Com canções que sintetizam movimento e vivência agrestina, Olegário Lucena lança seu primeiro disco de vinil
- Guilherme dos Santos

- há 10 horas
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Projeto marca 20 anos de carreira do artista

Nessa imensidão Agreste
Construo caminhos com meu caminhar
Por essa estrada devagar
Divagando nessa cor
- Vou passar em Surubim (Olegário Lucena)
Em uma trajetória musical galgada através da ousadia, da identidade agrestina e das ruas em que percorre e percorreu, Olegário Lucena não coloca nome na arte que faz. Se é nova MPB pernambucana, forró, jazz, ou uma “música nordestina pós-moderna”, como ele sugere descrever, a nomenclatura não delimita o artista na busca da imensidão sonora. O resultado disso é uma discografia baseada na mistura, emoldurada pela guitarra e conduzida pelo sotaque que evidencia a origem interiorana do cantor. Agora, em 2026, ano em que completa 20 anos de carreira, o trabalho de Olegário toma fisicalidade com o lançamento do vinil do seu primeiro álbum, projeto apresentado digitalmente em 2021, que sintetiza em canções todo movimento, vivência e ótica calorosa do cantor.
Nascido em Taquaritinga do Norte e criado em Santa Cruz do Capibaribe – onde cresceu, viveu, comeu e dançou, diz – ambas cidades localizadas no Agreste pernambucano, Olegário Lucena desde sempre foi rodeado pela música. Foi no rádio de casa e no acervo de discos de vinis — que crescia mesmo após o surgimento de novas tecnologias, como o CD –- que o cantor se aproximou das primeiras referências musicais. Os grandes nomes da MPB, e sobretudo artistas nordestinos, como Luiz Gonzaga e Fagner, faziam parte de uma verdadeira biblioteca que se formava na coleção da família e se tornaram fortes inspirações para o artista. “Por mais eu tenha me influenciado e me pintado de outras cores, essas cores do nordeste jamais saem de mim”, comenta.
Para além do que ouvia e absorvia dentro de casa, as ruas também tiveram um papel na formação do cantor. Ao testemunhar, na feira pública da cidade, a performance de músicos, emboladores e poetas cheios de histórias, a curiosidade infantil o capturava e o encantamento pela música era cultivado. “Aquilo tudo já nutria uma carga natural em mim, que agora estou desabrochando para o público”, conta.
Em festivais em Santa Cruz e região, como o festival Capibaribe Rock (Santa Cruz do Capibaribe), pôde conhecer outras cenas responsáveis por moldar a sua sonoridade. “A primeira vez que saí de casa pra ir pra uma festa, foi pra um rock in roll que teve na cidade de Bom Jardim. Eu saí pegando toyota (bandeirantes com chassis aumentados, veículo típico do agreste), e fui bater em Surubim. O Agreste tem essa característica de ser além do forró, de também ser um local de rock. Por isso fui desaguar na guitarra”, relembra.
Amarrado pelo interesse que as seis cordas do instrumento despertaram, Olegário decidiu rifar o aparelho DVD de casa para comprar a própria guitarra. Ofereceu “para gato e cachorro”, lembra, e todo mundo que atravessava seu caminho. Com o resultado do sorteio anunciado no saudoso Orkut, rede social que foi sucesso nos anos 2000, o saldo das vendas foi positivo, e Olegário conseguiu, enfim, garantir as duas novas aquisições: a guitarra e, claro, um aparelho de DVD novo. Acobertado pelo tempo, ele confessa ao repórter com humor:
“Faz tanto tempo, que agora eu posso dizer. Eu vendi a tanta gente, para amigos e desconhecidos, que na hora de puxar a rifa eu decidi que só iria ganhar se fosse um amigo. ‘Juarez? Conheço não! Fulano? Conheço não!’. Quando deu um amigo, foi ele o vencedor!”, relembra o artista. “A partir daí, tô nessa”.
Colecionando EP, parcerias, projetos e singles, como “Xô Te Vê”, de 2020, e o derradeiro “Às Vezes Nem É”, de 2025, Olegário deságua a arte em diferentes caminhos desde então. Com a ação itinerante “O que é isso, mainha?”, o artista retoma a pergunta que fez à mãe ao observar as cenas musicais na feira pública no Agreste, em uma iniciativa que percorre outras feiras e ruas em cidades do interior pernambucano. Olegário também integra o grupo de Jazz Manouche “Oleg e os Boêmios Gondoleiros”, com o qual realiza apresentações em festivais e eventos com shows instrumentais. Além disso, ainda se dedica e estuda a produção de música através de aparelhos mobile, conhecimento que compartilha por meio de oficinas e formações.

Diante das diferentes influências e trabalhos que o atravessam, Olegário se coloca como agente daquilo que a música quer contar. Nos momentos de produção, não coloca barreiras nas composições, e conta que prefere estar aberto ao que está rolando no mundo. “Se a música for boa, eu gosto. Eu vou sentindo. Não dou nome ao estilo que faço, vai que lá na frente eu queira ser outro”, diz. “Deixa eu continuar sendo.”
Os ouvidos atentos é um pé na estrada
Neste ano em que completa 20 anos de carreira, o artista marca o momento com o lançamento do vinil do primeiro álbum, “Olegário Lucena”, surgido originalmente em 2021 nas plataformas digitais. Com nove faixas originais, o álbum parte das perspectivas e diferentes sensações derivadas das vivências, andanças e ótica do cantor e compositor.
Quem abre o caminho dessa jornada é “Bascui”, uma parceria com os artistas Hercinho Gouveia e Luiz Homero. A canção, que já inicia com os dois pés fincados na estrada do caminho agrestino que será apresentado ao longo do disco, se desenrola com uma sonoridade dançante, marcada pelo encontro de diferentes instrumentos e vocais que trazem a letra poética mais do que conectada com a identidade nordestina. Com refrão fácil e chiclete, a faixa é seguida por “Preciso Recordar”, que se difere da primeira ao trazer um ritmo mais lento que convida o ouvinte a refletir com uma letra aberta a interpretações.
É em “Ei Sil” que a malícia e ousadia, potencializada pela parceria e vocais de Paulo Ferreira, ganham vez. Através do chamado (Ei, sil!) que logo gruda na mente, a terceira faixa do álbum coloca a atmosfera dançante em primeiro plano e logo se torna uma daquelas canções que ocupam lugar de liderança na lista do replay.
A “beleza de tirar de pá” da faixa é seguida pela canção “Pneu Atravessado”, que apresenta uma composição calorosa, frutada e até selvagem, elementos muito bem vindos quando o assunto é amor. A música é uma paquera que também corteja o ouvinte com um ritmo tipicamente latino e referências presentes em outras canções que marcam o imaginário nordestino e brasileiro.
Já em “Para dizer”, Olegário discorre sobre a complexidade de sentimentos, que, por vezes, não encontram espaço nas palavras para serem expressados. Que seja “num bolso de camisa, num barco, no peito”, ou em canções de um certo cantor agrestino, essas emoções são condensadas na letra cheia de elementos que as ajudam a ganhar o poder da oralidade.
Com “Dum Pé de Juá”, que conta com a participação de Almério, o sentimento é equiparado ao desejo de folia, mas é em “Esqueça o Não”, que o carnaval é colocado em evidência. A música, que tem cara de fevereiro, é uma carta aberta ao êxtase que toma conta das pessoas no período de festa.
A sexta faixa do álbum, “Vou passar em Surubim”, que conta com a participação de Revoredo, e a última, intitulada “Pé Na Estrada”, conseguem resumir o trajeto e o deslocamento construído pelo álbum. A primeira, com a menção à cidade agrestina, citada como um lugar importante para descobertas musicais do artista, destaca a transição entre os territórios do estado de Pernambuco, baseado nas vivências de Olegário. Já “Pé Na Estrada”, ao assumir um som e mensagem mais reflexiva e melancólica, fecha o disco com retomada ao passado e uma ação consciente no presente.
No fim, o disco é solar, movimentado e guiado por diferentes elementos. É uma mistura que coloca o público com o pé na estrada através do som. O destino dessa jornada é a contemplação da versatilidade do cantor e um convite para se aventurar nos outros trabalhos realizados por ele nesta imensidão sonora mergulhada pelo artista. Uma imensidão, como cita em uma das faixas, Agreste.
Lançamento
O primeiro show de lançamento do disco de vinil aconteceu em Arapiraca, em Alagoas, em dezembro de 2025, seguido do show em Caruaru, também em dezembro. Olegário agora se prepara para apresentar o repertório no próximo dia 31 de janeiro, em Tamandaré, no Tubiba Hostel, localizado no centro da cidade. Para adquirir o material, as pessoas interessadas podem entrar e contato pelos perfis @olegario_lucena ou @estelita.selo



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