Entre máscaras, chocalhos e memória: tabaqueiros de Afogados da Ingazeira fazem tradição de Carnaval resistir no Sertão
- Manguetown Revista

- 8 de fev.
- 6 min de leitura
Movimento nascido no Sertão do Pajeú entre as décadas de 1980 e 1990 integra até hoje a cultura carnavalesca pernambucana, e pede, cada vez mais, por incentivo
Figuras provocativas, misteriosas e profundamente simbólicas do Carnaval no Sertão, os tabaqueiros de Afogados da Ingazeira carregam uma tradição que atravessa décadas sustentada principalmente pela oralidade, pela vivência comunitária e pela transmissão entre gerações. Surgida entre as décadas de 1980 e 1990, a brincadeira tem raízes nos antigos papangus, personagens comuns em outros carnavais do interior de Pernambuco, como em Triunfo, Tabaíra e Bezerros.

O nome “tabaqueiro” surge posteriormente, a partir do uso do rapé, fumo triturado de origem indígena utilizado em rituais e práticas culturais, carregado pelos brincantes em pequenos sacos ou chifres de animais. Com o tempo, o acessório passou a identificar a figura, que ganhou nome próprio e identidade local. Apesar da força simbólica e da presença marcante no Carnaval da cidade, no entanto, a tradição carece de registros oficiais e políticas públicas contínuas de valorização.
É nesse território entre memória, resistência e transformação que atua Lúcio Vinícius, 29 anos, historiador, produtor cultural e atual tabaqueiro-mor de Afogados da Ingazeira, tricampeão consecutivo na categoria tradicional do concurso carnavalesco. Em entrevista à Manguetown Revista, ele reforça que a história dos tabaqueiros é contada muito mais pela vivência do que pelos arquivos.
“Infelizmente, Afogados não tem muitos registros documentais sobre os tabaqueiros. A tradição se sustenta principalmente pela oralidade. Recentemente estive no arquivo público tentando levantar material para um projeto e foi bem difícil encontrar referências oficiais”, relata.
Natural de Afogados da Ingazeira e morador da cidade até hoje, Lúcio construiu sua trajetória entre a pesquisa histórica e a atuação direta na cultura popular. A relação com os tabaqueiros, no entanto, antecede a atuação profissional. “Eu sou brincante desde sempre. A figura do tabaqueiro faz parte da minha vida desde criança. Hoje, estou com a coroa de tabaqueiro-mor, que é como se fosse o chefe da brincadeira na cidade”, conta. Segundo ele, o concurso acontece sempre na terça-feira de Carnaval e é dividido em duas categorias: tradicional e estilizada. “Eu participo da categoria tradicional e, nos últimos três anos, fui campeão”, afirma.
A partir desse elemento, a identidade da brincadeira foi se consolidando, inclusive incorporando sentidos populares. “O nome tabaqueiro também vira xingamento. Quando alguém é desagradável, dizem logo que é um tabaqueiro”, diz Lúcio, rindo.
Essa transformação, inclusive, é sadia para manter a cultura viva. Hoje, segundo ele, a brincadeira não se restringe apenas a Afogados da Ingazeira. “Dos 17 municípios do Sertão que têm figuras semelhantes, eu destaco três que mantêm a tradição de forma mais consistente: os Caretas de Triunfo, os Papangus de Tabaíra e os Tabaqueiros de Afogados da Ingazeira”, pontua.

Vida dedicada à cultura dos tabaqueiros
Assim como Lúcio, outros diversos nomes compõem e são membros ativos da cultura dos tabaqueiros. Um desses expoentes é Beijamim Almeida. Funcionário público e artesão de 55 anos, ele dedicou a vida à tradição e, há 45 anos, desfila nas ruas de Afogados da Ingazeira em todos os carnavais com vestimentas tradicionais para manter viva a manifestação cultural.
À Manguetown Revista, o artesão conta que precisou enfrentar uma resistência dos pais quando ainda era criança e queria brincar de tabaqueiro. Precisava, inclusive, realizar a atividade às escondidas. Realidade que, passados tantos anos, felizmente mudou e passou a incluir cada vez mais pessoas.
“Hoje tem adulto, tem criança, e também aumentou muito o número de mulheres, porque antes era uma brincadeira masculina. Mas hoje isso mudou, o que encanta muito. A gente vê que a tradição vai se manter e que vai perdurar. A molecada está aí para isso”, destaca.
Segundo Beijamim, essa transmissão da cultura está direcionada a ações práticas e diretas junto à população. Ele, assim como Lúcio, dedica a vida à tradição dos tabaqueiros. Por meio de projetos inclusive junto a prefeituras e órgãos públicos, leva a história, importância e papel do movimento para outras cidades do Sertão de Pernambuco — e colhe bons frutos a partir disso.
“A gente conseguiu levar os tabaqueiros para outras cidades, e havia locais que não tinham uma tradição de Carnaval, não tinham uma brincadeira. Depois que a gente fez uma folia, como se chama, com tabaqueiros e alguns outros personagens tradicionais, conseguimos plantar a sementinha para hoje vermos que, nessas localidades, temos Carnaval”, afirma.

Atenção aos detalhes é primordial
As transformações na confecção das máscaras também revelam mudanças no tempo e no modo de brincar. “Antigamente, a galera ia para a beira do Rio Pajeú e fazia o molde da máscara com barro, com a lama do rio. Esperava secar para depois começar a papietagem - técnica artesanal que consiste em sobrepor camadas de papel sobre moldes, secar e finalizar a pintura. Hoje isso quase não existe mais”, lamenta. Atualmente, são comuns máscaras de gesso, balão ou até de borracha, especialmente na categoria estilizada.
Para Lúcio, essa divisão entre o tradicional e o estilizado reflete tensões maiores. “O sistema capitalista bateu forte. Hoje você vê muita gente preocupada em competir para ver quem tem mais chocalhos, quem tem o figurino mais pesado, mais chamativo. Tem gente que sai com 300, 500 chocalhos nas costas”, conta. No concurso, porém, a lógica é outra. “Se você tiver um chocalho ou trinta, a pontuação é a mesma. O que conta é respeitar os elementos da tradição.”
Na categoria tradicional, a máscara precisa ser de papel ou tecido, o corpo deve estar totalmente coberto e a identidade, completamente ocultada. “A graça da brincadeira é essa: ninguém pode te reconhecer. A gente muda a voz, o jeito de andar, coloca enchimento no corpo. É uma transformação completa”, explica.
Beijamim trabalha ativamente na produção de máscaras, e também vê o avanço da tecnologia na manutenção da arte. Ele mesmo desenvolveu um tipo de fabricação dos adereços a partir de moldes de gesso que facilitam, e muito, a vida dos brincantes.
“A gente corta pedaços pequenos de papel de jornal e vai em cima do gesso. Aplicamos uma mão de jornal ou de papel com água, que é para não colar no gesso. E depois vai uma mão de cola, uma mão de papel e vai moldando expressões. Um nariz mais estranho, uma cabeça mais estranha em cima de uma forma comum”, relata.
Apesar do medo que a figura provoca, especialmente em crianças e até adultos, Lúcio vê esse sentimento como parte essencial da brincadeira. “Primeiro vem o medo, depois a curiosidade e, por fim, a vontade de brincar. O tabaqueiro é uma figura provocativa. Ele brinca, assusta, provoca, mas também cria vínculo com a comunidade”, diz. Ainda assim, ele ressalta a responsabilidade. “Eu só brinco com quem me conhece minimamente. Se algo sair do controle, é só tirar a máscara que a festa acaba”.

Tradição que deve - e merece - ser mantida viva
Mesmo diante das dificuldades e da falta de incentivo contínuo, Lúcio mantém um desejo claro: que os tabaqueiros sejam valorizados para além do Carnaval. “Se houvesse realmente interesse em preservar essa tradição, ela estaria nas escolas, como conteúdo, como disciplina. Não só como vitrine no Carnaval para ganhar recurso”, critica.
Hoje, muitas críticas chegam às gestões municipais e estaduais apontando uma desvalorização dos ritmos e culturas locais em favorecimento de bens de outros estados. Isso se manifesta por meio de artistas trazidos de fora do Nordeste para festas locais — sobretudo Carnaval e São João —, falta de uma programação mais diversa e incentivo a manifestações como os tabaqueiros, papangus e maracatus. Para Beijamim, isso pode ser muito prejudicial a curto, médio e longo prazo.
“Sempre falo da intromissão do pessoal. Se intrometem muito numa cultura, mas a verdade é que as pessoas que vão buscar. As pessoas que querem pegar lá fora e trazer para cá, e tentar adaptar a nossa cultura. Só que a importância do tabaqueiro vem desde o início das festas de Momo e a folia. (...) A gente não vai ver tabaquinho em outros locais que não sejam dentro de Pernambuco. O que é nosso é nosso”, explica.
“Pernambuco é riquíssimo culturalmente. O que falta é escolher valorizar de verdade o que é nosso. Os tabaqueiros são resistência, memória e identidade viva do Sertão”, completa Lúcio.
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