técnica
Texto, direção, letras, cenário e iluminação: Samuel Santos
Idealização e produção geral: O Poste Soluções Luminosas (grupo e espaço)
Criação e produção da composição musical da trilha sonora (melodia, harmonia e arranjo): Beto Xambá e Thulio Xambá
Musicistas do grupo Bongar: Meme Bongar, PH Xambá, Yngrid da Xambá, Beto
Xambá e Thulio Xambá; percussionista convidado: Ninho Brow
Figurino: Agrinez Melo
Preparação musical: Surama Ramos
Preparação de dança afro e direção de movimentos: Darana Costa
Operação de luz: André Cordeiro
Contrarregra: Núcleo O Postinho (Larissa Lira, Sthe Vieira e Cecília Chá)
Fotografias: @ga_olho e @domarrrrrrr
Elenco: Agrinez Melo, Ariel Sobral, Ester Soares, Fernanda Spíndola, Itioko, Jully, Lucas Ferr, Naná Sodré, Pedro Félix, Talles Ribeiro, Thallis Ítalo e Vanise Souza; é importante informar que Ester Soares divide a atuação com Larissa Lira
Realização: projeto “Luz negra: o negro em estado de representação” - Programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas, executado pela Fundação Nacional de Artes, entidade vinculada ao Ministério de Cultura do Governo do Brasil
Assessoria de imprensa do projeto “Luz negra: o negro em estado de representação”: Daniel Lima
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