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A roupa que antecede o passo: a costura como guardiã dos caboclos de lança na Zona da Mata Norte de Pernambuco

Ofício ancestral, transmitido entre linhas, bordados e resistência, sustenta a memória do maracatu rural e reafirma a força da cultura popular pernambucana no Carnaval


Caboclo de lança do Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz
Caboclo de lança do Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz

Antes que o baque solto ecoe pelas ruas da Zona da Mata Norte e que os caboclos de lança tomem o chão com passos firmes, lanças erguidas e corpos em movimento, existe um tempo silencioso e fundamental: o da costura. É nesse intervalo, longe dos holofotes do Carnaval, que mãos pacientes e experientes dão forma à tradição, transformando tecidos em identidade, memória e resistência.


Na Zona da Mata Norte de Pernambuco, o Carnaval começa muito antes da folia. Em municípios como Nazaré da Mata, Aliança, Buenos Aires e Tracunhaém, casas e ateliês se tornam verdadeiros territórios de criação, onde a confecção das roupas dos caboclos de lança atravessa meses de trabalho intenso. Cada ponto costurado carrega histórias coletivas e reafirma a continuidade de uma das expressões mais marcantes da cultura popular pernambucana: o maracatu rural.


A figura do caboclo de lança reúne referências indígenas, africanas e europeias, sintetizadas em uma vestimenta exuberante e carregada de significados. A gola bordada com miçangas e lantejoulas, o chapéu coberto por fitas coloridas, a guiada — a lança ornamentada — e o surrão pesado repleto de chocalhos formam um conjunto que vai além da estética. São símbolos de pertencimento, força e ancestralidade.


Entre oficinas, linhas e tradição


Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz
Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz

É nesse território entre criação e memória que atua Josy Estevão, artesã, costureira e atual vice-presidente do Maracatu Rural Cambinda Brasileira. Em entrevista à Manguetown Revista, ela contou que a sua relação com a costura das roupas de caboclo de lança começou em 2010, quando participou de uma oficina voltada à confecção dos trajes tradicionais.


“Aprendi a bordar a roupa do caboclo de lança em uma oficina que participei no ano de 2010”, conta. O aprendizado veio acompanhado da troca com outras mulheres e artesãs da região. “Aprendi com a artesã Maria Lúcia. Durante essa oficina também aprendi a fazer crochê, que é utilizado na roupa do caboclo de lança”.

Desde então, Josy passou a integrar um ciclo contínuo de produção que se renova a cada ano, mantendo viva a tradição por meio do fazer manual. A confecção de uma roupa completa, segundo ela, exige tempo, paciência e dedicação. “Leva em média 30 dias para deixar ela pronta”, explica.


Transformações nos materiais, permanência no saber


Desfile do Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz
Desfile do Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz

Ao longo dos anos, os materiais utilizados na confecção das roupas também passaram por transformações. Se antes predominavam os vidrilhos e os nalhos, hoje outras matérias-primas ganharam espaço.


“Atualmente utilizamos passamaria, lantejoulas, miçangas e linha”, detalha Josy. Apesar das mudanças, o rigor técnico e o cuidado com os detalhes seguem como marcas essenciais do processo.

A atenção minuciosa a cada elemento revela o compromisso com a tradição e com a identidade do maracatu rural. Cada gola bordada, cada detalhe do chapéu e cada ponto do crochê reafirmam um saber que não se aprende apenas em livros, mas na prática cotidiana, na observação e na troca entre gerações.


O invisível que sustenta o espetáculo


Para quem vê o caboclo de lança na rua, a roupa impressiona pelo brilho, pelas cores e pela imponência. Mas, para quem a confecciona, o sentimento vai além da estética.


“O sentimento é de gratidão. Pelo meu trabalho e pela confiança depositada em mim”, diz Josy. “Entregamos um colorido muito lindo, mas por trás daquele colorido existe um trabalho muito árduo e mãos que trabalham incansavelmente para manter a ancestralidade”, explica a artesã.

Esse trabalho, muitas vezes invisibilizado, é essencial para que o maracatu rural continue ocupando as ruas como expressão viva da memória coletiva. Cada roupa carrega não apenas o esforço de quem costura, mas também a história de quem veste e de toda uma comunidade que resiste através da cultura.


Costura, Carnaval e resistência cultural


Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz
Maracatu Rural Cambinda Brasileira - Foto: Aline Mariz

Na visão de Josy, a importância desse ofício ultrapassa o período carnavalesco. “É mostrar um trabalho que fazemos anualmente e mostrar para as pessoas o quanto nossa cultura resiste, mesmo em meio a tantas dificuldades para mantê-la”, afirma.


Além de pilar simbólico, a costura das roupas de caboclo de lança também integra a economia criativa local. Para muitas famílias da Zona da Mata Norte, o período pré-carnavalesco representa uma importante fonte de renda, ainda que temporária, fortalecendo redes comunitárias e garantindo a continuidade do saber artesanal.


Durante o Carnaval, no entanto, o descanso não chega. “Não consigo brincar. Durante o Carnaval ainda tenho o compromisso de acompanhar a nação nos três dias de festa”, conta Josy, evidenciando a dimensão de responsabilidade e pertencimento que envolve o trabalho.


Quando o caboclo de lança finalmente se veste e ocupa as ruas, a roupa deixa de ser apenas tecido, linha e bordado. Ela se transforma em gesto, em memória e em identidade coletiva. Nos bastidores da folia, a costura segue sendo um ato silencioso, mas essencial — guardiã de uma tradição que pulsa, resiste e se renova a cada Carnaval na Zona da Mata Norte de Pernambuco.


108 anos de legado


Grande Encontro de Maracatus das Bringas, em Tracunhaém - Foto: Aline Mariz
Grande Encontro de Maracatus das Bringas, em Tracunhaém - Foto: Aline Mariz

Fundado em 5 de janeiro de 1918, o Maracatu Rural Cambinda Brasileira é reconhecido como a mais antiga agremiação de cultura popular em atividade ininterrupta do Brasil. Aos 108 anos, o grupo mantém viva a energia que abre os caminhos do Carnaval na Zona da Mata Norte de Pernambuco, sendo referência fundamental do maracatu rural — ou de baque solto — no estado. 


Com sede no Engenho Cumbe, na zona rural de Nazaré da Mata, o Cambinda carrega os títulos de Patrimônio Vivo de Pernambuco e Ponto de Cultura do Estado, reunindo cerca de 160 integrantes entre caboclos de lança, mestres e brincantes. Seus personagens, indumentárias exuberantes e versos rimados — conduzidos pelo mestre e contra-mestres — articulam ancestralidade afro-indígena, crítica social e celebração, reafirmando o maracatu como um dos pilares da identidade cultural pernambucana.


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