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Carnaval fora do eixo: em Barreiros, blocos mantêm a folia viva longe dos grandes polos

Na Mata Sul pernambucana, a Turma da Latinha e o bloco infantil João Duro sustentam há décadas um carnaval de rua construído por iniciativa popular e memória coletiva


Enquanto o Carnaval de Pernambuco ocupa as telas nacionais e internacionais com imagens do Recife Antigo, do Galo da Madrugada e dos bonecos gigantes de Olinda, as demais regiões seguem sustentando a festa longe dos holofotes. A alguns quilômetros dos grandes centros oficiais da folia, outras multidões também ocupam as ruas, dançam, cantam e sustentam tradições longe das transmissões ao vivo. É o caso das festas sediadas na Zona da Mata Sul.


Sem um polo oficial consolidado ou uma expressão cultural amplamente reconhecida no imaginário estadual, o Carnaval da região é historicamente tratado como periférico. Diferente do frevo recifense ou dos maracatus da Mata Norte, a Mata Sul não alcançou a projeção enquanto símbolo carnavalesco. Sua folia cresceu de forma dispersa, com menos investimento, visibilidade e poucos registros sistematizados ou catalogados.


Na cidade de Barreiros, por exemplo, às margens dos rios Una e Carimã, o carnaval de rua estruturado só começou a existir no fim dos anos 1980. Até então, a ‘festa do povo’ era restrita aos bailes privados do Clube Caiadores, o único centro que promovia festejos carnavalescos na cidade. Naturalmente, quem não tinha acesso ao clube simplesmente não participava.


Foi dessa exclusão que nasceu o irreverente Bloco da Latinha. Fundado oficialmente em fevereiro de 1988 como Troça Carnavalesca Turma da Latinha, o bloco surgiu da iniciativa de um grupo de amigos que decidiu ocupar as ruas e criar uma alternativa popular. 


“A Latinha surgiu de forma despretensiosa, fruto de um desejo muito genuíno de pessoas que decidiram proporcionar uma alternativa para que as pessoas pudessem brincar pelo menos dois dias de Carnaval”, relembra o diretor Tarcísio Paixão.


Turma da Latinha nas ruas em 2021. Imagem: Reprodução/ Facebook @turma.barreiros
Turma da Latinha nas ruas em 2021. Imagem: Reprodução/ Facebook @turma.barreiros

Ao desfilar no domingo e na terça-feira, o bloco inaugurou, tardiamente, o carnaval de rua em Barreiros. O nome nasceu de um contexto igualmente espontâneo. Em 1988, era lançada a aguardente Pitú em lata de 350 ml. Os fundadores, autoproclamados apreciadores da novidade, decidiram (por que não?) incorporar a referência. 


Já no primeiro desfile, enquanto um carro de som acompanhava o cortejo, o locutor Del da Rádio convidava em alto e bom som a população que assistia nas calçadas: “Corram, venham brincar na Turma da Latinha!”. Assim, a folia se espalhou rapidamente, atraindo o público para além de Barreiros e da Mata Sul. Hoje em dia, os carros chegam de outras localidades de Pernambuco, do Litoral Norte de Alagoas e de regiões circunvizinhas.


Perto das  quatro décadas de existência, o Bloco da Latinha permanece como um ícone de vigor e irreverência popular em um microcosmos que ainda disputa visibilidade. “O Carnaval não é só uma festa, é uma expressão da identidade brasileira, que celebra a diversidade, a criatividade e também a resistência. Esperamos que o nosso querido Bloco da Latinha esteja sempre em consonância com esse tripé e que as futuras gerações não abandonem essa tradição”, afirma Tarcísio.


Carnaval também é para as crianças


Para a criançada não ficar de fora, Barreiros também conta com o Bloco Infantil João Duro, o maior e único bloco carnavalesco infantil da Mata Sul, que desfila há 32 anos com o objetivo de manter vivos o frevo e o Carnaval para as novas gerações.


Para entender mais essa história, a Manguetown Revista também conversou com Saulo Carvalho, presidente do Bloco João Duro, que contou sobre a sua criação e o legado do bloco infantil.


A ideia do bloco surgiu durante uma reunião entre amigos, na Rua Álvaro Conrado. Estavam presentes Carlos Frederico, Sérgio Moraes, Jonas Câmara, Jáder Brito, Otaviano Marinho e Saulo Carvalho , que sentiam incômodo diante da ausência de um festejo infantil na região.


Bloco do João Duro em 2021. Foto: Arquivo Pessoal
Bloco do João Duro em 2021. Foto: Arquivo Pessoal

A história do bloco tem origem em um personagem real: um senhor alto, de cabelos grisalhos, que vestia sempre roupas brancas e distribuía bombons às crianças, pois dizia gostar muito delas. As crianças brincavam com ele e cantavam uma música: “João Duro, bolacha mole, na minha manteiga você não bole, com a bengala na mão e com o sorriso na cara, com a bengala na mão, eu falo do João Duro, que em Barreiros foi história.”. As mães, por outro lado, utilizavam a figura desse senhor para assustar os filhos e fazê-los se comportar.


Sem fins lucrativos, o Bloco João Duro enfrenta diversos desafios para a sua realização, mas é a paixão pelo carnaval que mantém o bloco vivo há 32 anos.


“Todos os anos corremos atrás. Pedimos apoio à prefeitura e ao comércio local, com uma lista dos materiais que precisamos, como pipocas, bolas de sopro, bombons, picolés e a manutenção do boneco João Duro, que é feito de papel. Também pagamos as pessoas que vestem as fantasias, que seguram os arcos e o rapaz que leva o boneco João Duro”, conta Saulo.


Bloco do João Duro em 2025. Foto: Arquivo Pessoal
Bloco do João Duro em 2025. Foto: Arquivo Pessoal

Além dos desafios financeiros, manter a tradição em equilíbrio com a renovação é fundamental para dialogar com as novas gerações. O Bloco João Duro tem como pilar o repasse do amor pela cultura popular e pelo frevo.


“Esse equilíbrio acontece por meio da integração entre o legado histórico e novas formas de participação que façam sentido para as crianças de hoje. Assim, o bloco segue sendo passado de geração em geração. Ele é fruto do amor à cultura popular, de muita dedicação voluntária, criatividade para driblar limitações financeiras, capacidade de se reinventar e de manter viva a chama do ‘brincar’ nas ruas entre diferentes gerações da comunidade”, diz Saulo.


Atualmente, a concentração do Bloco João Duro acontece na Rua Ayres Belo, em Barreiros, Pernambuco.


“O bloco é uma história contada em movimento. Ao desfilar, mantém viva a memória de quem veio antes. A tradição só permanece viva porque se renova com o entusiasmo de cada geração”, conclui Saulo.


Bloco João Duro em 2025. Foto: Arquivo Pessoal
Bloco João Duro em 2025. Foto: Arquivo Pessoal

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