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"No fucking shay": Ballroom PE celebra 10 anos com edição histórica na Alepe

Atualizado: há 21 horas

Celebrando 10 anos de re(existência) em uma noite que marca a preservação da memória da comunidade LGBTQIAPN+, da arte, da cena local e, sobretudo, da cultura queer 


Na última quinta-feira (13), a Assembleia Legislativa de Pernambuco (ALEPE), bairro da Boa Vista, Recife, foi espaço para uma celebração que dificilmente passa despercebida. A Ball de Todas as Casas: ALEPE Edition levou a cultura ballroom para dentro do Legislativo pernambucano em uma noite marcada por performances, premiações, discursos e homenagens aos dez anos de trajetória da Ballroom PE.


A Ball de Todas as Casas: ALEPE Edition. Imagem: Beatriz Dias/ Manguetown Revista
A Ball de Todas as Casas: ALEPE Edition. Imagem: Beatriz Dias/ Manguetown Revista

A escolha do local não foi por acaso. A ocupação na ALEPE é simbólica em diversos sentidos, tendo em vista, principalmente, que os espaços políticos foram e ainda são estruturados para que à população LGBTQIAPN+ não os ocupe. Dessa vez a pista, as Houses, os looks e as performances fizeram parte da paisagem do prédio público.


O evento também acontece em um momento importante para o reconhecimento institucional da cultura ballroom em Pernambuco. Em junho deste ano, foi sancionada a Lei nº 19.265, que institui a Semana Estadual de Celebração da Cultura Ballroom, a qual será realizada anualmente no dia 23 de outubro. A lei teve origem em um projeto de autoria da deputada estadual Dani Portela e articulação do historiador e produtor cultural Vyvo Dayo.


Do auditório à pista: memória e organização política


A programação começou no Auditório Ênio Guerra, antes das disputas ocuparem o espaço. Discursos e homenagens abriram a noite e reafirmaram a importância da cultura ballroom e da organização política construída pela comunidade ao longo dos anos.


Nayla Maria se apresentando no canto do ponto "Eu Vi Mamãe Oxum na Cachoeira". Imagem: Beatriz Dias/ Manguetown Revista
Nayla Maria se apresentando no canto do ponto "Eu Vi Mamãe Oxum na Cachoeira". Imagem: Beatriz Dias/ Manguetown Revista

O momento também ajudou a situar a celebração: os dez anos da Ballroom PE não dizem respeito apenas à realização de Balls. A trajetória vai muito além e envolve a criação de espaços de encontro, acolhimento, expressão e articulação para e pela comunidade LGBTQIAPN+. A cultura ballroom foi e é construída por pessoas LGBTQIAPN+, sobretudo, por pessoas pretas, trans e periféricas, que historicamente é uma população profundamente marginalizada dentro da sociedade. 


Depois dos discursos e das homenagens, a programação seguiu para a Ball. A mudança de espaço também marcou uma mudança de dinâmica importante. Se no auditório a palavra estava no centro, na pista foram os corpos, as roupas, a música e as performances que conduziram a noite.


A pluralidade de categorias, expressões e performances


Na pista, a diversidade da cultura ballroom apareceu nas diferentes categorias da competição. Entre elas estavam as Houses, ou casas, formadas por equipes que participam das disputas, além de categorias como Best Dressed, voltada para a apresentação visual, e Face, relacionada ao rosto e à expressão.


Cada categoria possui suas próprias características e formas de avaliação, criando diferentes possibilidades de performance. O resultado é uma pista ocupada por linguagens diversas, em que roupa, presença, expressão corporal e criatividade fazem parte da disputa.


Mais do que reunir diferentes performances em uma mesma noite, a Ball também colocou em evidência uma característica fundamental da cena ballroom: a construção coletiva. As Houses funcionam como equipes dentro das competições, mas também fazem parte de uma estrutura de comunidade que atravessa a própria dinâmica dos eventos e da vida das pessoas que fazem parte dela. 


Uma década de Ballroom PE — e uma pista dentro da política


Levar a Ballroom para a ALEPE foi também uma forma de marcar presença. Em um espaço tradicionalmente e historicamente ocupado por representantes e instituições políticas, a comunidade LGBTQIAPN+ esteve presente por meio de sua própria cultura, suas performances e sua organização. 


A existência de eventos como esse mostra que a articulação política não só pode como também deve acontecer por meio da cultura. A cada Ball, as comunidades criam espaços de encontro, visibilidade e reconhecimento. Quando essa cena chega a uma instituição como a ALEPE, a ocupação ganha outra dimensão e novos caminhos para serem seguidos. Portas que antes sequer existiam, são criadas e atravessadas.


Vyvo Dayo na categoria best dressed. Imagem: Beatriz Dias/ Manguetown Revista
Vyvo Dayo na categoria best dressed. Imagem: Beatriz Dias/ Manguetown Revista

No caso da Ballroom PE, os dez anos celebrados nesta edição representam uma trajetória construída coletivamente. Uma história que passa pela arte, mas não termina nela. Passa pela performance, mas também pela criação de redes, pela preservação de memória e pela luta por espaço e reconhecimento.


A criação da Semana Estadual de Celebração da Cultura Ballroom é parte desse processo. E a realização de um Ball dentro da ALEPE reforça uma mensagem que atravessa a própria história da cena: ocupar espaços também é uma forma de reivindicar que esses espaços pertencem a todas as pessoas.


Na pista, entre performances, Houses e categorias, a celebração dos dez anos da Ballroom PE foi também uma celebração de sua permanência e força. Uma cultura que continua criando seus próprios espaços — e, cada vez mais, ocupando aqueles que antes pareciam não ter lugar para ela. Uma cultura que não só ocupa espaços, mas também ressignifica e cria espaços novos. Como diz o dialeto da cultura ballroom “No funking shame!”, no bom português: sem vergonha nenhuma.


Material escrito por Beatriz Dias da Manguetown Revista e revisado por Leandro Lopes da Manguetown Revista.






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