top of page

Crítica: Júlio Ferraz é um “astronauta em busca de oxigênio” e com tempo para “se perder no sertão” da própria história, no novo álbum “Transe Solstício”

Com 11 faixas, disco atravessa luto, memória e reinvenção em uma sonoridade marcada pela neopsicodelia e pelo rock alternativo


Cantor Júlio Ferraz lança “Transe Solstício” - Foto:  Danielly Sá
Cantor Júlio Ferraz lança “Transe Solstício” - Foto: Danielly Sá

Há discos que parecem nascer de uma ideia e outros que soam como consequência de uma travessia. “Transe Solstício”, novo álbum de Júlio Ferraz, pertence à segunda categoria. Instrumentista, cantor, compositor, arranjador e produtor musical, o artista transforma três anos de deslocamentos entre Recife e Floresta, no Sertão pernambucano, em um trabalho atravessado por silêncio, luto, memória e tentativa de recomeço.


Lançado no início de agosto pelo selo Discobertas, o álbum reúne 11 faixas construídas sobre uma base elétrica, ácida e psicodélica, aproximando timbres analógicos sessentistas do rock alternativo contemporâneo. Produzido em Floresta, às margens do Riacho do Navio e nas proximidades do lago do Rio São Francisco, o disco carrega no próprio som a paisagem em que foi concebido.


O conceito de “Transe Solstício” parte justamente dessa passagem. O “transe” aparece como febre, catarse e movimento necessário para atravessar a dor; o “solstício”, por sua vez, representa o instante em que a escuridão começa a ceder espaço para a luz. É nesse intervalo que Júlio procura reencontrar a própria voz.


É um álbum bastante triste e sincero. O elemento tristeza aparece como elemento norteador e, assim, se transforma em matéria-prima para a arte de Júlio. Guitarras, órgãos, flautas, sintetizadores, baterias e texturas psicodélicas constroem uma paisagem sonora

que frequentemente parece tão inquieta quanto as memórias narradas pelo cantor.


Crítica: entre o sertão da memória e a psicodelia elétrica


Cantor Júlio Ferraz na divulgação do single "Rato do Porto" - Foto: Danielly Sá
Cantor Júlio Ferraz na divulgação do single "Rato do Porto" - Foto: Danielly Sá

“Miragem” é a faixa que abre o álbum com uma atmosfera fúnebre. Órgãos que remetem a uma igreja encontram uma bateria frenética e instrumentos de sopro, enquanto a guitarra ganha espaço até desembocar em um (quase) solo no final da faixa. A letra convida o ouvinte a dançar diante do próprio caos:


“Só você pode se salvar de si / Então dance, dance até cair”

A faixa é um portal para o restante do disco. Há sofrimento, mas também movimento. O corpo dança justamente porque permanecer parado parece impossível.


Em “Ao Sul de Mim”, Júlio desloca o olhar para a própria infância. A canção é marcada pela saudade das paisagens e dos lugares que atravessaram sua formação, transformando a memória em território. Em determinado momento, a composição abandona a estrutura mais convencional e se aproxima da poesia falada:


“Findava a tarde quando os fortes ventos sopraram / As nuvens carregadas de chuva eram atiradas para longe / Pareciam seguir o bando de aves que migravam para o sul”

As flautas ampliam a dramaticidade da composição, enquanto as distorções ajudam a criar uma sensação de deslocamento. É também nessa faixa que aparece um dos versos que melhor sintetizam o espírito de “Transe Solstício”:


“Sou um astronauta em busca de oxigênio e a tempo para se perder no sertão da minha história”.

O astronauta procura ar para continuar existindo, enquanto o artista procura, na própria história, algum lugar onde possa respirar.


Cantor Júlio Ferraz - Foto: Danielly Sá
Cantor Júlio Ferraz - Foto: Danielly Sá

“Ânfora Vendaval” aposta mais na atmosfera do que na construção narrativa, com frases espaçadas e uma melodia que convida ao escapismo. É uma faixa para se perder dentro do próprio som, como se o disco abrisse uma brecha para fugir momentaneamente da realidade.


 “Calvário” é uma das experiências mais dolorosas do álbum. A faixa marca a chegada mais explícita do luto à narrativa de Júlio e carrega uma interpretação marcada pelas lamúrias e pela sensação de perda.


“Eu vi o mundo se partindo em retalhos, e aquela criança que corria pela casa, não existia mais.”

O verso concentra uma das ideias centrais do álbum: o luto não transforma apenas a relação com quem partiu, mas também modifica a pessoa que permanece.


Zé Ramalho, Bonifrate e as referências que atravessam o disco


No meio desse percurso, “Transe Solstício” também estabelece diálogos com artistas que fazem parte da formação musical de Júlio. “Rato do Porto”, de Zé Ramalho, foi escolhida como primeiro single e ganha uma nova leitura dentro da sonoridade elétrica do álbum.


A releitura abandona parte da atmosfera original e incorpora guitarras, acordes mais solares e uma condução mais lenta. A canção fala sobre um relacionamento passageiro e intenso, utilizando a figura do “rato” como símbolo de adaptação e sobrevivência em ambientes urbanos, noturnos e marginais.


O próprio Júlio define a gravação como um encontro entre diferentes momentos de sua trajetória.


“Escolhi inaugurar esse ciclo com ‘Rato do Porto’, uma das minhas canções favoritas de Zé Ramalho. Ter a oportunidade de regravar essa obra com a sua bênção foi uma honra e um incentivo valioso", comenta o cantor.

Na releitura, Recife e Sertão também aparecem como forças complementares. As texturas elétricas dialogam com a efervescência da capital, enquanto a densidade das paisagens sertanejas atravessa a construção do álbum.


Júlio Ferraz com quadro fotográfico da mãe, Rosa Ferraz - Foto: Instagram/Júlio Ferraz
Júlio Ferraz com quadro fotográfico da mãe, Rosa Ferraz - Foto: Instagram/Júlio Ferraz

Já em “Corredor 2” aprofunda ainda mais essa dimensão autobiográfica. A faixa aborda a morte da mãe de Júlio, Rosa Ferraz, que faleceu em 2024 nos braços do próprio filho. 

Depois dela, “Tempo Vazio” mergulha no arrependimento, na melancolia e na saudade. Violinos reforçam o peso dramático da composição, enquanto a voz narra a tentativa de encontrar algum sentido depois da perda:


“Hoje vago na noite hipocondríaca, onde as almas solitárias cursam por doses de ilusões e prazeres artificiais descartáveis.”

A música também explicita uma das necessidades que movimentam o disco: transformar a ausência em memória e, ao mesmo tempo, encontrar uma maneira de continuar.


“Fuga da História”, composição de Bonifrate, aparece como outra releitura. A versão de Júlio transforma a estrutura baseada em violão e órgão em um rock lento, com bateria e guitarra assumindo maior protagonismo. Com sete minutos, é a faixa mais longa do álbum e funciona como uma espécie de suspensão dentro do percurso.


Partindo para “Noites de Junho”, aqui é claramente um destaque do disco. O dedilhado atmosférico conduz a música, enquanto o sintetizador acrescenta pequenas texturas que tornam a audição ainda mais imersiva. A letra retorna à solidão e às lágrimas em uma noite fria:


“Nas noites frias de junho, vejo as estrelas descendo. / Um espelho que reflete grãos de chuva.”

O resultado é uma das faixas em que a melancolia encontra uma beleza mais delicada.

“Nevoeiro da Costa” quebra esse percurso ao apresentar uma composição mais animada e uma reflexão sobre poluição e questões ambientais. A música constrói uma espécie de sonho paradisíaco, mas, dentro da narrativa geral do álbum, é justamente a faixa que parece menos conectada ao núcleo emocional construído pelas demais.


Para encerrar o disco, “Vereda de Caleia” aposta no estranhamento. Sintetizadores, flautas e pandeiros atravessam a composição, enquanto um pequeno sample cria uma atmosfera que remete ao suspense e ao cinema de terror. A letra é uma floresta fantasiosa e fantástica. É um encerramento incômodo, no melhor sentido da palavra.


A sensação é de que Júlio, depois de atravessar lembranças, perdas e paisagens, Julio simplesmente deixa o ouvinte diante de uma nova pergunta.


Um disco para viver o luto sem transformá-lo em silêncio

Capa do disco “Transe Solstício” de Júlio Ferraz
Capa do disco “Transe Solstício” de Júlio Ferraz

“Transe Solstício” é, acima de tudo, um álbum forte. Sua força está justamente em não tentar transformar o luto em uma narrativa confortável. 


Júlio Ferraz permite que a tristeza permaneça áspera, que as lembranças incomodem e que algumas músicas pareçam caminhar sem saber exatamente para onde. É um disco elétrico, mas também profundamente íntimo. A capa, assinada por Rafael Marques, acompanha esse conceito ao unir elementos da arquitetura do sertão, especialmente os casarões, à simbologia iorubá. A composição visual amplia a proposta do álbum ao aproximar território, ancestralidade e transformação.


Júlio dedica o trabalho à mãe, Rosa Ferraz, e às pessoas que estiveram ao seu lado durante o processo de criação. Essa dedicatória ajuda a compreender que “Transe Solstício” nasceu de uma rede de afetos que possibilitou ao artista transformar a ausência em criação.


Os destaques do disco ficam para “Miragem”, “Calvário” e “Noites de Junho”. São faixas que concentram algumas das melhores escolhas do álbum e revelam diferentes faces da proposta: a catarse, a dor e a delicadeza.


“Transe Solstício” não é um disco confortável, e talvez não queira ser. Ele é cru, melancólico e, em vários momentos, desconcertante. Mas é justamente nesse desconforto que encontra sua identidade.


É como se Júlio Ferraz passasse 11 faixas procurando oxigênio. E, quando finalmente encontra algum, descobre que ainda precisa aprender a respirar dentro do próprio sertão da história.


“Transe Solstício”, de Júlio Ferraz, está disponível nas principais plataformas de streaming:



Comentários


bottom of page