“Deixa o Mundo Acabar”: Jáder transforma saudade, desejo e Pernambuco em um disco que rompe fronteiras da música nordestina
- Leandro Lopes

- há 16 horas
- 6 min de leitura
Novo álbum do artista pernambucano mistura forró, pagode, funk e pop em uma obra marcada por afetos, identidade nordestina e liberdade estética
Existe um momento em que a saudade deixa de ser apenas sentimento e passa a virar linguagem. No novo álbum de Jáder, ela aparece como ritmo, estética, memória e corpo. Entre o forró, o pagode, o funk e o pop, o artista pernambucano constrói um trabalho que expande sua sonoridade sem abandonar as raízes que moldaram sua trajetória. O resultado é um disco pulsante, íntimo e profundamente conectado com Pernambuco.

Jáder apresenta agora um trabalho mais livre, dançante e emocional. Se no primeiro disco solo, lançado em 2022, o artista mergulhava em uma pesquisa centrada no forró, o novo álbum assume de vez a pluralidade como identidade estética.
“Eu não queria mais fazer um disco de uma coisa só”, conta Jáder durante entrevista à Manguetown Revista. “Queria brincar, me divertir, misturar gêneros, trazer o pagode, o funk, tudo aquilo que também faz parte de quem eu sou”, afirma.
Essa mistura, no entanto, não nasce como ruptura. Pelo contrário: ela amplia a própria ideia de música nordestina defendida pelo cantor. Filho de uma família cercada por discos e referências culturais, Jáder cresceu em contato direto com a música popular brasileira através da Passa Disco, tradicional loja especializada em música nordestina administrada por seu pai no Recife. Foi ali que artistas como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês e Alceu Valença ajudaram a moldar sua escuta.
Hoje, mesmo vivendo há três anos em São Paulo, Pernambuco continua ocupando o centro da sua obra. A bandeira do estado aparece estampada na capa do disco e a presença de ritmos como galope e xote reafirma o desejo do cantor de manter viva essa conexão afetiva com suas origens.
“Sou um bairrista chato”, brinca. “Fiz questão de que esse fosse um disco genuinamente pernambucano. Acho que nossa cultura tem uma originalidade e uma pluralidade muito fortes”, conclui.

A mudança para São Paulo, no entanto, foi determinante para ampliar conexões artísticas e possibilidades criativas. O álbum reúne participações de nomes como Joyce Alane, Jalu, Mariana e Ítalo, além de Totô de Babalong, em colaborações que atravessam diferentes universos musicais de forma orgânica.
Segundo Jáder, os encontros aconteceram naturalmente, a partir de relações já construídas dentro da música. Algumas canções, inclusive, já pareciam nascer com vozes específicas em mente.
“Quando eu compunha certas músicas, sentia que elas ficariam lindas em determinadas vozes”, relembra. “Joyce, por exemplo, escolheu cantar justamente um pagode, o que me surpreendeu bastante”, diz, aos risos.
Embora o álbum dialogue com desejo, afetividade e vulnerabilidade, Jáder faz questão de fugir de leituras limitadas sobre sua arte. Ao longo da entrevista, o cantor reflete sobre amor, masculinidade e representatividade LGBT sem transformar esses temas em rótulos.
“Amar é um ato de coragem”, afirma. “Pessoas LGBT muitas vezes crescem privadas disso por medo de não serem aceitas. Acho que precisamos tirar essa armadura e ter coragem para amar”, completa.
A dimensão visual do projeto também ocupa um papel central no disco. A direção criativa foi construída ao lado do marido do artista, Igor Soares, responsável por ajudar a transformar as ideias do álbum em imagens, símbolos e narrativas visuais.
“Sou filho da geração MTV”, comenta Jáder. “Então estética, moda, design e imagem sempre foram muito importantes pra mim”, explica.
A capa do disco traz uma grande onda atrás do cantor, imagem que sintetiza o conceito de “deixar o mundo acabar” enquanto diferentes elementos gráficos espalhados pelo projeto visual remetem diretamente à identidade pernambucana.
Além do álbum, Jáder também prepara novos lançamentos audiovisuais. O artista revelou que o show realizado no Teatro Santa Isabel foi totalmente gravado e ganha uma versão especial em vídeo.
“O material ficou muito bonito, muito cinematográfico. Está realmente com cara de filme”, adianta.
Entre ritmos, afetos e referências que atravessam diferentes fases de sua vida, Jáder entrega um disco que não busca caber em definições fáceis. É um trabalho sobre pertencimento, liberdade e movimento — como alguém que olha para Pernambuco à distância e entende que carregar suas raízes também pode ser uma forma de reinventá-las.
“Sou fragmentado”, resume o cantor. “Existe o meu lado pagodeiro, forrozeiro, bregueiro… e todas essas versões estão nesse disco.
Faixa por faixa:
1. Tô de Volta
O álbum já começa completamente dançante, mas ao mesmo tempo carregado de carência e saudade. Jáder entrega uma faixa sobre alguém que se humilha por amor enquanto tenta seguir em frente, mesmo sabendo que nenhuma outra pessoa vai ocupar o espaço do seu verdadeiro sentimento. A música funciona justamente por essa mistura entre sofrimento e diversão. É impossível não querer dançar enquanto a letra machuca. Um dos singles mais fortes do projeto e perfeito para entrar em playlists de diferentes momentos da vida.
2. No Mar feat. Totô de Babalong
A conexão entre Jáder e Totô de Babalong é extremamente divertida e envolvente. A faixa mergulha em um funk quente e dançante, cheio de beats muito bem encaixados. Os dois brincam com sensualidade, desejo e afeto de forma leve e carismática. Existe uma química vocal muito forte entre eles, algo que faz a música crescer ainda mais conforme avança. É uma das canções mais viciantes do álbum.
3. Ralado
Jáder demonstra mais uma vez seu domínio sobre ritmos dançantes nordestinos, especialmente o forró. “Ralado” é daquelas músicas feitas para serem cantadas enquanto se dança agarrado, mesmo falando sobre tristeza e carência. Essa dissonância entre sonoridade alegre e letra melancólica é justamente o que torna a faixa tão interessante. Existe um entendimento muito forte sobre como transformar dor em pista de dança.
4. Fica Comigo feat. Joyce Alane
Até aqui, o álbum já mostrou diferentes caminhos sonoros, e “Fica Comigo” reforça ainda mais essa pluralidade. Jáder brinca estrategicamente com os gêneros e encontra em Joyce Alane uma parceira perfeita para a proposta da faixa. A cantora já transita muito bem por sonoridades próximas ao samba e ao pagode, e sua voz encaixa perfeitamente nesse universo. Os dois constroem uma música extremamente gostosa de ouvir, mesmo abordando ausência, saudade e carência. A conexão entre eles funciona de forma muito natural.
5. Xêro
O álbum ganha ainda mais força quando “Xêro” começa. Jáder brinca lindamente com sua voz, explorando diferentes nuances e intensidades enquanto entrega um pop muito bem produzido sonoramente. A posição da música no disco é estratégica, porque ela chega exatamente no meio do álbum mantendo o ritmo e o interesse lá em cima. É uma das faixas mais envolventes e prazerosas do projeto.
6. Pessoa Preferida feat. Mariana Aydar
Logo na primeira escuta, a música remete à atmosfera gostosa de clássicos nordestinos como “Sabiá”, de Luiz Gonzaga. A conexão entre Jáder e Mariana Aydar é simplesmente linda. A faixa é totalmente dançante e se destaca por fugir um pouco das temáticas de ausência e sofrimento presentes em boa parte do álbum. Aqui, Jáder também celebra o amor vivido, o afeto e a presença. Isso traz um respiro muito bonito para a narrativa do disco.
7. Enigma
Completamente diferente da faixa anterior, “Enigma” mergulha em sentimentos de incerteza, descoberta e desejo de seguir tentando mesmo sem saber o resultado final. Existe algo muito simbólico nisso dentro do álbum como um todo. Jáder parece cantar sobre um futuro incerto, mas ainda cheio de vontade, coragem e expectativa. A música cresce justamente por essa sensação de vulnerabilidade e intensidade emocional.
8. Sem Você
O brega pernambucano talvez seja um dos gêneros que melhor conversam com a voz de Jáder, e aqui ele prova mais uma vez sua versatilidade. “Sem Você” é deliciosa de ouvir, um brega envolvente, romântico e muito bem construído. A faixa traz frases marcantes e uma interpretação extremamente confortável.
9. Volta feat. Jaloo
Jaloo é um artista que carrega muita personalidade musical, e sua presença aqui eleva ainda mais a faixa. As vozes dos dois se conectam muito bem e criam uma atmosfera intensa e sensível. Mesmo já próximo do fim do álbum, Jáder continua demonstrando potência vocal e capacidade de reinventar a sonoridade do projeto sem perder identidade.
10. Mormaço
“Mormaço” possui ótimos arranjos e uma construção sonora interessante, além de uma letra sensível e bem trabalhada. Ainda assim, comparada às demais faixas do álbum, acaba não sendo tão cativante quanto o restante do conjunto. Não deixa de ser uma boa música, mas dentro de um disco tão forte, ela funciona mais como uma faixa de respiro do que como um grande destaque.
11. Deixa o Mundo Acabar
Fechando o álbum da melhor maneira possível, Jáder entrega uma faixa que sintetiza muito bem tudo o que apresentou ao longo do projeto. O artista passeia por diferentes gêneros e ritmos durante o disco, mas aqui o xote, o galope e o forró aparecem como protagonistas absolutos. É um encerramento forte, celebrativo e extremamente coerente com a identidade musical construída no álbum. Uma despedida que fecha o disco com emoção e potência.
.png)



Comentários