top of page

Pernambuco ganha 10 novos Patrimônios Vivos no Dia do Patrimônio Cultural

Artistas e grupos foram oficialmente reconhecidos nessa segunda (17), durante a abertura da 19ª Semana Estadual do Patrimônio Cultural


Os dez novos Patrimônios Vivos de Pernambuco representam o reconhecimento da importância das suas contribuições para a preservação e valorização da cultura popular do estado. Foto: Silla Cadengue/Fundarpe
Os dez novos Patrimônios Vivos de Pernambuco representam o reconhecimento da importância das suas contribuições para a preservação e valorização da cultura popular do estado. Foto: Silla Cadengue/Fundarpe

Pernambuco ganhou, na última segunda-feira (17), dez novos Patrimônios Vivos do Estado. O reconhecimento foi oficializado no Dia do Patrimônio Cultural, durante a abertura da 19ª Semana Estadual do Patrimônio Cultural de Pernambuco. A nova lista reúne mestres, mestras, grupos e comunidades responsáveis pela preservação de diferentes manifestações e saberes da cultura popular pernambucana.


Os novos Patrimônios Vivos são Teco Agamenon, de Triunfo; Terreiro de Mãe Amara, do Recife; Mestre João Paulo, de Nazaré da Mata; Barracão Mãe Nadja, do Recife; Gres Preto Velho, de Olinda; Maracatu Crizeiro do Forte, do Recife; Mestra Di, de Olinda; Família Vitalino, de Caruaru; Mestre Zé Negão, de Camaragibe; e Juliana Pankararu, de Jatobá.


A escolha foi  realizada pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC) no dia 6 de agosto, quando os dez nomes foram anunciados. A cerimônia dessa segunda-feira marcou a oficialização do título, em uma data simbólica para a valorização e preservação da memória cultural do estado.


Com os novos reconhecimentos, Pernambuco passa a contar com 125 Patrimônios Vivos. Entre os homenageados estão representantes de comunidades e tradições indígenas e afro-brasileiras. A lista também inclui terreiros, um grupo de maracatu, uma escola de samba e representantes de manifestações tradicionais de diferentes regiões do estado, ampliando a diversidade de saberes contemplados pela política de Patrimônios Vivos.


Reconhecimento e transmissão de saberes

Criado em 2002, o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco é uma das principais políticas públicas do estado voltadas à valorização e preservação da cultura popular. A iniciativa reconhece pessoas, grupos e comunidades que possuem notório saber e atuam na continuidade de práticas e conhecimentos tradicionais.


Os Patrimônios Vivos recebem uma bolsa vitalícia. Atualmente, o benefício é de R$ 2.479,41 para indivíduos e R$ 4.958,85 para grupos. Como contrapartida, os homenageados participam de ações de ensino e aprendizagem promovidas pelo Governo de Pernambuco, por meio de órgãos como a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), a Secretaria de Cultura e a Secretaria de Educação.


Os homenageados passam a integrar uma política que busca garantir que seus conhecimentos e práticas continuem sendo compartilhados entre gerações.


Conheça os 10 novos Patrimônios Vivos de Pernambuco:


TECO DE AGAMENON - Início e Tradição: Agamenon Gonçalves Lima Filho, o Teco de Agamenon, é brincante e artesão da tradição do Careta em Triunfo-PE desde 1965 (quando tinha 8 anos). Aprendeu na prática a confeccionar máscaras, chapéus, relhos e vestimentas com os mais velhos.

Ensino e Oficinas: Dedica sua vida a repassar esse saber cultural para crianças e jovens em seu quintal, escolas e projetos. Expandiu sua atuação para outros municípios e estados (como no Ceará, em parceria com o SESC), além de expor e comercializar suas peças em feiras de artesanato local.


FAMÍLIA VITALINO - Linhagem e Tradição: O grupo é formado por descendentes diretos de Mestre Vitalino, com foco na linhagem de seu filho, Severino Vitalino. Há mais de 60 anos, atuam no Alto do Moura (Caruaru-PE) e mantêm há 54 anos suas atividades na mesma residência e oficina histórica.

Domínio do Saber-Fazer ("Escola Vitalina"): Atualmente na quarta e quinta gerações, a família preserva todo o ciclo produtivo da arte figurativa em argila (extração, preparo do barro, modelagem, paleta de cores tradicional e queima), retratando o cotidiano e a cultura do povo agrestino.


MESTRE ZÉ NEGÃO - Origem e Formação: Nascido José Manoel dos Santos em 1950, de ascendência negra e indígena, trabalhou desde a infância no corte de cana. Iniciou sua vivência na cultura popular aos 13 anos, passando por folguedos, escolas de samba, Cavalo Marinho, ciranda e coco de roda.Guardião do Coco de Senzala: Como Mestre, preserva o Coco de Senzala, manifestação afro-indígena com ritmo e cadência ancestral dos engenhos. Cria composições autorais inspiradas em sonhos e registradas por sua companheira, Mestra Fátima, abordando a luta contra o racismo e o trabalho na terra.

Ações Comunitárias e o Projeto LAIA: Radicado em Camaragibe-PE desde 1978, fundou o Projeto Negão (1994) e o Laboratório de Intervenções Artísticas – Laia (2003). Atuou ativamente no desenvolvimento do Loteamento João Paulo II, articulando desde mutirões para moradia e saúde até a criação do espaço cultural Canto das Memórias.


JULIANA PANKARARU - Identidade e Origem: Indicada pelo Grupo Curumim Gestação e Parto, Juliana Maria da Silva (Juliana Pankararu) é uma mulher indígena de 52 anos, residente no Território Indígena Aldeia Saco dos Barros, em Jatobá (Sertão de Pernambuco).

Saberes Ancestrais e Medicina Tradicional Indígena: Atua como mendeira (benzedeira), raizeira e parteira tradicional. Aprendeu por meio da oralidade com sua mãe, avó e tias, utilizando plantas do território indígena para chás, banhos e garrafadas.


MESTRA DI - Origem e Identidade: Nascida em Olinda (PE) em 1973, Adriana Luz do Nascimento (Mestra Di) é uma mulher afroindígena e periférica, mãe de duas filhas e com uma trajetória marcada pelo frevo (onde foi aluna do Mestre Nascimento do Passo) e pela capoeira.

Carreira na Capoeira: Iniciou suas práticas aos 13 anos (1985) no Centro de Capoeira Angola Mãe sob o ensino de Mestre Sapo. Formou-se contramestra em 2011 e foi diplomada e reconhecida internacionalmente como Mestra de Capoeira Angola em 2016 e 2019.

Pioneirismo Internacional e Atuação: Em 1997, tornou-se a primeira mulher brasileira a lecionar Capoeira Angola na Europa, lecionando por anos na Alemanha e na Itália antes de retornar ao Brasil em 2004 para atuar em eventos e projetos voltados a mulheres capoeiristas.


MARACATU CRUZEIRO DO FORTE - Origem e Fundação: Fundado em 1929 no bairro dos Torrões (zona oeste do Recife), o grupo surgiu espontaneamente do convívio de trabalhadores rurais da Zona da Mata Norte. Com quase um século de atuação, é uma referência histórica do Maracatu de Baque Solto no ambiente urbano.

Sede e Ação Sociocultural: Atualmente localizado no bairro do Cordeiro, o grupo desenvolve um trabalho sociocultural focado na formação de artesãos. Ensina jovens e adultos a bordar e confeccionar os figurinos, adereços e golas tradicionais, capacitando membros da comunidade para o mercado de trabalho.

Trajetória e Conquistas: Sob a liderança de Maria da Conceição Silva, o grupo reúne mais de 150 componentes. É uma das agremiações de maior destaque do Carnaval pernambucano, somando 15 títulos de campeão — sendo 12 vitórias consecutivas entre os anos de 2002 e 2013.


GRES PRETO VELHO - Origem e Identidade: Fundado em 24 de dezembro de 1974 pela tradicional Família Lobo e por lideranças como Mestre Zuza, o Preto Velho fica no Sítio Histórico de Olinda (Alto da Sé). É a única escola de samba em atividade contínua no município, representando mais de 50 anos de afirmação do samba e das tradições afro-brasileiras na cidade.

Formação e Transmissão de Saberes: Funciona como um espaço comunitário de ensino contínuo de percussão, dança, confecção artesanal de indumentárias e gestão cultural. A famosa "Bateria Nota 10" é o principal símbolo desse processo educativo que envolve crianças, jovens e adultos, principalmente em ensaios e oficinas aos domingos.


BARRACÃO DE MÃE NADJA - Origem e Identidade: Fundado em 1996 no bairro do Ibura (Recife) por Mametu Baléginam Nadja de Angola Goméia, o Terreiro Kaiangu Kia Itembu (Abassá Axé Oyá Balé Omim) é um centro sagrado do Candomblé de Nação Angola (matriz Bantu). Atua como um espaço de resistência, fé, apoio social e memória ancestral para a comunidade periférica local.

Metodologia de "Escola Viva": O terreiro funciona como uma escola viva de formação comunitária. A transmissão do conhecimento ocorre na prática diária e no convívio intergeracional por meio da oralidade, observação, repetição ritual e mutirões.


MESTRE JOÃO PAULO - Trajetória e Título: Nascido em Vicência e radicado em Nazaré da Mata (Mata Norte de PE), Mestre João Paulo tem mais de 40 anos dedicados ao Maracatu de Baque Solto (Maracatu Rural). Ficou popularmente conhecido como o "Papa do Maracatu" após o lançamento de seu primeiro CD em 2002, sendo reconhecido como um dos maiores poetas e mestres de sua geração.

Mestria e Transmissão de Saberes: É fundador, presidente e mestre do Maracatu Leão Misterioso (criado em 1990). Ensina de forma oral e prática a novos brincantes tanto a poética (versos, rimas e improvisos) quanto o artesanato e adereços (confecção de golas, chapéus, surrões e guiadas). Serviu de inspiração e formação para diversos outros mestres da cultura popular.


TERREIRO DE MÃE AMARA - Origem e Identidade: Fundado em 18 de junho de 1945 por Mãe Amara de Xangô Aganjú (Obá Meji) no bairro de Dois Unidos (Recife-PE), possui mais de 80 anos de atuação contínua na preservação, salvaguarda e difusão da tradição e cultura nagô em Pernambuco.

Liderança Matriarcal e Transmissão: Organizado sob uma estrutura organizacional e familiar matriarcal, a liderança e os saberes ancestrais são mantidos por suas descendentes diretas (como a Yalorixá Maria Helena Mendes Sampaio e suas sucessoras), que garantem a formação contínua por meio da oralidade e vivência ritual.

Projetos Culturais e Políticos: É berço e articulador de iniciativas culturais e sociais como o Afoxé Oyá Alaxé, o Balé Nagô Ajô, o Coral Amadê Korin Nagô e espetáculos formativos. Destaca-se também pelo pioneirismo ao criar a primeira Rede de Mulheres de Terreiro do Brasil, fortalecendo a liderança feminina e o combate ao racismo religioso.



Comentários


bottom of page