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“Sete Corações”, de Déa Ferraz, eterniza os mestres do frevo e preserva a memória musical de Pernambuco

Lançado em 2014, o documentário constrói um registro sensível e indispensável da memória musical de Pernambuco


Mais do que um documentário musical, Sete Corações (2014) se firma como um gesto de preservação da memória cultural pernambucana. Dirigido por Déa Ferraz, o filme reúne sete nomes fundamentais da história do frevo: os maestros Ademir Araújo, Clóvis Pereira, Duda, Edson Rodrigues, Guedes Peixoto, José Menezes e Nunes. A partir de suas trajetórias, o longa constrói um retrato sensível de um gênero que pulsa identidade, resistência e afeto. Lançado em um momento de crescente debate sobre a salvaguarda das tradições populares, o documentário não se apressa e prefere escutar, observar e deixar que o tempo desses mestres conduza a narrativa.


Da esquerda para direita: Maestro Edson Rodrigues, Déa Ferraz e Maestro Duda. Imagens: Prefeitura do Recife | Divulgação/ Déa Ferraz e Peu Ricardo/ PCR/ Divulgação
Da esquerda para direita: Maestro Edson Rodrigues, Déa Ferraz e Maestro Duda. Imagens: Prefeitura do Recife | Divulgação/ Déa Ferraz e Peu Ricardo/ PCR/ Divulgação

Em clima de Carnaval, a Manguetown Revista assistiu a “Sete Corações” e identificou como grande mérito do documentário a decisão de colocar os maestros no centro da narrativa, não apenas como compositores consagrados, mas como sujeitos que viveram o frevo em suas múltiplas dimensões. Ao longo do filme, lançado em 2014, memórias pessoais, relatos de bastidores e reflexões sobre o fazer musical contribuem para humanizar personagens muitas vezes tratados apenas como referências históricas. O espectador é convidado a olhar para o frevo para além da folia, compreendendo-o como um projeto de vida marcado por disciplina, paixão e profundo sentimento de pertencimento.



A construção estética acompanha essa proposta com sobriedade e respeito. A câmera se mantém atenta aos detalhes: o gesto das mãos, o sopro dos metais, o silêncio que antecede a música. Sem recorrer a excessos visuais, “Sete Corações” aposta em uma linguagem simples e precisa, coerente com a intenção de valorizar a palavra e o som desses mestres, reforçando seu caráter documental e histórico.


Outro ponto alto é o encontro simbólico dos sete maestros em torno da criação coletiva do frevo que dá nome ao filme. Essa composição funciona como metáfora do próprio documentário: trajetórias distintas que se cruzam, dialogam e se completam em um mesmo gesto de partilha. Nesse momento, o filme evidencia que tradição não é algo estático, mas um processo vivo, construído coletivamente e transmitido entre gerações.


Ao final, “Sete Corações” se afirma como um documento fundamental para a compreensão do frevo e de sua relevância cultural. Mesmo 12 anos após seu lançamento, o filme evidencia a importância de preservar e difundir a obra desses artistas que ajudaram a construir e a manter viva a essência de uma das expressões mais centrais da cultura pernambucana. Mais do que um registro histórico, o documentário destaca a urgência de escutar aqueles que abriram caminhos para o ritmo e que continuam reverberando na identidade musical do estado. Atual e necessário, o filme dirigido por Déa Ferraz segue pulsando como o próprio coração do frevo pernambucano.


Embora não esteja em fácil acesso para o público, “Sete Corações” reforça a importância de compreender o trabalho desenvolvido por Déa Ferraz, cuja abordagem sensível e comprometida com a memória cultural se repete ao longo de sua filmografia. A relevância do documentário também se amplia ao observar a trajetória singular da diretora em outras produções, como “Câmara de Espelhos” (2016), “Modo de Produção” (2017) e “Mateus” (2018), obras que dialogam com temas como identidade, processo criativo e preservação cultural.


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