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‘Luiza’ e outras histórias que a mata sul precisa contar

Uma conversa com Ana Júlia, uma das representantes da nova geração literária da terra dos poetas


"eu funciono muito pelo afeto, por aquilo que eu entrego para o outro e o quanto aquilo que afeta o outro me afeta de volta". é assim que Ana Júlia, 21 anos, define a si mesma: escritora, poetisa, estudante de psicologia e dona de uma loja de cookies. três áreas que, para ela, falam a mesma língua, a dos afetos, do encontro, da troca. 


Autora Ana Júlia com sua obra "Luiza". Imagem: Bruna Araújo/ Reprodução
Autora Ana Júlia com sua obra "Luiza". Imagem: Bruna Araújo/ Reprodução

A autora é de Palmares, cidade da mata sul pernambucana que evoca desde o nome o quilombo dos palmares, refúgio da resistência negra que lutou contra a colonização portuguesa por anos. os registros do lugar indicam que sua etimologia está conectada à palavra palma, em uma associação que conecta liberdade à fertilidade da terra. mas a cidade também carrega outro título: A terra dos poetas. na edição comemorativa de dois anos da Manguetown Revista, contamos um pouco dessa tradição literária abundante, prolífica e tão feraz, responsável por produzir tantos encontros com a palavra. hoje, voltamos ao município com os olhos voltados para o futuro.


é nesse chão de palmas e poesia que uma nova geração de escritores começa a florescer, e Ana Júlia, autora do livro Luiza, é uma das vozes que vêm dando forma a esse movimento.


seu primeiro livro carrega o nome da sua irmã, Luiza. como a escrita te ajudou a elaborar essa experiência?


a escrita sempre foi algo muito presente na minha vida desde a minha infância. logo depois que minha irmã faleceu, foi quando eu realmente me vi escrevendo como uma forma de sobreviver. minha irmã faleceu em 2015, eu tinha 11 anos, e me lembro já escrevendo sem ter consciência de que aquilo era uma forma de elaboração. o processo de luto na minha casa foi bem pesado porque não se falava sobre a morte quando minha irmã faleceu, era como se fosse um elefante enorme no meio da sala que a gente ignorava, então as palavras eram tudo o que eu tinha. a minha escrita partiu muito dessa necessidade que eu tinha de falar, “ok, tá doendo e eu preciso expressar isso”... (respiro) então eu escrevia.


[não sei se as pessoas se recuperam dessa dor

e da ausência de alguém em suas vidas

acho que a vida

é que começa a crescer ao redor delas]




Autora Ana Júlia com sua obra "Luiza". Imagem: Bruna Araújo/ Reprodução
Autora Ana Júlia com sua obra "Luiza". Imagem: Bruna Araújo/ Reprodução

Como nasce um poema seu?


É muito engraçado quando me perguntam isso, porque não é algo que eu monto ou estruturo antes. meu livro nunca surgiu com a intenção de ser livro, ele surgiu como uma intenção de sobrevivência, como eu falei. eu acredito muito que se eu pensar que alguém pode um dia ler, eu não escrevo. eu preciso escrever primeiro para mim, para elaborar aquilo que eu sinto mesmo, sabe? a minha escrita é muito daquilo que é visceral, aquele impulso que surge no peito e que eu preciso colocar para fora. às vezes estou lavando uma roupa ou varrendo a casa e surge algo na minha cabeça, e aí eu começo a escrever achando que vai ser algo de um jeito e no final o texto vira totalmente diferente. eu falo muito sobre detalhes, sobre cheiros, sobre uma pequena coisa ali que tive sensibilidade para perceber e que na correria da vida é uma atividade muito desgastante, porque é como se eu estivesse o tempo todo correndo contra a correria. mas a sensibilidade é uma coisa à qual me agarro na minha escrita e eu não posso perder isso, porque é tudo que eu tenho. se eu não sei para onde correr, é para a escrita que eu vou.


Você se reconhece dentro de alguma tradição poética ou prefere pensar sua escrita como algo mais livre?


Eu penso minha escrita como algo mais livre, eu não preciso colocar algo pra amarrá-la porque não funcionaria. meu livro inteiro é escrito em letras minúsculas, raras palavras aparecem em maiúsculo, justamente com a intenção do leitor não saber onde o texto termina e onde começa. eu sou estudante de psicologia e tenho uma inclinação grande para a psicanálise, como aquela ideia de elaboração que vai surgindo como uma associação livre e o meu texto parte muito disso, sabe? aquilo que vai aparecendo, acontecendo, que a gente vai colocando para fora de forma natural e genuína.


Como a psicologia influencia na forma como você constrói e processa suas narrativas?


É muito engraçado quando às vezes tô numa aula e a professora fala sobre um processo de elaboração, e eu percebo o quanto já fiz isso publicando um livro com o nome da minha irmã. a psicologia abriu minha mente de formas que eu não tinha pensado antes. depois dela, tive contato com escritoras que me despertaram esse estilo como a Ryane Leão, cujo livro “Tudo nela brilha e queima” abriu minha mente para um novo tipo de escrita. teve a Rupi Kaur, que por um tempo eu relia como forma de me reconectar comigo mesma, e eu acredito muito nesse tipo de escrita que nos conecta. tem também a Ana Suy, uma psicanalista da minha área que falou uma vez em uma palestra algo que nunca esqueci: a escrita que é como um espirro, ela só vem e a gente não consegue controlar.


Como é ser uma autora jovem vindo do interior da mata sul e circular por espaços como bienais e festivais literários? você sentiu barreiras nesse caminho?


Sim. os grandes encontros literários acontecem sempre naquele centro de são paulo e rio de janeiro, e quando acontece aqui no nordeste é sempre com muito custo e esforço para fazer acontecer. as oportunidades aqui são muito mais limitadas. eu já participei de um encontro de formação, o Elas Publicam, feito por Lella Malta, e ela falou o quanto foi difícil trazer um congresso de formação para escritores pro nordeste, porque a maioria das pessoas não iam ou mesmo não sabiam que aconteceria. quando eu fui à bienal de pernambuco como escritora foi completamente diferente de quando eu ia como leitora, porque é um esforço real para estar ali em todos os sentidos.


Autora Ana Júlia com sua obra "Luiza". Imagem: Bruna Araújo/ Reprodução
Autora Ana Júlia com sua obra "Luiza". Imagem: Bruna Araújo/ Reprodução

Você participou de eventos importantes como bienais, festivais e até a flip. o que essas experiências mudaram na sua visão sobre ser escritora?


Participar desses eventos literários sempre foi como um sonho bem distante. a primeira vez que fui como escritora, inclusive, foi na bienal do rio de janeiro, que é uma das maiores do brasil. quando cheguei e vi aquele mar de gente eu só pensava “meu deus, como vão olhar para mim aqui? o meu sonho aqui é só um micro sonho no meio de tanta gente ao meu redor”. mas quando as pessoas começaram a parar pra ouvir o que eu tinha a dizer… algo mudou em mim. sinto que plantou um sentimento muito bonito no meu coração. no meu livro eu falo sobre morte, amor, dor, solidão, luto. o meu livro é como se eu estivesse contando à minha irmã a vida que continua acontecendo depois que ela faleceu. em todos os encontros literários que eu participo acontece das pessoas saírem emocionadas das conversas, e eu me emocionar junto. quando eu escrevo e coloco isso para o mundo, já não é mais autoral meu. o que você pega do meu livro e vai ler é aquilo que é seu, aquilo que você transforma e que vai elaborar de si mesmo a partir de algo que alguém escreveu – mesmo que esse alguém tenha sido eu (risos).


[me estende a mão

que os dias estão me doendo

e eu preciso te contar por onde ando

e te pedir proteção

não tem tantas flores por aqui

e a realidade às vezes me engole

mas só preciso te contar sobre o que fiz

com a sua vida que em mim ficou]


Palmares tem o título de ‘terra dos poetas’. na prática, o que isso significa hoje? a literatura ainda ocupa um espaço vivo na cidade?

a literatura ocupa um espaço muito grande aqui na cidade, mas falta ocupar mais sim. hoje em dia sinto que a literatura está em lugares como escolas e na Feira Literária de Palmares que acontece uma vez ao ano, mas parece que isso é sempre muito limitado, muito restrito. eu acredito muito na literatura que alcança a todos, que chega às pessoas em situações marginalizadas. a literatura é possível quando faz sentido na vida do outro.


E como foi pra você crescer nesta terra? isso aparece na sua escrita?

no meu livro eu trago um trechinho sobre isso:


[a minha cidade natal é conhecida como cidade dos poetas

Palmares

dou risada dos pensamentos que isso me traz

será que andei tanto por essas ruas?

será que meus pés passaram por onde esses poetas pisaram

a ponto de recolher em mim um pouquinho dos seus amores pela poesia?]


acho que é muito disso. se eu não tivesse trabalhado em mim uma sensibilidade para perceber essas coisas, não teria tido o olhar que tive para a minha cidade, para a minha história, para os poetas daqui.


Quais autores ou referências que vieram de Pernambuco e Palmares te atravessam e te inspiram hoje?


aqui de Palmares eu tive Genésio Cavalcanti, que não tenho nem palavras para expressar o quanto fui atravessada pela escrita dele. ele nunca soube a importância que teve na minha vida porque infelizmente ele veio a falecer, mas esse é o poder da escrita, ela eterniza. a obra dele eternizou a vida dele, né? e a minha escrita eternizou a vida da minha irmã. acho que um dos maiores medos de quem perde alguém que ama é esquecer a voz, o rosto, o cheiro, e eu tinha muito medo de deixar minha irmã ser esquecida. depois do livro, todo mundo ao meu redor sabe quem é Luiza. nem todo mundo a conheceu, mas se eu falar o nome dela, todo mundo sabe de quem estou falando. 


Existe uma nova geração literária surgindo em Palmares?


acredito que sim! eu sou uma das escritoras jovens da cidade, junto com Larissa (que é conhecida como Lendo Calado) e o Guilherme Borba, que lançou um livro há pouco tempo chamado “março”. eu construí essas amizades com eles nesse meio da escrita mesmo, a partir dessa sensibilidade que nos atravessa como poetas. tenho outros amigos que também nutrem esse desejo de escrever e publicar um livro, mas as oportunidades ainda são muito restritas. eu já fui chamada para palestrar em muitas escolas da rede pública de Palmares e cidades vizinhas como água preta. é muito engraçado porque eu publiquei o livro alguns anos atrás mas até hoje recebo mensagens de pessoas que estavam nessas conversas e dizem que surgiu nelas o desejo de escrever. eu quero que as pessoas olhem para mim e enxerguem que é um sonho possível para elas também, como aconteceu comigo quando me deparei com a obra de Genésio.


Pra fechar, você já está trabalhando em novos projetos?


como eu falei, eu nunca sei se vai surgir um novo livro ou não. tenho, sim, o desejo de continuar nesse caminho da escrita publicada, mas não gosto de colocar isso como cobrança, ainda mais agora que tenho me dedicado muito ao caminho de estudante de psicologia. mas sempre sigo aberta ao que a vida vai abrindo de possibilidade pra mim. se um dia eu escrever outro livro, tenho certeza que vai ser uma coisa que simplesmente vai surgir, porque eu nunca escrevo para transformar em livro. eu sigo escrevendo porque eu preciso. se um dia virar livro, é porque precisava ser.


[um dia eu parei de escrever

porque a vida começou a doer mais do que suportei

mas eu voltei

depois de anos

por você

te procurando

pelos cantos

pelos caminhos que passo

e colocar tudo de mim exposto em palavras

foi a forma que encontrei

de te achar em mim]

– Luiza, Ana Júlia Pereira Carneiro





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