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Quando o corpo vira lei: Pernambuco reconhece a Ballroom como memória, arte e resistência

Nova legislação inclui a semana do dia 23 de outubro no calendário oficial do Estado e valoriza uma cultura construída por pessoas negras, trans, periféricas e LGBTQIAPN+


Os corpos que, durante décadas, precisaram criar os próprios espaços para existir, dançar e celebrar agora também passam a ocupar oficialmente o calendário de Pernambuco. A Lei nº 19.265, de 25 de junho de 2026, institui a Semana Estadual de Celebração da Cultura Ballroom, que será realizada anualmente na semana em que estiver o dia 23 de outubro, data que marca a realização do primeiro baile ballroom do estado, em 2016.


Luara Gal em um Ball. Imagem: @ionacvl_ @multicolorida__ / Reprodução
Luara Gal em um Ball. Imagem: @ionacvl_ @multicolorida__ / Reprodução

Originada de um projeto de autoria da deputada estadual Dani Portela, a nova legislação altera a Lei nº 16.241/2017, responsável por reunir os eventos e as datas comemorativas oficiais de Pernambuco. A proposta passou pelas comissões da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) antes de ser aprovada e transformada em lei.


Na prática, a norma reconhece a importância histórica, artística e social da cultura Ballroom em Pernambuco. O texto, porém, limita-se a incluir a celebração no calendário oficial, sem determinar orçamento específico, programação obrigatória ou a criação imediata de políticas públicas. O reconhecimento pode, entretanto, fortalecer a realização de balls, oficinas, debates, exposições, ações educativas e atividades voltadas à preservação da memória da cena.


Mas o que é a cultura Ballroom?


Ballroom é uma cultura criada principalmente por pessoas negras, latinas, trans e LGBTQIAPN+ nos Estados Unidos, em resposta à exclusão que esses grupos enfrentavam até mesmo dentro de outros espaços de convivência e entretenimento. As balls se tornaram territórios de expressão, competição, acolhimento e construção de comunidade.


Um ball, palavra que significa baile, é um evento no qual participantes desfilam, dançam ou apresentam performances em diferentes categorias. Cada categoria possui critérios próprios e pode avaliar elementos como movimento, figurino, atitude, beleza, criatividade, identidade e domínio de cena.



Entre as modalidades de dança estão o Old Way, marcado por linhas, poses e movimentos mais rígidos; o New Way, que exige flexibilidade, precisão e controle corporal; e o Vogue Femme, conhecido por movimentos femininos intensos, giros, quedas, passarela e gestos inspirados no universo da moda.


As pessoas também podem fazer parte de uma house, ou casa. As houses funcionam como equipes dentro das competições, mas sua importância ultrapassa as pistas. Elas são redes de afeto, formação, proteção e apoio, especialmente para integrantes que enfrentam rejeição familiar, racismo, transfobia, LGBTfobia ou dificuldades econômicas. Quem não pertence a uma casa pode se apresentar como 007, expressão utilizada para participantes independentes.


Uma Ballroom com sotaque pernambucano


Ao chegar ao Brasil, a Ballroom não foi simplesmente reproduzida. A cultura foi transformada pelas experiências, músicas e identidades de cada território. Categorias como Favela Realness e Afrobeat Performance dialogam com vivências brasileiras, enquanto Pernambuco passou a incorporar referências do brega funk e do brega rasgado aos seus balls.


A escolha de 23 de outubro também está ligada à história local. De acordo com a justificativa apresentada na Alepe, o primeiro baile da cena pernambucana aconteceu nessa data, em 2016, dentro da programação do festival No Ar Coquetel Molotov. A partir daquele encontro, a comunidade cresceu, formou casas e passou a organizar batalhas, oficinas, performances e ações em diferentes cidades.


Entre as organizações mencionadas no projeto estão a House of Kunoichis, Vogue 4 Recife, Vogue Yapoatan, Casa da Baixa Costura, Cunt de Cria, House of Guerreiras, Casa de Candaces, Casa da Lama e Casa de Neith, além de artistas e pessoas independentes que ajudam a movimentar a cultura.


Luara Gal: dança, sobrevivência e construção coletiva


Em janeiro de 2026, antes da transformação do projeto em lei, a Manguetown Revista conversou com Luara Gal, multiartista pernambucana que integra a cena Ballroom do Recife. Fotógrafa, estudante de Artes Visuais e dançarina, ela contou como encontrou no vogue uma linguagem para expressar a própria feminilidade e compreender o corpo como território artístico e político.



Luara entrou inicialmente na cena por trás das câmeras, fotografando festas e corpos dissidentes. Ao acompanhar uma ball, porém, percebeu que também desejava ocupar o centro da pista. Depois de experiências com dança contemporânea e danças pélvicas, aproximou-se do vogue e passou a estudar seus movimentos, códigos e histórias.


A trajetória da artista ajuda a explicar como funcionam algumas categorias. Luara se identifica como Femme Queen, denominação utilizada na Ballroom para mulheres trans e travestis que performam diferentes expressões de feminilidade. Dentro das competições, ela também enfrentou o chamado chop, que acontece quando uma participante é eliminada antes de seguir para as batalhas de uma categoria.



A eliminação, segundo relatou à revista, tornou-se um estímulo para aprofundar os treinamentos. Com o desenvolvimento técnico e artístico, Luara conquistou Grand Prizes, reconhecimento concedido a quem vence uma categoria de destaque em um ball.


A artista também integra a Kiki House of Kunoichis, uma das casas que atuam na cena pernambucana. Para ela, pertencer a uma house significa aprender não apenas dança, mas produção cultural, elaboração de projetos, organização comunitária e transmissão de conhecimentos.


“A Ballroom me salvou e me salva todos os dias. É um lugar onde eu estou com as minhas, onde a gente constrói família de verdade”, afirmou Luara à Manguetown Revista.

Ao transformar a celebração em lei, Pernambuco reconhece uma história que já estava sendo escrita nos bailes, nas periferias, nas houses e nos corpos de quem encontrou na performance uma maneira de sobreviver. Como resumiu Luara Gal durante a entrevista: “Chega perto da Ballroom. Está acontecendo aqui, agora, debaixo do teu nariz.”


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