Alfredo Bertini se despede em meio à 30ª edição do CINE PE e transforma o festival em um ato de permanência
- Leandro Lopes

- há 4 horas
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Idealizador de um dos mais importantes eventos do audiovisual brasileiro, produtor cultural deixa um legado que atravessa gerações e encontra, na continuidade do festival, sua maior homenagem
Na noite da última quinta-feira (4), em meio à realização da 30ª edição do CINE PE – Festival do Audiovisual, Pernambuco e o cinema brasileiro perderam Alfredo Bertini, economista, produtor cultural e idealizador de um projeto que, desde 1997, ajudou a transformar o estado em uma das principais referências do audiovisual nacional. Bertini morreu aos 65 anos, na Paraíba, onde realizava tratamento de saúde em decorrência de complicações relacionadas a um transplante de fígado.

A notícia chegou enquanto as salas permaneciam abertas, os filmes continuavam sendo exibidos e o público seguia ocupando as poltronas do Teatro do Parque. Era como se a própria essência do festival lembrasse que o cinema, antes de qualquer coisa, é um encontro. E que alguns encontros permanecem mesmo depois da ausência.
Poucos personagens conseguiram compreender tão profundamente a vocação cultural de Pernambuco quanto Alfredo Bertini. Em uma época em que os grandes festivais brasileiros estavam concentrados em outros centros, ele enxergou que o estado, berço de movimentos artísticos e narrativas singulares, precisava de um espaço permanente para celebrar seu cinema e dialogar com o país.
O que começou como um sonho idealizado por um economista apaixonado pela sétima arte tornou-se, ao longo de 30 edições, um dos mais importantes festivais do Brasil. O CINE PE revelou realizadores, acolheu estreias, aproximou o público das produções nacionais e ajudou a formar uma geração inteira de espectadores que aprendeu a enxergar o Brasil através de suas próprias histórias.
Foi sob a luz do CINE PE que muitos jovens cineastas exibiram seus primeiros trabalhos. Foi ali que produções independentes encontraram visibilidade e que o cinema pernambucano consolidou sua força como um dos movimentos mais importantes do audiovisual contemporâneo. O festival acompanhou transformações tecnológicas, atravessou crises econômicas, resistiu a momentos de instabilidade para a cultura e permaneceu defendendo aquilo em que seu fundador mais acreditava: o encontro entre as pessoas por meio da arte.
A 30ª edição, que já carregava o simbolismo de celebrar uma trajetória construída ao longo de quase três décadas, ganhou um novo significado com sua partida.
Na noite seguinte ao falecimento, o Teatro do Parque recebeu uma homenagem especial ao criador do festival. Um documentário produzido pela jornalista Mari Frazão reuniu depoimentos de amigos, parceiros e profissionais que acompanharam sua caminhada e testemunharam sua dedicação ao fortalecimento do cinema brasileiro.
Ao final da exibição, a emoção tomou conta da sala. O público levantou-se para uma longa salva de aplausos, em um gesto espontâneo de reconhecimento a alguém que dedicou a vida para que aquele espaço existisse.
Em seguida, a diretora do festival, Sandra Bertini, subiu ao palco acompanhada dos filhos, Vitor e Patrícia Bertini. Entre lágrimas, agradeceu as homenagens e reafirmou a decisão de seguir com a programação, exatamente como Alfredo havia planejado.

"Todos falam da sabedoria de Alfredo. Inteligência é para muitos, mas sabedoria é para poucos. Ele enxergou a dimensão da importância de um festival em um estado com uma potência cultural tão grande como Pernambuco", afirmou.
A fala sintetizou aquilo que talvez seja o maior legado deixado por Bertini. Sua contribuição ultrapassa a criação de um evento. Ele ajudou a construir um espaço de memória, pertencimento e formação cultural. Um lugar onde espectadores anônimos dividem a mesma sala com grandes artistas; onde estudantes descobrem uma profissão; onde histórias locais encontram repercussão nacional.
Ao pedir que a homenagem à atriz Cláudia Abreu fosse celebrada com alegria e que a tristeza desse lugar à continuidade do festival, Sandra também revelou aquilo que parecia ser o desejo do próprio fundador: que o CINE PE nunca deixasse de ser uma festa do cinema brasileiro.
Seu nome talvez não apareça na abertura de cada filme exibido pelo CINE PE. Mas estará, para sempre, em cada fila formada antes das sessões, em cada debate depois dos créditos finais e em cada aplauso que ecoar dentro de uma sala de cinema.
Porque há pessoas que fazem cinema.
E há aquelas que criam as condições para que o cinema continue existindo.
Alfredo Bertini fez as duas coisas.
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