Orquestra de Frevo Zezé Corrêa inaugura mostra pioneira sobre a estética do frevo rural
- Manu Gomes

- há 1 dia
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Exposição reúne imagens inéditas da Mata Norte pernambucana e propõe um olhar sobre o frevo a partir do território, da memória e do corpo que dança no interior do estado

A cultura popular pernambucana ganha um importante registro de memória e reflexão com a inauguração da mostra “Estética do Frevo Rural”, iniciativa pioneira da Orquestra de Frevo Zezé Corrêa, sediada no distrito de Upatininga, zona rural do município de Aliança, na Mata Norte.
A exposição propõe deslocar o olhar tradicional sobre o frevo, historicamente associado ao Recife, para o interior do estado, onde a dança se constrói em diálogo direto com o território, as tradições populares e o cotidiano das comunidades rurais.
A mostra estreia em formato digital nas redes sociais e, em seguida, ganha versão presencial no Museu da Sociedade Musical 15 de Novembro, consolidando um projeto que articula pesquisa, criação artística e salvaguarda cultural.
Fotografia como registro do corpo e da memória
Apresentada em formatos digital e físico, a exposição reúne mais de 70 imagens inéditas, organizadas em etapas. Cerca de 50 fotografias serão disponibilizadas online, enquanto 30 imagens compõem a versão impressa da mostra.
Por meio da fotografia, o público é convidado a acompanhar passos, giros, cores e gestos que fazem do frevo uma experiência estética, corporal e simbólica. As imagens revelam um corpo que dança a partir da ponta do pé e percorre todo o corpo, traduzindo o frevo como linguagem viva, marcada por técnica, emoção e pertencimento.
A investigação visual nasce do próprio fazer artístico da Orquestra de Frevo Zezé Corrêa. A pesquisa se apoia em uma abordagem etnográfica construída a partir do cotidiano dos passistas do grupo, transformando ensaios, apresentações e deslocamentos em espaços de observação, escuta e produção de conhecimento.
A etnografia, método fundamentado na convivência direta com práticas culturais, se materializa nas vivências comunitárias, familiares e festivas desses jovens dançarinos. A dança deixa de ser apenas performance e passa a atuar como leitura do território, forma de memória e expressão de identidade coletiva.
Frevo: patrimônio, resistência e invenção popular

Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o frevo se afirma como uma das expressões mais complexas da cultura brasileira, reunindo música, dança, capoeira, indumentária, artesanato e poesia em uma mesma manifestação.
Sua origem está ligada a uma combinação de influências históricas e sociais, como as rivalidades entre bandas militares, a presença de capoeiras, os escravizados recém-libertos, a nova classe operária e a ocupação dos espaços urbanos. Desse processo emergiram três modalidades ainda vivas: frevo de rua, frevo de bloco e frevo-canção.
Desde cedo, o frevo também incorporou protesto político e crítica social, afirmando-se como linguagem de resistência e visibilidade para corpos e identidades historicamente marginalizados.
O frevo rural e o diálogo entre brincadeiras populares

Na Mata Norte pernambucana, o frevo assume contornos próprios e se manifesta como frevo rural, profundamente ligado ao território canavieiro e às tradições do interior. Essa expressão dialoga diretamente com manifestações como o maracatu rural, caboclinho, cavalo-marinho, coco de roda, ciranda, boi de carnaval e fandango, atravessando o Carnaval, os festejos juninos e as celebrações natalinas.
Mais do que uma variação do frevo urbano, o frevo rural é construído na convivência entre diferentes brincadeiras populares, transmitido de geração em geração e moldado pelas experiências de agricultores, cortadores de cana, músicos, passistas e brincantes. O corpo que dança carrega marcas do trabalho, da festa, da resistência e da memória coletiva.
As imagens foram captadas de forma itinerante, acompanhando diferentes contextos culturais da região. Um dos protagonistas do ensaio é Adri Popular, bacharel em Educação Física pela UFPE e especialista em danças populares, cuja trajetória está ligada aos ciclos festivos da Mata Norte. Sua presença revela como o frevo rural se constrói a partir do diálogo entre múltiplas tradições.
O ensaio também conta com a participação de Andresa Larisa (23), Rafael Santana (26), Karolayne Maria (23) e Lucynho Vieira (30). Jovens negros, filhos de agricultores e cortadores de cana, eles representam novas gerações que mantêm viva a tradição do frevo no interior pernambucano, evidenciando a dança como espaço de pertencimento, aprendizado e afirmação identitária.
Entre as manifestações que dialogam com o ensaio estão o Maracatu Estrela de Ouro (Aliança), o Caboclinho União Sete Flexas (Goiana), o Bloco Rural Estrelinha (Nazaré da Mata) e o Cavalo-Marinho Boi Pintado (Aliança), referências que atravessam o imaginário corporal e estético das imagens.
Desdobramentos e realização do projeto

Na versão presencial, as obras serão impressas em papel fosco nos formatos 10x15 cm, 15x21 cm e 20x30 cm, ampliando a leitura dos detalhes, cores e expressões corporais. O tamanho das imagens permite ao público perceber com maior nitidez a tensão do movimento e a energia que atravessa o corpo do passista, reforçando a dança como linguagem visual e sensorial.
A exposição será aberta ao público no Museu da Sociedade Musical 15 de Novembro, em Upatininga, com visitação gratuita durante a semana pré-carnavalesca. A mostra segue em cartaz até o dia 13 de fevereiro e, posteriormente, passa a integrar o acervo permanente da instituição, fortalecendo ações de memória e salvaguarda do frevo rural.
Como desdobramento da pesquisa, a equipe trabalha na produção de um ebook, que reunirá parte do ensaio fotográfico e textos de contextualização, ampliando o alcance do projeto.
A iniciativa foi idealizada por Ederlan Fábio e desenvolvida de forma independente, sem incentivo público. O trabalho é realizado pela Sociedade Musical 15 de Novembro, fundada em 1888, por meio da Escola de Frevo Zezé Corrêa, dedicada à formação, pesquisa e preservação do frevo no interior de Pernambuco.
A produção é assinada pela Associação Reviva e pelo Ponto de Cultura e Memória 15 de Novembro de Upatininga. A assessoria de comunicação é da Hub Baobá – Comunicação, Cultura e Inovação, e as imagens são de Pedro Gonçalves, responsável pelo ensaio visual que estrutura a mostra.
Serviço
O quê: Mostra Estética do Frevo Rural – Orquestra de Frevo Zezé Corrêa;
Estreia digital: Redes sociais da Escola de Frevo Zezé Corrêa;
Instagram: @escola.zezecorrea;
Exposição presencial: Museu da Sociedade Musical 15 de Novembro – Distrito de Upatininga, Aliança (PE);
Visitação: Gratuita.



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