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Quem vai continuar a brincadeira? Quando a infância conhece a tradição, o Cavalo-Marinho encontra forças para resistir em Pernambuco

há 11 horas
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Em Aliança, a transmissão do Cavalo-Marinho encontra nas crianças uma possibilidade de futuro diante dos desafios para manter viva a tradição cultural


Uma criança de quatro meses ainda não sabe o que é memória. Não conhece o nome das coisas, não compreende o significado das músicas e dificilmente consegue distinguir uma apresentação de qualquer outra experiência ao seu redor. Em Chã do Esconso, distrito de Aliança, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, no entanto, qualquer pessoa, ainda na primeira infância,  já pode estar dentro de um Cavalo-Marinho.


Andarlan, filho de Andala, aos três anos de idade, brincando de cavalo-marinho durante uma apresentação. Imagem: Acervo pessoal/Andala Quituche
Andarlan, filho de Andala, aos três anos de idade, brincando de cavalo-marinho durante uma apresentação. Imagem: Acervo pessoal/Andala Quituche

Pétala e Andarlan , filhos de Andala Quituche e do mestre Grimário, começaram assim. Ainda bebês, ganharam pequenas roupas para acompanhar a brincadeira. Eram carregados nos braços dos pais ou de outros brincantes durante as apresentações. Antes de saberem explicar o que estavam fazendo, já estavam cercados por rabecas, loas, figuras, músicas, passos e personagens. A tradição chegou primeiro pelo corpo, pelo colo e pela convivência. A compreensão viria depois.


A história dos dois filhos de Andala revela uma característica fundamental do Cavalo-Marinho: seu conhecimento não é transmitido apenas quando alguém se senta diante de uma criança para ensinar uma sequência de passos. Ele acontece na convivência. Está na observação do mestre, na repetição de uma pisada, na escuta de uma toada, na confecção de um adereço, no instrumento que passa de uma mão para outra. É uma aprendizagem que não cabe inteiramente em uma apostila ou em uma sala de aula porque depende, acima de tudo, de gente disposta a continuar fazendo.


E é justamente por isso que a infância ocupa um lugar tão importante nessa história.


Antes de ser patrimônio, o Cavalo-Marinho já era memória


A história do Cavalo-Marinho atravessa séculos. Segundo, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), procurada pela reportagem, a tradição oral atribui à manifestação cerca de 400 anos, enquanto registros documentais da brincadeira realizada por pessoas escravizadas remontam à década de 1870. A manifestação também teve papel importante na consolidação da cultura da rabeca, instrumento que se tornou uma de suas principais marcas sonoras.


Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Cavalo-Marinho como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O título foi resultado de uma solicitação apresentada pelo Governo de Pernambuco em 2008.


  • Mateus e Bastião em apresentação do Cavalo-Marinho. Imagem: Felipe Souto Maior / Secult-PE
  • Apresentação do Cavalo-Marinho. Imagem: Silla Cadengue/ Fundarpe

O reconhecimento, claro, representa uma conquista, mas também traz uma questão que nenhum certificado consegue responder: quem garante que esse patrimônio continuará vivo quando os mestres que hoje carregam esse saber já não estiverem mais na roda?


Um prédio histórico pode ser restaurado. Um documento pode ser arquivado. Uma peça pode ser colocada em um museu. O Cavalo-Marinho, não. Ele precisa continuar sendo dançado, tocado, cantado e ensinado. É por isso que a preservação começa antes da apresentação. Está na criança que aprende uma figura, no adolescente que tenta tocar uma rabeca, na família que leva o filho para a sede e no mestre que aceita repetir um conhecimento que levou décadas para dominar.


Um aprendizado que não termina


Licenciada em Letras pela Universidade de Pernambuco (UPE), Andala entrou no Cavalo-Marinho já adulta. Tinha cerca de 21 ou 22 anos quando começou a se aproximar da manifestação e, em 2010, foi convidada pelo mestre Grimário, fundador do Cavalo-Marinho Boi Pintado e seu esposo, para brincar no grupo.


Antes disso, havia aprendido passos de danças populares com o mestre Carlos Loy, no grupo Frevo, Capoeira e Passo, em Olinda. A partir do Boi Pintado, vieram outros conhecimentos: músicas, loas, toadas, instrumentos e a própria dinâmica da brincadeira.

Foi também nesse processo que Andala percebeu que não existe um ponto final para quem aprende Cavalo-Marinho. “Porque o Cavalo-Marinho você aprende constantemente. O Cavalo-Marinho é dança, música, teatralidade, confecção dos adereços. Então, é muita coisa para aprender e ainda continua aprendendo”, afirma.


Boa parte desse aprendizado acontece sem uma aula formal. Andala conta que ainda hoje aprende observando Grimário trabalhar. Ele não precisa necessariamente parar para ensiná-la. “Vendo ele fazer cotidianamente o Cavalo-Marinho, então você vai aprendendo.”

A frase ajuda a explicar por que a infância ocupa um lugar tão estratégico. Uma criança que cresce dentro dessa convivência não recebe apenas informações sobre a cultura. Ela desenvolve intimidade com ela. Foi a partir dessa percepção que Andala decidiu criar caminhos para que outros pequenos também pudessem ter esse contato na comunidade.


Quando a comunidade vira escola


Na sede do Cavalo-Marinho Boi Pintado, os sábados são dedicados à Escola das Tradições do Cavalo-Marinho. Cerca de 32 crianças e adolescentes, entre 5 e 17 anos, participam das atividades. Ali, aprender Cavalo-Marinho significa muito mais do que aprender a dançar. Os alunos entram em contato com a musicalidade, os instrumentos, as figuras e as artes manuais, incluindo a confecção de chapéus e golas. A intenção é que o conhecimento percorra o mesmo caminho que as gerações passadas: da convivência para a prática e da prática para a próxima geração.


Apresentação em frente à sede do Cavalo-Marinho Boi Pintado. Imagem: Silla Cadengue/Fundarpe
Apresentação em frente à sede do Cavalo-Marinho Boi Pintado. Imagem: Silla Cadengue/Fundarpe

Os alunos também podem ser integrados ao Boi Pintado e começar a se apresentar profissionalmente. Outros grupos nasceram desse processo, como o Pastoril Escola das Tradições e o grupo de dança Filó com Chita, formado por meninas.


A transmissão também atravessa as paredes da sede. No Museu das Tradições do Cavalo-Marinho, fundado por Andala em 2020, crianças da comunidade participam da recepção de estudantes e visitantes. Aquilo que aprenderam deixa de ser apenas conhecimento recebido e passa a ser conhecimento compartilhado.


A criança vira mediadora da própria cultura.“Hoje, praticamente somos uma fábrica de brincantes de Cavalo-Marinho através da Escola das Tradições”, diz Andala.

Chegar até essa sala de aula improvisada, no entanto, não é igual para todas as crianças.


O acesso começa antes da aula


Para crianças menores de cinco anos, a participação depende muito mais da família. Andala explica que, na comunidade, muitas meninas ainda não têm autonomia para sair sozinhas de casa. Os meninos, segundo ela, costumam circular mais cedo.


Quando uma criança pequena participa das atividades, geralmente um responsável precisa acompanhá-la durante toda a aula. Se houver uma apresentação, a presença da família também é necessária.


É uma dificuldade que parece distante das grandes discussões sobre patrimônio, mas que revela uma questão fundamental: preservar uma manifestação cultural também significa criar condições para que uma criança consiga chegar até ela.


Para outras famílias, entretanto, esse contato depende de tempo, disponibilidade e interesse.


É aí que cultura e primeira infância começam a se encontrar de maneira mais direta.


Onde a cultura entra na política da primeira infância?


Em Pernambuco, o debate sobre os primeiros anos de vida vem sendo acompanhado também pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE). Em 2026, o órgão identificou crescimento na elaboração dos Planos Municipais pela Primeira Infância (PMPIs): 116 dos 184 municípios pernambucanos apresentaram seus projetos, o equivalente a 63% do estado.



Família de Andala Quituche, todos caracterizados para as apresentações. Imagem: Acervo pessoal
Família de Andala Quituche, todos caracterizados para as apresentações. Imagem: Acervo pessoal

O avanço, entretanto, não significa que o planejamento já esteja plenamente convertido em ações. Segundo o acompanhamento, apenas 20 municípios comprovaram integralmente o monitoramento das ações previstas nos planos; outros 19 apresentaram acompanhamento parcial e 77 não comprovaram rotinas de monitoramento da execução das metas.


O relatório não trata especificamente do Cavalo-Marinho nem da cultura pernambucana. Os números, contudo, ajudam a colocar outra pergunta na mesa: se a primeira infância deve ser pensada de forma integral, qual lugar a cultura ocupa nesse planejamento?


Afinal, o desenvolvimento de uma criança não acontece apenas dentro da escola. Ele também passa pelo território onde ela vive, pelas pessoas com quem convive, pelas histórias que escuta, pelas brincadeiras, pelas expressões artísticas e pelas manifestações culturais que ajudam a construir sua identidade. É nesse ponto que a discussão sobre as políticas para a primeira infância encontra a cultura pernambucana. 


Para a professora Rafaela Ribeiro, que atua no Ensino Fundamental I, apresentar a cultura pernambucana desde os primeiros anos ajuda justamente nesse processo.


“É preciso que elas conheçam e valorizem as suas raízes e o lugar onde vivem. Essa aproximação contribui para que nossos alunos valorizem a sua cultura e consigam desenvolver o sentimento de pertencer àquele lugar. Por meio de histórias, músicas, festas e das próprias brincadeiras do dia a dia, as crianças ampliam seus conhecimentos, aprendem a respeitar a variedade de coisas que nos cercam e compreendem a importância de preservar as tradições. Assim, o papel da escola será contribuir para termos alunos mais conscientes, participativos e capazes de valorizar a riqueza cultural de Pernambuco”, afirma.

Rafaela defende que o Cavalo-Marinho pode chegar à Educação Infantil por meio de musicalização, dança e contação de histórias. No Ensino Fundamental, a manifestação também pode ser trabalhada em pesquisas e atividades pedagógicas.


Também existe, para ela, uma possibilidade ainda mais significativa: levar os próprios mestres e brincantes para dentro da escola, aproximando as crianças de quem mantém essa tradição viva.


A escola pode ser uma porta de entrada, mas não precisa ser o destino final. O conhecimento continua pertencendo à comunidade. “Seria de total relevância promover momentos com as próprias pessoas da comunidade dentro da escola, para que as crianças conheçam essas tradições”, detalha Rafaela 


O que já existe para manter a tradição viva


Se a infância é uma das portas para o futuro do Cavalo-Marinho, a política cultural é outra. E Pernambuco já possui mecanismos destinados à preservação da manifestação.


A Fundarpe informa que o Cavalo-Marinho integra as políticas estaduais de salvaguarda da cultura popular e pode acessar diferentes editais do Funcultura. Entre 2023 e 2025, mais de dez projetos relacionados à manifestação foram aprovados em editais como Funcultura Geral, Audiovisual, Microprojeto Cultural e Patrimônio Cultural.


Seu Ambrósio, personagem do Cavalo-Marinho, durante apresentação. Imagem: Silla Cadengue/Fundarpe
Seu Ambrósio, personagem do Cavalo-Marinho, durante apresentação. Imagem: Silla Cadengue/Fundarpe

Também existe a política de Patrimônio Vivo. Entre os reconhecidos estão o mestre Zé de Bibi, o Cavalo-Marinho Estrela de Ouro e o Cavalo-Marinho Boi Pintado. Mestre Salustiano também recebeu o título em reconhecimento à sua trajetória na cultura popular pernambucana.



A atuação do Estado também passa pela contratação de grupos durante os ciclos festivos, que, segundo a Fundarpe, é uma medida que já é posta em prática. “Em dezembro de 2025, foram 12 contratações, considerando a importância do período natalino para a tradição. Já em junho de 2026, a Fundação apoiou o 5º Encontro Estadual de Cavalo-Marinho, realizado em Condado, com a contratação de dez grupos, e apoia anualmente eventos promovidos na Casa da Rabeca pela família Salustiano. A manifestação também integra a programação de contratações da Fundarpe em outros períodos festivos, como o Carnaval e o Festival Pernambuco Meu País”, afirma a pasta, por meio de nota.


Embora os editais sejam uma das principais portas de acesso dos grupos culturais aos recursos públicos, a participação nesses mecanismos também pode representar um desafio para mestres e brincantes. A elaboração de projetos exige conhecimento sobre os formatos de inscrição, documentação, prestação de contas e critérios específicos de cada seleção, o que pode dificultar o acesso de grupos que nem sempre contam com estrutura técnica ou pessoas dedicadas exclusivamente à produção de projetos.


Foi justamente por isso que a reportagem perguntou  a Fundarpe sobre a existência de ações permanentes do Governo de Pernambuco voltadas à transmissão desses saberes para as novas gerações. Além das iniciativas realizadas por meio de editais e das atividades desenvolvidas diretamente pelos próprios grupos culturais, a pasta foi questionada  se existe algum programa, projeto ou ação especificamente voltado para crianças e para a formação de novos brincantes do Cavalo-Marinho, quais órgãos estariam envolvidos e qual seria o público atendido.


A Fundarpe não apresentou, na resposta enviada à reportagem, informações sobre um programa ou projeto específico com esse objetivo. A manifestação encaminhada se concentrou nas contratações de grupos durante os ciclos festivos e no apoio a eventos relacionados ao Cavalo-Marinho. O canal segue aberto para retorno.


O patrimônio também precisa sobreviver fora do palco


Andala reconhece os avanços das políticas públicas. Ela própria participou de dois mandatos como conselheira estadual de política cultural e esteve envolvida na criação do Dia Estadual do Cavalo-Marinho, celebrado em 29 de junho. Para ela, os encontros estaduais e os seminários também abriram espaços importantes de diálogo com o poder público. Mas o reconhecimento sozinho não resolve.


“Isso já é de grande valor, já é um passo que acredito que nem todos os outros segmentos da cultura tenham esse privilégio. Porém, ainda é pouco”, diz.


O “pouco” aparece em coisas bastante concretas.


Na Escola das Tradições, por exemplo, as crianças aprendem instrumentos, mas não existem equipamentos em quantidade suficiente para que possam levá-los para casa e continuar praticando. A rabeca é um dos exemplos. Segundo Andala, o equipamento custa entre R$ 1,2 mil e R$ 1,5 mil.


  • Participantes do Boi Pintado. Imagem: Acervo Pessoal

“Tocar o instrumento requer bastante dedicação, e nós não temos instrumentos suficientes para que eles possam levar para casa e fazer esse treinamento. Então, aprender os instrumentos é o que eu acho que a gente tem mais dificuldade, por não ter uma quantidade que permita que eles possam levar para casa e treinar. Então, eles só pegam os instrumentos quando estão aqui nas aulas”, diz.


A dificuldade também está na renda. Mestres e brincantes nem sempre conseguem viver exclusivamente da cultura. Alguns mantêm outras atividades, inclusive no campo. Os cachês recebidos por apresentações, segundo Andala, são esporádicos e insuficientes.

“Esses pequenos cachês, quando aparecem esporadicamente nos contratos, não dão para manter a vida de ninguém”, afirma.


No Boi Pintado, Andala acumula a função de produtora e tenta fazer com que os recursos obtidos retornem para o próprio grupo. É uma estratégia que permite uma sobrevivência básica, mas que também revela o quanto a continuidade da cultura ainda depende do esforço individual de quem está dentro dela.


O desafio de disputar a atenção


Existe ainda uma disputa que não se resolve com edital.


Ela acontece na atenção das crianças.


Pétala, filha de Andala Quituche, durante apresentação do Cavalo-Marinho. Imagem: Acervo pessoal
Pétala, filha de Andala Quituche, durante apresentação do Cavalo-Marinho. Imagem: Acervo pessoal

Andala aponta os celulares e as novas tecnologias como um dos desafios para manter o interesse da juventude. O problema não está necessariamente na tecnologia em si, mas no fato de que o Cavalo-Marinho exige uma relação diferente com o tempo. Aprender uma figura exige repetição. Aprender uma toada exige escuta. Aprender um instrumento exige prática. Aprender a brincar exige convivência.



É justamente o contrário da lógica de consumo rápido que domina boa parte dos conteúdos digitais. Pétala percebe essa transformação. Aos 11 anos, ela observa que outras crianças são cada vez mais expostas a músicas e conteúdos que chegam pelas telas. Sua preocupação é que, sem conhecer a própria cultura, uma geração possa crescer distante dela.


“Como é que fica sem a cultura?”, pergunta.

Maria Laura, de 12 anos, encontrou no Cavalo-Marinho uma possibilidade diferente. Ela gosta especialmente de mergulhão, uma das partes da brincadeira em que os participantes interagem entre si, e pretende continuar quando crescer porque quer “aprender mais coisas” e “participar mais da cultura”.


São respostas simples, mas que revelam aquilo que nenhuma estatística consegue medir completamente: o vínculo. Uma criança permanece em uma manifestação cultural não apenas porque alguém determinou que ela deve aprender, mas porque encontrou significado nela.


A infância como começo, não como promessa


É por isso que a transmissão do Cavalo-Marinho precisa começar cedo, mas não pode terminar na infância. Uma oficina para crianças pode despertar interesse. Uma apresentação pode criar encantamento. Uma atividade escolar pode produzir conhecimento. A continuidade, no entanto, depende de algo maior: que essa criança encontre caminhos para permanecer.


Isso significa ter espaços de ensaio, instrumentos, mestres remunerados, acesso aos editais, circulação e oportunidades para que novos brincantes possam se tornar também profissionais da cultura. Necessita, ainda, aproximar as políticas culturais das políticas de educação e primeira infância.


O acompanhamento do Tribunal de Contas do Estado mostra que Pernambuco avançou na criação de instrumentos municipais para planejar políticas destinadas às crianças, mas também evidencia dificuldades na execução e no monitoramento.


No caso de Aliança, essa discussão ganha um significado particular. O município está inserido em um território onde o Cavalo-Marinho não é uma lembrança distante: ele está presente nas comunidades, nas sedes, nos mestres e nas crianças que ainda aprendem a brincar.


A Prefeitura de Aliança foi procurada para informar quais ações desenvolve ou pretende desenvolver para aproximar o Cavalo-Marinho das crianças, especialmente na primeira infância, e se existem projetos para inserir a manifestação nas atividades de educação infantil e nas escolas.Até a finalização desta reportagem, a gestão municipal não havia respondido aos questionamentos encaminhados.


Sem essa resposta, permanece uma lacuna importante sobre o papel do município na transmissão de um patrimônio tão relacionado ao território. A reportagem deixa o espaço aberto para esclarecimentos. 


A tradição não cabe em uma vitrine


O Cavalo-Marinho já foi reconhecido como patrimônio nacional. Pernambuco criou mecanismos de proteção. Existem editais, contratações, encontros, bolsas e grupos que continuam se apresentando.Ainda assim, nada disso garante sozinho que a manifestação continuará existindo. Porque patrimônio imaterial não é aquilo que simplesmente se preserva. É aquilo que se pratica.


  • Andarlan, filho de Andala, desde pequeno no Cavalo-Marinho. Imagem: Acervo pessoal
  • Andarlan, filho de Andala, desde pequeno no Cavalo-Marinho. Imagem: Acervo pessoal

Ele sobrevive quando um mestre encontra um aprendiz. Quando uma criança recebe uma roupa e entra na roda. Quando um menino aprende um instrumento. Quando uma escola abre espaço para um brincante contar sua história. Quando uma família consegue levar o filho para uma aula. Quando existe dinheiro para comprar uma rabeca. Quando o artista consegue ser remunerado pelo próprio trabalho.



Em Chã do Enconso, essa cadeia ainda está de pé.


São cerca de 32 crianças aprendendo no projeto de Andala. São meninas e meninos ocupando espaços dentro da brincadeira. São estudantes que recebem visitantes no museu. São pais e mães que acompanham os filhos. São mestres que continuam ensinando. São crianças que, mesmo sem lembrar da primeira vez que participaram, já carregam o Cavalo-Marinho como parte da própria história.


Andala também continua aprendendo.


Entrou adulta, recebeu conhecimentos de diferentes mestres e brincantes e, agora, dedica parte de sua trajetória a criar condições para que outros aprendam.


Talvez seja essa a imagem mais precisa do que significa preservar uma cultura: não guardar algo para impedir que mude, mas criar condições para que continue sendo vivido.


Pétala e Andarlan começaram no colo.


Priscila já sabe que é preciso conhecer antes de julgar.


Maria Laura quer continuar aprendendo.


E outras crianças ainda podem chegar.


O Cavalo-Marinho não precisa apenas de quem conte sua história.


Precisa de quem a continue.


Na Chã do Pinhão, algumas dessas pessoas ainda estão aprendendo os primeiros passos.


E, enquanto elas aprendem, a memória não fica parada.


Ela dança.



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