O sopro que atravessa gerações: o pífano por meio da tradição e olhar para novas linguagens
- Maddu Lima

- há 8 horas
- 4 min de leitura
Entre o fazer ancestral e as experimentações contemporâneas, o pífano segue vivo ao incorporar novas influências sem romper com sua origem
No Agreste pernambucano, o som do pífano atravessa gerações e permanece como uma das expressões mais marcantes da cultura popular. Presente em festas, rituais e celebrações, o instrumento segue vivo nas mãos de mestres e novas gerações que mantêm a tradição ao mesmo tempo em que constroem novas formas de fazer e ouvir esse som.
Em meio ao som das zabumbas e movimento das festas, o pífano se destaca pelo timbre agudo, conduzindo o ritmo enquanto guia passos, danças e procissões que atravessam ruas e territórios.
Conhecido também como pífaro ou pife, o instrumento de sopro tem formato cilíndrico e pode ser produzido a partir de diferentes materiais, como bambu, taboca, taquara, PVC e até metal. Sua origem não é consenso entre pesquisadores, que apontam influências indígenas, europeias, africanas e árabes na sua formação.
No Brasil, acredita-se que o pífano tenha sido introduzido por jesuítas e militares portugueses, que o utilizaram, inclusive, em processos de catequese com populações indígenas. Com o tempo, o instrumento foi apropriado e ressignificado por comunidades do interior do Nordeste e do Norte de Minas Gerais.

As Bandas Cabaçais
É nas bandas que os pífanos ganham força coletiva. Também conhecidas como bandas cabaçais, zabumbas, esquenta mulher ou ternos, a composição dos grupos varia de acordo com a região, mas costumam reunir seis integrantes, geralmente homens, com dois pífanos, zabumba, caixa ou tarol, pandeiro ou surdo e pratos de metal.
Historicamente, essas bandas estiveram ligadas a ritos católicos, como novenas e procissões, ocupando um papel central nas celebrações. “Uma novena sem banda de pife é quase um velório”, resume José Cesário, da banda Frei Damião, de Tabira, no Sertão pernambucanoem depoimento no Livro Pífanos do Sertão, Recife, 2016.

Hoje, o pífano ultrapassa o espaço religioso e se insere em diferentes contextos, como blocos de carnaval, festas juninas e apresentações musicais, ampliando seu alcance e diálogo com novos públicos.
Tradição e mestres
Esse saber é transmitido, em grande parte, de forma oral e prática. Os pifeiros são músicos que dominam o instrumento, aprendem dentro da família ou da comunidade,. Por meio da tradição, desenvolvem não apenas a técnica, mas também uma relação sensível com o sopro, o corpo e o repertório.
Embora seja um universo historicamente marcado pela presença masculina, nomes como o de Isabel Marques da Silva, a ‘Zabé da Loca’, romperam barreiras e ampliaram os caminhos do pífano. Nascida em Buíque, no Agreste, em 1924, a artista aprendeu a tocar o instrumento ainda na infância, mas só ganhou reconhecimento nacional décadas depois. Ela se tornou referência como instrumentista e compositora, consolidando seu nome como uma das grandes representantes da cultura do pífano no Brasil.

Outro nome fundamental é o de João Alfredo Marques dos Santos, o mestre João do Pife, do Agreste pernambucano. Além de músico, ele constrói seus próprios instrumentos e mantém uma oficina em Caruaru, onde transmite o conhecimento a novas gerações.
É nesse encontro entre herança e criação que o pífano se mantém vivo, abrindo caminhos para novos músicos sem romper com aquilo que o sustenta.

Novos sopros
Entre os nomes da nova geração, está Vitória do Pife, musicista, compositora e luthier de pífano. Foi ainda jovem que teve seu primeiro contato com o instrumento, ao visitar a oficina de João do Pife.“Meu pai me levou até a oficina e comprou um instrumento para mim”, relembra.
Desde então, a relação com o pífano se constrói a partir da escuta, da prática e da convivência com o mestre. “As tardes passadas na oficina do mestre João do Pife são algo que nunca vou esquecer”, afirma.

Para a artista, tradição e inovação caminham juntas. "A tradição é preservada pelo fazer característico que vem de geração em geração. Isso se traduz nos mestres pifeiros que fazem seus próprios instrumentos e que repassam o conhecimento e a carga histórica dessas tradições e a mantendo-as com respeito. Mas a inovação também é parte da minha geração, que busca novas referências e dialoga com o mundo de hoje”, explica.
Esse movimento aparece na própria música. Ao misturar o pífano com ritmos como coco, baião e carimbó, Vitória cria novas possibilidades sonoras sem romper com a essência do instrumento.
“Acho que reinvento o pífano pela inspiração que atravessa o meu sopro. É isso que traz uma nova linguagem”, diz.
Apesar da crescente popularização, ela aponta um desafio: a distância entre o interesse pelo instrumento e a valorização dos mestres. “Tem muita gente que se encanta, mas não busca conhecer quem mantém essa tradição. Isso é fundamental para que a cultura não se esvazie”, destaca.
Além disso, ocupar esse espaço, historicamente masculino, ainda exige resistência. “Às vezes é incômodo ser a única mulher no meio de muitos homens, mas sigo me afirmando e não abaixo a cabeça”, afirma.
Ao definir a própria trajetória, Vitória resume sua relação com o instrumento em poucas palavras: “Uma guardiã e transformadora de saberes, que carrega uma tradição com coragem e linguagem própria.”
Um som que permanece
No Agreste pernambucano, o pífano é um território de memória, criação e continuidade. Entre mestres e novas gerações, o sopro que atravessa o tempo segue encontrando novos caminhos, ecoando em feiras, festas e ruas, reiventado a cada toque, sem deixar de carregar consigo as marcas de quem veio antes.
“Quero construir um futuro de prosperidade, novas visões de mundo, conexões e muita verdade”, projeta Vitória, como quem sopra, no presente, os caminhos do que ainda está por vir.
.png)


Comentários