Nos bastidores da folia: O trabalho invisível da discotecagem que decide se a praça esvazia ou fica no Carnaval do Recife
- Luíza Bispo

- há 16 horas
- 5 min de leitura
Entre um show e outro, Pepe Jordão, Nadejda e DJ Incidental revelam os segredos de bastidores e os custos ocultos de manter uma multidão pulsante no palco em plena folia de momo
No entra e sai do mês de fevereiro, quando o Carnaval e a folia de momo comanda a rotina da cidade do Recife, muito se fala dos artistas que incendeiam os palcos dos polos principais, do maracatu, dos estandartes, da purpurina e da dimensão cultural da festa. Na mídia, a cobertura celebra os shows, os números grandiosos de público e os investimentos ultrapassados ano a ano. Fica de fora, porém, um personagem que influencia diretamente a dinâmica de toda a programação, cuja função é tão essencial quanto é invisível pelos olhos dos espectadores: o DJ que assume o palco nos intervalos.
É nesse momento de transição, enquanto as equipes técnicas correm para montar e desmontar os equipamentos, ajustar som e luz, que a multidão decide se permanece ou se dispersa. E, para isso, cabe ao DJ sustentar o fluxo da noite, administrar o ritmo da espera e preparar o ambiente para a próxima atração.
Em 2026, essa responsabilidade esteve nas mãos de três profissionais que comandaram polos centrais da folia da cidade: é o caso do DJ Incidental, no Arsenal; DJ Nadejda, na Praça da Várzea; e Pepe Jordão, no Marco Zero, que revelarem os detalhes dos bastidores e as facetas desconhecidas sobre a engenharia musical da discotecagem em festas de grande porte.
A curadoria como norte: O método Incidental na Praça do Arsenal
Na Praça do Arsenal, um dos polos mais plurais do Recife, DJ Incidental (Eudes Ciriano) encarou cinco dias consecutivos de programação. Segundo ele, cada noite é como um roteiro artesanal, onde dentro do repertório escolhido para o Carnaval, o artista consegue criar seus próprios universos sonoros. “Eu pesquiso a fundo os artistas que vão tocar. Entendo o período em que surgiram, qual disco foi mais consumido e que músicas dialogam com aquele repertório”, detalha.
O DJ exemplifica com uma memória de carnavais passados, quando percebeu a onipresença de "Frevo Mulher", que tocou 18 vezes em quatro dias de Carnaval. “Se eu sei ou descubro as músicas que o artista vai tocar, tiro do meu set naquele momento, porque isso pode atrapalhar a experiência coletiva. Eu prefiro começar o set com músicas que o público continue dançando, mas poupe energia para se manter ali.” Na véspera, ele revela uma estratégia de "gancho": Incidental insere músicas do artista do dia seguinte, criando uma narrativa que prepara o público de forma sutil, mas planejada.
Sua curadoria, no entanto, tem uma assinatura inegociável: um recorte geográfico e histórico, indissociável de sua própria personalidade.
“A minha pesquisa vem da linha do Equador para baixo. Eu trabalho a música produzida nas Américas há mais de 15 anos. Cumbia brasileira, carimbó e tecnobrega se juntam com os brinquedos populares, onde aposto mais no frevo, coco e maracatu.” É uma costura que reflete a alma do Arsenal, que transita entre famílias, idosos e crianças durante o dia e a juventude à noite. "Uma música lenta pode ganhar uma base de samba e mudar o ambiente. Uma canção popular pode entrar com base de frevo. A latinidade está nos noticiários agora, mas eu trabalho com isso há muito tempo."

Por trás de todo esse trabalho de produção, de acordo com o artista, a função do DJ em um palco público ainda é um dos papéis mais incompreendidos da festa. “Muita gente acha que o DJ precisa ser discreto, ficar nos bastidores, mas eu penso que a gente precisa estar na frente do palco sim, olhando e sendo visto! Até porque existe um dever nosso ali, que é criar uma transição sonora interessante para manter as pessoas na praça até o encerramento, para que assistam ao próximo show", desabafa o artista.
Esse dever vem, sobretudo, com custos invisíveis, que envolvem os figurinos pensados para cada noite, a contratação de uma equipe de vídeo, a manutenção dos equipamentos pessoais e a preparação física e mental. “Manter o cansaço longe é essencial. É preciso ter uma percepção apurada para ler a energia do público na praça”, explica Incidental.
Essa leitura, por sua vez, também é coordenada com a engrenagem do palco. Com os apresentadores, há códigos para entradas, cortes e interações. Ele explica: "a gente não entra simplesmente quando o show acaba. Existe um tempo bem contado para a troca de equipamentos. Às vezes eu preciso segurar mais meu set, às vezes encurto. É tudo alinhado de forma prévia."
A arte de costurar mundos diferentes
Na Praça da Várzea, a DJ Nadejda enfrentou outro desafio: conseguir tecer, de forma coerente e atrativa para a multidão que aguardava os shows, uma linha musical entre artistas de estéticas diferentes. “O mais desafiador foi dialogar com tantos shows e estilos. Eu toquei entre Jader, Silvério Pessoa, Cordel do Fogo Encantado, Barbarize, Uana, Lenine. Então os blocos entre as apresentações precisavam ser coerentes, e isso me fez mergulhar no universo de cada artista”, conta.

Com uma programação eclética, Nadejda equilibrou a identidade de cada noite com sua própria assinatura. Ao lado do frevo, ijexá e manguebeat, ela inseriu produções eletrônicas recentes de Pernambuco e remixes autorais, apostando na originalidade e na recepção calorosa do público varzeano: “somos nós que preparamos o público e ficamos responsáveis pela energia da galera, então é muita responsabilidade. É uma oportunidade incrível de mostrar algo novo que a maioria provavelmente nunca ouviu”, revela Nadejda.
Pepe Jordão e o ritual no Marco Zero
No palco principal do Marco Zero, Pepe Jordão opera a mesa com a sabedoria de quem começou nos bastidores. “Eu comecei tocando no cantinho da retaguarda, junto da mesa de som, não era muito visto e isso nunca foi problema. O que importa é que a multidão esteja se divertindo.”
Para o produtor experiente, sua estratégia é a da antecipação e do choque. Pepe evita tocar músicas do artista no mesmo dia da apresentação, mas gosta de apostar no que chama de "quebradas de pista", que são aquelas transições bruscas que surpreendem, como “sair de um frevo clássico para um funk sem abandonar o repertório pernambucano. Ir e voltar dá um retorno muito forte. Cada noite foi tratada como se fosse a principal. Eu me doo totalmente naquele dia e deixo o próximo para amanhã”.
Em comum, os três DJs convergem para um ponto: a discotecagem começa bem antes de pisar no palco e termina muito depois que a luz se apaga. É um trabalho que, como qualquer função artística, exige método, planejamento e compromisso com o cronograma, mas acaba ficando na retaguarda midiática. Seja entre as balas, brilhos e bandeiras do Carnaval ou nas festas da cena noturna recifense, eles são os autoproclamados engenheiros da purpurina coletiva, responsáveis por manter o coração da cidade sem pausas nos dias mais coloridos e aguardados do ano.
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