Relembrar para manter vivo: Dominguinhos e Ariano Suassuna seguem no coração da cultura nordestina
- Manu Gomes

- há 2 dias
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Relembre, entre acordes e palavras, como a memória de dois mestres da cultura brasileira segue ecoando no tempo e na identidade do povo

“Dos versos de um poeta sonhador / Vejo um rio de silêncio que ficou / Suas obras estão vivas na memória / Grande homem escritor de estórias”: a homenagem realizada em 2015 pela quadrilha Zé Monteirão, em Boa Vista (RR), durante o São João, traduz com delicadeza o sentimento que atravessa o país ao relembrar Ariano Suassuna.
Esse mesmo afeto se atualiza em releituras contemporâneas — como nos projetos de João Gomes dedicados ao repertório de Dominguinhos —, evidenciando que o legado nordestino não se limita à memória: ele segue em movimento, reinventado a cada nova geração.
Nesta quinta-feira (23), a Manguetown Revista relembra a partida de dois desses ícones: Dominguinhos (1941–2013) e Ariano Suassuna (1927–2014), artistas que, mesmo em linguagens distintas, transformaram suas obras em patrimônios da identidade cultural brasileira.
O som que inspira gerações

Nascido em Garanhuns, no Agreste pernambucano, Dominguinhos iniciou sua trajetória ainda criança e encontrou em Luiz Gonzaga não apenas um mestre, mas um verdadeiro norte artístico. Herdeiro da tradição da sanfona, ele ampliou os horizontes do forró, levando o gênero a novos públicos sem jamais romper com suas origens.
Com uma carreira que atravessou décadas, consolidou clássicos como “Eu Só Quero um Xodó (1962)” e “Gostoso Demais (1986)”, além de estabelecer parcerias com grandes nomes da música brasileira. Sua sonoridade, ao mesmo tempo fiel e inovadora, foi fundamental para atualizar o forró, inserindo-o em novos circuitos culturais e reafirmando sua potência como expressão popular.
Mais do que intérprete, Dominguinhos foi um mediador entre gerações: alguém que traduziu tradições em linguagem contemporânea, mantendo viva a essência do Nordeste. Sua morte, em 2013, deixou um vazio simbólico — rapidamente preenchido pela permanência de sua música, que segue ecoando em festas populares, palcos e na memória afetiva de diferentes gerações.

O sertão literário

Se Dominguinhos deu ritmo ao Nordeste, Ariano Suassuna transformou o sertão em linguagem, pensamento e projeto estético. Nascido em 1927 na Paraíba, mas de coração pernambucano, o escritor construiu uma obra profundamente conectada às tradições populares, sem abrir mão do rigor erudito.
Autor de clássicos como “O Auto da Compadecida (1955)”, “A Pedra do Reino (1971)”, “O Santo e a Porca (1957)” e “Farsa da Boa Preguiça (1960)”, Suassuna criou personagens e universos que condensam o humor, a religiosidade e as contradições do sertão nordestino. Sua escrita, marcada pela oralidade e pela inventividade, tornou-se referência incontornável da literatura brasileira.
Criador do Movimento Armorial, defendeu a construção de uma arte erudita genuinamente brasileira a partir das matrizes populares, articulando música, literatura, artes visuais e teatro. Além disso, destacou-se como professor e conferencista, eternizando suas célebres “aulas-espetáculo”, em que refletia sobre cultura e identidade com carisma, humor e profundidade.
Sua morte, em 2014, não interrompeu sua influência. Ao contrário, sua obra segue viva no teatro, na literatura e no pensamento cultural brasileiro, reafirmando o sertão como território de invenção, memória e permanência.

Memória de dois grandes nomes
Relembrar Dominguinhos e Ariano Suassuna vai além do que elaborar uma linha do tempo das carreiras: é reconhecer as suas contribuições em um Brasil que ainda disputa sentidos sobre sua própria cultura.
Cada um à sua maneira, eles transformaram experiências locais em expressões de reconhecimento internacional, fazendo da sanfona e da escrita meios de resistência. O Nordeste que ambos defenderam muito segue vivo — não apenas como território, mas como linguagem, invenção e força criativa que se faz presente até os dias atuais em nossos corações.
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