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Floriterárias, 10 anos: quando um clube de leitura vira rede de cura entre mulheres

Coletivo recifense de mulheres transforma o clube de leitura em rede de acolhimento, escuta e intervenção cultural


(Encontro do Clube de Leitura das Floriterárias na Livraria do Jardim com Bell Puã - Imagem: Floriterárias/ Divulgação)
(Encontro do Clube de Leitura das Floriterárias na Livraria do Jardim com Bell Puã - Imagem: Floriterárias/ Divulgação)

Era 2016 quando Anita Presbitero, professora e moradora do bairro do Arruda, Zona Norte do Recife, topou uma proposta da amiga de mais de vinte anos, Luciana Marques, de criar um clube de leitura. Anita mal sabia o que era aquilo. "Ela me disse: 'aparece em uns filmes esse negócio de clube de leitura'. Eu fiquei: realmente tinha uma história de umas senhorinhas de igreja nos filmes que faziam esse tipo de coisa", recorda Anita aos risos.


Mas Anita aceitou com uma condição: só podia participar mulher. A razão vinha de longa data. Desde muito jovem, ela frequentava saraus, exposições e bibliotecas ao lado do pai, e raramente via outras mulheres nesses espaços. Quando cresceu e passou a ir sozinha, o ambiente literário ainda lhe parecia hostil, dominado por vozes masculinas. "Eu me sentia muito constrangida de poder colocar no mundo as minhas coisas", explica. A exceção que ela se lembra é Cida Pedrosa, poeta e política pernambucana que eventualmente cruzava esses palcos.


Nasciam assim o Floriterárias, não como um clube da luluzinha, como ela já ouviu muito de outras pessoas, mas como "um lugar para a gente se empoderar para poder seguir em ambientes mistos", explica. O primeiro encontro aconteceu na própria casa de Anita. Puseram papéis no saquinho, sortearam o livro, escreveram poesias na parede. Eram dez, quinze mulheres, amigas das amigas. 


A crise, a virada e o crescimento


Em 2017, o grupo chegou perto do fim. As pessoas foram saindo, os números diminuíram. Foi quando Anita decidiu abrir o Floriterárias para além do círculo íntimo. Entraram nas redes sociais, passaram do Facebook para o Instagram, ocuparam cafés, museus, espaços culturais, bibliotecas públicas e livrarias. O grupo de leitoras que cabia na sala de casa começou a se multiplicar.


Com o crescimento, a curadoria se sofisticou. Os livros deixaram de ser sorteados no papelzinho e passaram a ser cuidadosamente escolhidos por enquetes no WhatsApp, ou por meio do Google Forms, sempre com atenção à diversidade de autoras: mulheres negras, indígenas, trans, periféricas e pernambucanas. A preocupação com o acesso ao livro físico também se tornou central. Anita mapeou sebos, negociou com editoras, comprou diretamente das escritoras, criou até uma livraria e sebo virtual batizada de Livragem. "Senão a gente fica ainda mais fechado", comenta.


(Fortalecimento das vendas dos livros diretamente com as escritoras, nesta foto Amara Moira - Imagem: Floriterárias/ Divulgação)
(Fortalecimento das vendas dos livros diretamente com as escritoras, nesta foto Amara Moira - Imagem: Floriterárias/ Divulgação)

O leque de leituras é amplo de propósito. Ao longo dos anos, o Floriterárias construiu uma curadoria que não apenas diversifica autores, mas também provoca leituras críticas. Anita lembra, por exemplo, de um ciclo dedicado à obra de William Shakespeare, que acabou se transformando em um debate sobre como o dramaturgo representava as mulheres em seus textos. 


Na estante coletiva do grupo já passaram nomes como Roxane Gay, Margaret Atwood, Clarice Lispector, Aline Bei, Amara Moira, Odailta Alves e Renata Santana. No caso desta última, a leitura virou um desafio. Com o livro esgotado, Anita iniciou uma mobilização direta com a editora para que a obra voltasse a circular, um processo lento e revelador. “Eu fiquei pensando: se fosse com um homem, no instante a coisa fluía. Porque é isso. A mulher é super premiada e não tem um livro disponível.” A mesma história se repetiu com o escritor pernambucano Urariano Mota. "Sabe a importância do clube de leitura? A gente conseguir movimentar pra o livro voltar para as prateleiras.", completa Anita.


Quando a leitura deixa de ser só leitura 


Nos encontros, que duram em média duas a três horas, os debates frequentemente extrapolam as páginas dos livros e chegam a temas íntimos e sensíveis, onde ficção e experiência se cruzam. Personagens acionam memórias, conflitos narrados ecoam vivências reais, e aquilo que parecia distante ganha corpo na fala de quem está ali.


É nesse atravessamento que a leitura muda de função. Deixa de ser apenas análise e passa a operar como reconhecimento. Histórias de violência, relações abusivas e silenciamentos históricos emergem não como temas de discussão, mas como relatos compartilhados. Anita descreve esse momento com clareza ao afirmar que, em muitos encontros, mulheres encontram no grupo a primeira oportunidade de verbalizar experiências difíceis: “Tem mulher que lembra de uma violência que viveu e fala ali pela primeira vez.


A partir daí, o encontro já não é mais o mesmo. O Floriterárias se afasta, então, de qualquer definição convencional de clube de leitura e assume a dimensão de rede de acolhimento. Com apoio de psicólogas participantes e articulação com instituições públicas, mulheres que precisam de ajuda são encaminhadas e acompanhadas. “A gente abraça, escuta, acolhe. E quando precisa, aciona outras mulheres para ajudar. Ninguém fica só”, diz.


"Eu percebi que era mais do que eu imaginava. Não é só um clube de leitura. É um clube de cura, de acolhimento, de fortalecimento, de protagonismo."

Sarau + bloco carnavalesco 



(Bloco das Floriterárias - ano II no Bar Super 8 - Imagem: Floriterárias/ Divulgação)
(Bloco das Floriterárias - ano II no Bar Super 8 - Imagem: Floriterárias/ Divulgação)

Em 2023, o acúmulo de vozes já não cabia mais nos encontros. Cada vez mais mulheres chegavam não só para comentar leituras, mas com textos próprios, querendo ler, testar, ocupar a fala. O formato do clube começou a ficar pequeno para essa demanda. Foi daí que surgiu o Sarau das Floriterárias, criado também por Anita como desdobramento direto desse movimento interno. No sarau, o microfone é reservado às mulheres e os textos também, sejam eles autorais ou não. Com o tempo, o espaço passou a funcionar também como vitrine e lançamento: os contos de “Pretos prazeres e outros ais, de Odailta Alves, por exemplo, foram apresentados ali, na voz das próprias leitoras, antes de ganharem outros circuitos.


O sarau também ampliou as conexões do Floriterárias com outras cenas. Em agosto de 2024, a 11ª edição foi dedicada ao Slam das Minas PE, aproximando o coletivo da poesia falada e das batalhas. No aniversário do Floriterárias, essa articulação ganhou outra dimensão: Anita reuniu cordelistas e MCs de batalha no mesmo espaço, dois grupos que, até então, não dialogavam diretamente. 


"Como é que batalha de rima não é literatura? São um absurdo, gente. Foi o encontro da rima mesmo, do verso. A gente precisa fazer esses diálogos."

Já em 2025, esse movimento de expansão chegou à rua com a criação do bloco de carnaval do Floriterárias. A ideia, como outras dentro do coletivo, surgiu sem planejamento rígido e foi ganhando forma na prática. "Eu sou uma pessoa não muito ocupada", ela diz, com a ironia de quem claramente não para. A segunda edição, em fevereiro de 2026, foi no Bar Super 8 com banda de frevo e homenagens a Bell Puã, MajesGabi, Crislaine Venceslau e Yastricia Santos. O dono do bar, segundo Anita, comentou que nunca tinha visto frevo ali, até então.


Dez anos, e o sonho de uma sede


As Floriterárias chegam a uma década de existência com quase dois mil seguidores no Facebook, mais de quatro mil no Instagram e um grupo ativo no WhatsApp com trezentas participantes de todos os lugares do estado e até fora do país. Os encontros acontecem gratuitamente no Centro de Promoção dos Direitos da Mulher Marta Almeida, em parceria com a Secretaria da Mulher do Recife. Para o ano do 10° aniversário, a escolha foi simbólica: só serão lidas autoras mulheres. 


O 19° Sarau das Floriterárias aconteceu no dia 16 de maio, com relançamentos de livros de várias escritoras. E o segundo Encontrão de Clubes de Leitura está previsto para o segundo semestre, retomando o evento que em 2018 reuniu mais de trinta clubes na Biblioteca Pública do Estado.


"A gente tem rede de bibliotecas comunitárias. Como é que não tem rede de clube de leitura? A gente tá no mesmo barco. Precisamos nos ajudar."

O maior desafio continua sendo não ter sede. As Floriterárias são itinerantes por necessidade, cada encontro exige nova negociação, nova logística, novo espaço. Anita corre atrás de editais e leis de incentivo sonhando com um lugar fixo onde as mulheres possam se reunir sem depender de sala emprestada. 


19º Sarau das Floriterárias em celebração do 10º aniversário - Imagem: @renato2006/ Divulgação
19º Sarau das Floriterárias em celebração do 10º aniversário - Imagem: @renato2006/ Divulgação



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