Zé do Cão: do chão das feiras às serras do Agreste, uma revolução sonora está em curso
Artista de Toritama transforma memórias, oralidade popular e experimentação eletrônica em uma identidade musical própria
Existe um Agreste que não cabe nas etiquetas, não se resume à produção de jeans e tampouco aceita ser contado apenas pelas narrativas de escassez que historicamente atravessam o Nordeste. Entre o barulho das máquinas de costura, a movimentação das feiras populares, os aboios que acompanham o gado e a poesia que sobrevive na oralidade, existe um território pulsante, inventivo e cheio de possibilidades. É desse lugar que vem Zé do Cão, artista que transforma referências do cotidiano pernambucano em uma experiência musical que aproxima tradição e experimentação.

Natural de Toritama, no Agreste de Pernambuco, o músico, Vinícius Tavares, constrói uma linguagem própria a partir de elementos da cultura popular, da música eletrônica e das memórias de uma região profundamente marcada pelo trabalho e pela criatividade de seu povo. O resultado é um projeto artístico que não pretende apenas revisitar as tradições, mas movimentá-las, colocá-las em diálogo com o presente e projetá-las para outros territórios.
O nome Zé do Cão já carrega parte dessa narrativa. Mas, antes de se tornar personagem de um projeto musical, existe uma história atravessada por gerações de trabalhadores, costureiras e saberes populares. Na família do artista, a música não era uma profissão. Seu pai trabalhava cortando tecidos, enquanto sua mãe, avó e bisavó tinham na costura uma atividade que atravessava gerações. A arte, entretanto, encontraria outro caminho para chegar até ele.
O interesse pela música começou ainda na adolescência, por volta dos 14 ou 15 anos, quando o contato com amigos que tocavam violão despertou uma vontade até então inexplicável de experimentar os instrumentos. Sem formação musical tradicional, Zé do Cão desenvolveu uma relação intuitiva com os sons. Em aproximadamente um mês com o violão nas mãos, já conseguia tocar algumas canções.
A partir dali, vieram o pandeiro, o pífano, a viola e, mais recentemente, a sanfona. O aprendizado autodidata foi posteriormente atravessado pelo encontro com mestres e outras referências musicais, mas a essência permaneceu ligada à experimentação.
Há, inclusive, uma dimensão simbólica nessa trajetória. Em uma família cuja mão de obra foi historicamente dedicada à produção de roupas, o artista identifica uma mudança de perspectiva ao transformar o próprio trabalho manual em criação artística.
“Pela primeira vez, pela primeira geração, eu tô sendo a pessoa que está usando sua mão de obra para o fazer artístico”, reflete.
A relação com Toritama também ajuda a compreender a sonoridade que vem construindo. Conhecida nacionalmente pela força do Polo de Confecções, a cidade aparece em sua obra para além da imagem industrial. O artista enxerga ritmo nas máquinas, poesia nas feiras e musicalidade nos gestos cotidianos. Aquilo que poderia ser percebido apenas como ruído da produção passa a integrar um universo de possibilidades sonoras.
Mas sua escola não foi somente a indústria. Foram as ruas, as feiras e os encontros com os poetas populares.
“Eu me lembro muito bem de ver emboladores ainda nas feiras de Santa Cruz. [...] A minha escola são as feiras populares. E aí eu começo a me desenvolver poeticamente e sonoramente também”, conta.
Essa formação também está relacionada às raízes rurais de sua família, que antecedem a industrialização da região. O contato com a Caatinga, a observação da natureza, os cantos de trabalho e os conhecimentos transmitidos pelas gerações mais velhas formam uma espécie de repertório afetivo e cultural que atravessa suas composições.
É dessa mistura que nasce o que o artista chama de eletrococo, uma linguagem que aproxima elementos da cultura popular nordestina de recursos eletrônicos, beats e samples. Uma experimentação que encontra ecos em diferentes movimentos da música pernambucana, mas que procura estabelecer uma identidade própria a partir das experiências do Agreste.
Para ele, essa aproximação não representa uma contradição. Pelo contrário, a música eletrônica também pode ser uma extensão da própria tradição. As feiras, afinal, são espaços de circulação, encontro e intercâmbio de referências.
“As feiras são cosmopolitas. Todo mundo do mundo visita as feiras”, observa.
Um Zé que tem muitos, mas só existe um Zé do Cão
A identidade artística ganhou forma a partir da composição de “Bota Ideia, Zé”, primeira música produzida para o projeto. A figura do Zé, tão presente no imaginário popular brasileiro, representava o sujeito comum, aquele que começa a construir seu próprio caminho e precisa encontrar maneiras de disputar espaço em diferentes territórios.
Foi durante esse processo que uma amiga apresentou ao músico o filme “A Noite do Espantalho”, dirigido por Sérgio Ricardo e lançado em 1974. Filmada em Brejo da Madre de Deus, cidade vizinha a Toritama, a produção reúne nomes como Alceu Valença e Geraldo Azevedo e apresenta uma narrativa profundamente conectada ao imaginário sertanejo.

A obra chamou a atenção do artista pela paisagem, pelo vocabulário e pela representação de um universo que reconhecia como seu. Entre os personagens, encontrou no Zé do Cão uma figura especialmente provocadora: um antagonista subversivo, cuja presença movimenta a narrativa.
A identificação foi imediata. O nome dialogava com o Zé que já existia em sua composição e acrescentava uma personalidade própria ao projeto.
“Eu disse: ‘Poxa, Zé tem muitos, mas Zé do Cão só tem um’. [...] Eu sou um Zé, mas eu sou um Zé do Cão”, explica.
A escolha também carrega uma dimensão de afirmação. O artista não pretende esconder sua origem nem adaptar sua identidade para caber em determinados espaços. Seu trabalho parte justamente daquilo que conhece, das paisagens que atravessam sua vida e das histórias que deseja colocar em circulação.
Cap. 01: um primeiro mundo construído dentro de casa
O primeiro registro dessa identidade chegou com o EP “Cap. 01”, um trabalho de sete faixas concebido, composto, produzido e gravado pelo próprio artista, dentro de casa, em um quarto. O projeto funciona como uma apresentação de seu universo criativo e como o primeiro movimento de uma trajetória que já nasceu pensando em continuidade.
A escolha pelo título não é casual. O capítulo representa o início de uma história que Zé do Cão pretende desenvolver com novas possibilidades de produção, mais colaboradores e uma estrutura cada vez mais robusta.
“Eu vou fazer sete músicas e, sabendo que o próximo capítulo eu vou fazer com muito mais recurso. [...] Colocando as mãos, colocando as ideias, um algo cada vez mais robusto”, projeta.
Entre as composições, “Deus é Brasileiro e o Cão Também” ocupa um lugar especial. A faixa sintetiza parte da visão de mundo do artista e apresenta uma perspectiva que rompe com representações historicamente associadas ao Nordeste. Em vez de iniciar sua narrativa pela falta, pela pobreza ou pelas dificuldades, ele escolhe falar da beleza, da diversidade e da potência do território.
“Eu gosto de começar exatamente dessa maneira, dizendo: ‘Somos muito belos. Enxergamos muitas belezas. E é isso que nos fortalece’”, afirma.
A composição também evidencia o desejo de construir outras narrativas sobre a região. Para Zé do Cão, o Nordeste não pode continuar sendo apresentado exclusivamente a partir do olhar de quem o enxerga de fora. Há riqueza cultural, inteligência, invenção e potência nos interiores, e sua música procura fazer essas dimensões chegarem a outros públicos.
O EP conta ainda com a colaboração de Jéssica Caitano, artista que Zé do Cão considera uma referência importante para a cultura pernambucana. A identidade visual também nasceu de um processo coletivo. A fotografia de Virgínia Guimarães, realizada na região dos Matumbos, na zona rural de Toritama, integra a construção visual do disco, que tem direção de arte de Ser Imenso, Jaqueline Santos e Maria Laísa.
O capacete, as roupas, as estrelas nas golas e os demais elementos visuais ajudam a transformar o personagem em uma figura reconhecível, com simbologias que dialogam com o universo imaginado pelo músico. É um trabalho que compreende a música para além do áudio: existe também uma paisagem, uma estética e uma maneira de ocupar o mundo.
O Agreste também produz futuro
Apesar da força criativa que atravessa sua trajetória, Zé do Cão reconhece os desafios de desenvolver uma carreira musical longe dos principais centros de circulação da indústria cultural. Se produzir música nunca foi o maior obstáculo, encontrar caminhos para distribuí-la, alcançar novos públicos e acessar recursos continua sendo uma questão central.
O artista destaca que cidades como Toritama, Santa Cruz do Capibaribe e Caruaru possuem uma intensa produção econômica e cultural, mas ainda enfrentam dificuldades para consolidar estruturas permanentes de investimento e circulação artística.
A industrialização transformou profundamente a região e, na avaliação do músico, também contribuiu para o enfraquecimento de manifestações populares que antes faziam parte do cotidiano das comunidades, como cortejos, reisados, pastoris e outros brinquedos tradicionais.

É justamente nesse cenário que ele identifica a importância dos novos movimentos culturais do Agreste. Mais do que reivindicar espaço, trata-se de criar condições para que outras gerações possam produzir, experimentar e viver de arte sem precisar abandonar seus territórios.
“Pode existir um gênio nos rincões do Nordeste. Sempre existiram os gênios nos rincões”, defende.
O músico cita a necessidade de ampliar os investimentos, as oportunidades e a distribuição de vagas em editais culturais para artistas do Agreste e do Sertão. Não se trata apenas de descobrir talentos, mas de garantir condições para que eles desenvolvam suas obras e consigam fazê-las circular.
Ao mesmo tempo, sua postura diante dos desafios não é de imobilidade. Zé do Cão prefere olhar para as possibilidades que estão sendo abertas e para as conexões que começam a surgir. O próprio projeto é um exemplo disso: uma produção independente que, mesmo com recursos limitados, conseguiu construir uma identidade e alcançar novos espaços.
Do Agreste ao palco do No Ar Coquetel Molotov
Essa movimentação ganha um novo capítulo com a participação de Zé do Cão no No Ar Coquetel Molotov 2026, um dos importantes espaços de circulação e encontro da música contemporânea no Nordeste. O artista chega à programação acompanhado da banda Curupife, de Caruaru, em uma apresentação que promete colocar em diálogo diferentes expressões da musicalidade popular pernambucana.
A proposta é levar ao palco a poética construída em torno do Polo de Confecções, combinando a experimentação sonora do projeto com a presença de uma formação tradicional de pífanos, composta por instrumentos como pífano, bumbo, caixa e prato.
Para Zé do Cão, a aproximação entre os dois universos surgiu de uma construção coletiva.
O convite para o festival abriu a possibilidade de pensar uma apresentação que representasse não apenas seu trabalho individual, mas também a força musical de uma região formada por diferentes cidades e experiências culturais.
A sonoridade do pífano, inclusive, é compreendida pelo artista como algo profundamente tecnológico. Sua velocidade, seus timbres e sua capacidade de atravessar gerações demonstram que a tradição não está presa ao passado.

“Eu particularmente acho a sonoridade do pífano uma sonoridade extremamente tecnológica. [...] É uma sonoridade atemporal, que ela também já é o passado e o futuro”, define.
A apresentação também tem um significado especial para quem passou tanto tempo esperando as condições ideais para colocar suas ideias no mundo. Agora, em vez de aguardar o momento perfeito, o artista escolhe fazer acontecer.
“Eu tenho ansiedade de tocar. [...] Eu passei muito tempo da minha vida esperando as oportunidades perfeitas. Zé do Cão veio para fazer um caminho reverso disso, abrir a oportunidade perfeita”, afirma.
A chegada ao palco principal do festival, informação que o músico recebeu posteriormente à confirmação do convite, representa mais um passo nessa trajetória. Mas ele faz questão de destacar que sua disposição é a mesma independentemente do tamanho do palco: quer tocar, encontrar o público e experimentar as possibilidades que cada apresentação pode proporcionar.
E, se existe uma mensagem que atravessa toda essa história, ela está na recusa em esperar que alguém autorize o Agreste a produzir suas próprias revoluções. Entre o som das máquinas, os cantos das feiras e a pulsação dos pífanos, Zé do Cão já começou a escrever seu próximo capítulo.
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