A roupa que antecede o passo: a costura como guardiã dos caboclos de lança na Zona da Mata Norte de Pernambuco
- Manguetown Revista

- há 3 dias
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Ofício ancestral, transmitido entre linhas, bordados e resistência, sustenta a memória do maracatu rural e reafirma a força da cultura popular pernambucana no Carnaval

Antes que o baque solto ecoe pelas ruas da Zona da Mata Norte e que os caboclos de lança tomem o chão com passos firmes, lanças erguidas e corpos em movimento, existe um tempo silencioso e fundamental: o da costura. É nesse intervalo, longe dos holofotes do Carnaval, que mãos pacientes e experientes dão forma à tradição, transformando tecidos em identidade, memória e resistência.
Na Zona da Mata Norte de Pernambuco, o Carnaval começa muito antes da folia. Em municípios como Nazaré da Mata, Aliança, Buenos Aires e Tracunhaém, casas e ateliês se tornam verdadeiros territórios de criação, onde a confecção das roupas dos caboclos de lança atravessa meses de trabalho intenso. Cada ponto costurado carrega histórias coletivas e reafirma a continuidade de uma das expressões mais marcantes da cultura popular pernambucana: o maracatu rural.
A figura do caboclo de lança reúne referências indígenas, africanas e europeias, sintetizadas em uma vestimenta exuberante e carregada de significados. A gola bordada com miçangas e lantejoulas, o chapéu coberto por fitas coloridas, a guiada — a lança ornamentada — e o surrão pesado repleto de chocalhos formam um conjunto que vai além da estética. São símbolos de pertencimento, força e ancestralidade.
Entre oficinas, linhas e tradição

É nesse território entre criação e memória que atua Josy Estevão, artesã, costureira e atual vice-presidente do Maracatu Rural Cambinda Brasileira. Em entrevista à Manguetown Revista, ela contou que a sua relação com a costura das roupas de caboclo de lança começou em 2010, quando participou de uma oficina voltada à confecção dos trajes tradicionais.
“Aprendi a bordar a roupa do caboclo de lança em uma oficina que participei no ano de 2010”, conta. O aprendizado veio acompanhado da troca com outras mulheres e artesãs da região. “Aprendi com a artesã Maria Lúcia. Durante essa oficina também aprendi a fazer crochê, que é utilizado na roupa do caboclo de lança”.
Desde então, Josy passou a integrar um ciclo contínuo de produção que se renova a cada ano, mantendo viva a tradição por meio do fazer manual. A confecção de uma roupa completa, segundo ela, exige tempo, paciência e dedicação. “Leva em média 30 dias para deixar ela pronta”, explica.
Transformações nos materiais, permanência no saber

Ao longo dos anos, os materiais utilizados na confecção das roupas também passaram por transformações. Se antes predominavam os vidrilhos e os nalhos, hoje outras matérias-primas ganharam espaço.
“Atualmente utilizamos passamaria, lantejoulas, miçangas e linha”, detalha Josy. Apesar das mudanças, o rigor técnico e o cuidado com os detalhes seguem como marcas essenciais do processo.
A atenção minuciosa a cada elemento revela o compromisso com a tradição e com a identidade do maracatu rural. Cada gola bordada, cada detalhe do chapéu e cada ponto do crochê reafirmam um saber que não se aprende apenas em livros, mas na prática cotidiana, na observação e na troca entre gerações.
O invisível que sustenta o espetáculo
Para quem vê o caboclo de lança na rua, a roupa impressiona pelo brilho, pelas cores e pela imponência. Mas, para quem a confecciona, o sentimento vai além da estética.
“O sentimento é de gratidão. Pelo meu trabalho e pela confiança depositada em mim”, diz Josy. “Entregamos um colorido muito lindo, mas por trás daquele colorido existe um trabalho muito árduo e mãos que trabalham incansavelmente para manter a ancestralidade”, explica a artesã.
Esse trabalho, muitas vezes invisibilizado, é essencial para que o maracatu rural continue ocupando as ruas como expressão viva da memória coletiva. Cada roupa carrega não apenas o esforço de quem costura, mas também a história de quem veste e de toda uma comunidade que resiste através da cultura.
Costura, Carnaval e resistência cultural

Na visão de Josy, a importância desse ofício ultrapassa o período carnavalesco. “É mostrar um trabalho que fazemos anualmente e mostrar para as pessoas o quanto nossa cultura resiste, mesmo em meio a tantas dificuldades para mantê-la”, afirma.
Além de pilar simbólico, a costura das roupas de caboclo de lança também integra a economia criativa local. Para muitas famílias da Zona da Mata Norte, o período pré-carnavalesco representa uma importante fonte de renda, ainda que temporária, fortalecendo redes comunitárias e garantindo a continuidade do saber artesanal.
Durante o Carnaval, no entanto, o descanso não chega. “Não consigo brincar. Durante o Carnaval ainda tenho o compromisso de acompanhar a nação nos três dias de festa”, conta Josy, evidenciando a dimensão de responsabilidade e pertencimento que envolve o trabalho.
Quando o caboclo de lança finalmente se veste e ocupa as ruas, a roupa deixa de ser apenas tecido, linha e bordado. Ela se transforma em gesto, em memória e em identidade coletiva. Nos bastidores da folia, a costura segue sendo um ato silencioso, mas essencial — guardiã de uma tradição que pulsa, resiste e se renova a cada Carnaval na Zona da Mata Norte de Pernambuco.
108 anos de legado

Fundado em 5 de janeiro de 1918, o Maracatu Rural Cambinda Brasileira é reconhecido como a mais antiga agremiação de cultura popular em atividade ininterrupta do Brasil. Aos 108 anos, o grupo mantém viva a energia que abre os caminhos do Carnaval na Zona da Mata Norte de Pernambuco, sendo referência fundamental do maracatu rural — ou de baque solto — no estado.
Com sede no Engenho Cumbe, na zona rural de Nazaré da Mata, o Cambinda carrega os títulos de Patrimônio Vivo de Pernambuco e Ponto de Cultura do Estado, reunindo cerca de 160 integrantes entre caboclos de lança, mestres e brincantes. Seus personagens, indumentárias exuberantes e versos rimados — conduzidos pelo mestre e contra-mestres — articulam ancestralidade afro-indígena, crítica social e celebração, reafirmando o maracatu como um dos pilares da identidade cultural pernambucana.



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