Trabalho que sustenta a tradição: Os manipuladores dos bonecos gigantes de Olinda e a trajetória até se tornar Patrimônio Cultural Imaterial
- Manguetown Revista

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Com sua origem religiosa, os famosos “Bonecos de Olinda” vieram de longe até se tornarem um dos momentos mais esperados e marcantes do carnaval pernambucano

Quando o Carnaval de Pernambuco começa, o olhar do mundo se volta inevitavelmente para o alto. Acima da multidão, figuras gigantes dançam com uma leveza que desafia a física, transformando as ladeiras históricas em um teatro ao ar livre. Os famosos Bonecos Gigantes de Olinda, hoje símbolos supremos da folia pernambucana, carregam em sua estrutura muito mais do que tintas vibrantes e sorrisos: eles sustentam séculos de uma história que atravessou o oceano, desembarcou no sertão e encontrou sua morada definitiva no litoral.
A origem dessas figuras remonta à Europa da Idade Média, muito antes de conhecerem o frevo. Originalmente, bonecos de grandes proporções eram utilizados em procissões religiosas, especialmente nas celebrações de Corpus Christi, para representar santos católicos ou demônios que seriam "expulsos" pela fé.
Com o tempo, essas figuras transitaram das celebrações religiosas para as festas populares na Espanha e em Portugal, de onde partiriam para o Novo Mundo. Contrariando o senso comum de que a tradição nasceu nas ladeiras de Olinda, o "pai" dos bonecos brasileiros surgiu no sertão pernambucano, às margens do Rio São Francisco.
Origem e criação
Foi na cidade de Belém do São Francisco, em 1919, que o primeiro gigante ganhou vida. Batizado de "Zé Pereira", o boneco foi confeccionado pelo jovem Gumercindo Pires de Carvalho, que ouvia relatos de um padre belga sobre as festas europeias. Zé Pereira não veio sozinho por muito tempo; em 1929, ganhou uma companheira, a "Vitalina", estabelecendo a tradição dos casais de bonecos que se tornaria uma marca registrada.
A consagração definitiva e a fama internacional, contudo, vieram com a chegada da tradição à antiga capital, Olinda. Em 1932, a cidade viu nascer o seu mais ilustre e místico habitante: o "Homem da Meia-Noite".
Criado por Benedito Bernardino da Silva e talhado por Luciano Anacleto de Queiroz, o calunga, foi concebido para ser o símbolo do Clube Carnavalesco de Alegoria e Crítica O Homem da Meia-Noite. Diferente de seus antecessores sertanejos, ele carregava uma aura de mistério e elegância, vestindo fraque e cartola verde e branca, tornando-se o guardião oficial da abertura do Carnaval olindense.
Nas décadas seguintes, a família de gigantes cresceu, impulsionada pelo talento de mestres bonequeiros como Silvio Botelho, responsável por popularizar a técnica e criar centenas de personagens. Surgiram a "Mulher do Dia" (1967), o "Menino da Tarde" (1974) e uma infinidade de figuras contemporâneas que retratam desde personalidades locais até ícones mundiais.
Hoje, os Bonecos Gigantes não são apenas alegorias festivas; são Patrimônio Cultural Imaterial que atrai milhares de turistas e reafirma, a cada passo pesado nas ladeiras, a identidade única de um povo que sabe agigantar sua própria história.
Onde o boneco ganha vida
Diogo Martins tem 26 anos e carrega bonecos gigantes desde sua adolescência, aos 15 anos. A relação começou em 2015, na casa de Silvio Botelho, reconhecido como o “pai dos bonecos gigantes de Olinda”. Foi ali, entre oficinas e cabeções, que ele deixou de ser apenas mais um menino encantado pelo Carnaval para se tornar parte da engrenagem que sustenta a tradição.

“Quando a gente é criança, tem aquela curiosidade de pensar ‘poxa, bonecos gigantes’. Minha primeira visão de Carnaval foi na casa de Silvio, que é conhecida como fábrica de sonhos”, conta. Ele começou observando os mais velhos, pedindo orientação, aprendendo o “macete” e o gingado necessário para equilibrar um boneco pelas ladeiras históricas. “A gente cola junto com os mais velhos, respeita, aprende. E hoje sou um dos manipuladores, subindo e descendo ladeira”, conta.
Ser manipulador não é ocupação exclusiva de Carnaval. No dia a dia, Diogo trabalha fora. Mas, nos fins de semana e durante o período carnavalesco, retorna às ladeiras para não “perder o costume”. “Não é todo mundo que chega e vai carregar. Tem boneco que pesa de 15 a 50 quilos. É 40 graus de calor, subindo e descendo ladeira. A gente se prepara o ano todo, cuida da saúde, da alimentação, quando chega perto do Carnaval, faz um check-up. É muita responsabilidade”, relata.
A responsabilidade não é apenas física. Para ele, carregar um boneco gigante é sustentar uma marca cultural reconhecida no mundo inteiro, “quem vem de fora não quer saber quem é Diogo que tá embaixo, eles dizem ‘é o boneco de Olinda’. A gente que tá lá dentro não aparece, mas a gente é a alma do bloco”.
Do molde ao desfile
Ao longo das décadas, a produção também evoluiu. Se antes os bonecos eram feitos de papel machê e isopor, materiais vulneráveis às chuvas de março, nos anos que o carnaval era bissexto, hoje a fibra de vidro garante resistência e durabilidade.
O processo começa com pesquisa e fotos do homenageado. Em seguida, vem a modelagem em argila, onde a caricatura ganha forma. Depois, a retirada do molde em fibra, a montagem do corpo e, por fim, a decoração e o figurino carnavalesco. Um trabalho artesanal que mistura técnica, arte e identidade.
A tradição se mantém pelo aprendizado entre gerações, as crianças de Olinda começam pequenas, improvisando com caixotes e garrafões, até se integrarem aos grupos de manipuladores.

Entre flashes e multidões, os manipuladores permanecem anônimos. São eles que dançam, equilibram, descansam em pé e mantêm o boneco vivo por horas. Não assinam o nome na fachada, não aparecem na foto principal, mas sustentam uma das maiores expressões da cultura popular pernambucana.
Enquanto os gigantes desfilam pelas ladeiras, são esses corpos invisíveis que garantem que a tradição continue em movimento. Em Olinda, os bonecos podem ser gigantes. Mas quem faz a festa acontecer está bem ali dentro.



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