CINE PE: Pernambuco acende a luz do projetor para contar o Brasil
- Leandro Lopes

- há 4 horas
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Em sua 30ª edição, o festival reafirma seu papel na construção da memória do audiovisual brasileiro e consolida Pernambuco como um dos principais territórios do cinema nacional
Há festivais que exibem filmes. Outros criam mercados, aproximam profissionais e movimentam a economia criativa. Mas existem aqueles que ultrapassam a tela e se transformam em parte da identidade de um lugar. Ao longo de suas 30 edições, o CINE PE fez exatamente isso.

Desde sua primeira realização, em 1997, o festival ajudou a construir uma ponte entre Pernambuco e o restante do país, oferecendo ao público a oportunidade de assistir, gratuitamente, a histórias que muitas vezes não encontram espaço no circuito comercial. Mais do que uma mostra de cinema, o CINE PE se consolidou como um lugar de encontros: entre realizadores e espectadores, entre tradição e inovação, entre o Nordeste e o Brasil.
Talvez não exista imagem mais simbólica dessa trajetória do que a das irmãs Zenaide e Fátima Maria de Sousa, carinhosamente conhecidas como "As Irmãs do CINE PE".
Presentes em todas as edições do festival desde sua criação, elas transformaram o ato de assistir a um filme em um ritual de pertencimento. Quando afirmam que "o CINE PE é o nosso carnaval", não falam apenas de um evento cultural, mas de uma celebração coletiva capaz de reunir pessoas em torno da arte.
Em Pernambuco, onde o cinema aprendeu a dialogar com o mangue, com o sertão, com os terreiros e com as ruas das cidades, o festival também ajudou a contar a própria história do estado. Não por acaso, a 30ª edição prestou homenagem a "Baile Perfumado" e "O Cangaceiro", dois filmes que marcaram a primeira mostra de longas-metragens do evento e simbolizam um momento decisivo para a retomada do audiovisual pernambucano. O primeiro, dirigido por Paulo Caldas e Lírio Ferreira, recolocou Pernambuco no mapa da produção cinematográfica nacional após duas décadas sem a realização de longas no estado. O segundo reafirmou a força das narrativas nordestinas dentro do cinema brasileiro.
Ao longo de suas edições, o CINE PE acompanhou as transformações do audiovisual brasileiro. Viu o cinema atravessar crises econômicas, mudanças tecnológicas, disputas políticas e novas formas de consumo. Assistiu ao surgimento das plataformas digitais sem abandonar a experiência coletiva da sala escura. Pelo contrário: reafirmou que o cinema continua sendo um encontro humano, uma troca de olhares, silêncios e emoções compartilhadas.
Nesta edição, o festival também mostrou que olhar para o futuro significa ampliar o acesso. Pela primeira vez, todas as mostras competitivas contaram com recursos completos de acessibilidade, incluindo audiodescrição e legendagem para surdos e ensurdecidos. Um passo importante para democratizar o audiovisual e reafirmar que a cultura só cumpre plenamente seu papel quando pode ser experimentada por todos.
Mas a 30ª edição do CINE PE também ficará marcada por um momento impossível de dissociar de sua história. Em meio às exibições, debates e encontros, Pernambuco se despediu de Alfredo Bertini, idealizador do festival e um dos grandes incentivadores do cinema brasileiro.
Sua partida transformou o Cinema do Teatro do Parque em um espaço de memória. O documentário exibido em sua homenagem, seguido por uma longa salva de aplausos do público em pé, revelou que o maior legado de Bertini talvez não sejam apenas os filmes que passaram pelo festival, mas as pessoas que ele conseguiu reunir em torno do cinema.
Ao afirmar que a melhor homenagem ao fundador é manter viva a sala de exibição, a diretora Sandra Bertini sintetizou o espírito do CINE PE. Porque o festival nunca pertenceu apenas à sua organização. Ele pertence aos realizadores que sonham em exibir seu primeiro curta-metragem, aos estudantes que descobrem novas formas de narrar o mundo, aos artistas que encontram reconhecimento e ao público que insiste em ocupar uma poltrona para viver, durante algumas horas, a vida de outra pessoa.
Quando as luzes do Teatro do Parque se apagarem neste domingo (7), não será apenas o encerramento de mais uma edição. Será a confirmação de que o cinema continua encontrando em Pernambuco um território fértil para existir.
Em um tempo marcado pela velocidade, pelas telas individuais e pelos algoritmos, o CINE PE segue defendendo algo simples e profundamente humano: a experiência de estar junto para ouvir histórias.
Talvez seja justamente por isso que, ao chegar à sua 30ª edição, o festival já não seja apenas um dos mais importantes eventos audiovisuais do Brasil. O CINE PE tornou-se parte da memória afetiva de Pernambuco e uma das principais janelas pelas quais o país e o mundo podem enxergar a potência cultural deste estado.
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