O Carnaval é aqui: no Jucá Ferrado, em Surubim, tradições da comunidade atravessam décadas
- Manguetown Revista

- há 6 horas
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Com quase 70 anos de história, festa na comunidade se sustenta na memória, no futebol e na organização comunitária

No último domingo que precede os dias de carnaval, o azul do céu foi substituído pela cor cinza e pelo anúncio de novas chuvas sobre a cidade de Surubim, no Agreste pernambucano. As águas, por enquanto, deram uma trégua. Elas parecem prever a necessidade de abrir o caminho para o deslocamento dos três homens que se reúnem para a reportagem na sede do Clube do time do Cruzeiro, do distrito do Jucá Ferrado, na Zona Rural do município. Davino Fernandes, de 81 anos, Josildo Nascimento, de 58, e Natanael Francisco, ou Naé, cujos 89 anos de idade já lhe fogem da memória, estampam nas camisas que vestem o azul e branco ausentes no céu. Essas são as cores do Cruzeiro do Jucá, um dos símbolos da tradição que pulsa na comunidade. Por conta do clima, do lado de fora da sede do time, as ruas permanecem vazias. Dali a poucos dias, no entanto, faça chuva ou faça sol, a folia tomará conta do lugar. Afinal, como diz Davino, um dos precursores da festa nesse canto agrestino, “O carnaval de Surubim é no Jucá Ferrado”.
Iniciado em 1957 por alguns moradores do distrito, incluindo Davino, a festividade começou ainda em um tempo em que a eletricidade era quase um mito na cidade. Sob a luz de um lampião, amigos se reuniam com cavaquinho, violão, sanfona e pandeiros feitos com latas de doce para fazer o próprio carnaval. O frevo dominava o palco improvisado, e Davino conta que ainda se lembra das canções que ecoavam naqueles fevereiros. “Tô com 81 anos, mas o que é bom tá guardado”, diz apontando para a cabeça. “Não me esqueço não, só esqueço quando eu morrer”.
Com quase sete décadas de tradição, a festa, desde então, foi se expandindo e atraindo não só os foliões de dentro da comunidade, como também pessoas vindas de outras cidades da região, como Santa Maria do Cambucá, Vertente do Lério e Casinhas. “Aqui fica um desmantelo de gente”, conta Josildo, que, desde que nasceu, testemunha a lógica comunitária da folia. “É como se fosse uma confraternização”, diz.

O início das brincadeiras no Jucá acontece no mistério que toma conta da festa. Após a sexta-feira dedicada à programação infantil – que neste ano conta com a presença do Bloco Gente Miúda –, no sábado de Zé Pereira, a partir das 20h, uma figura mascarada e vestida com roupas largas sai da casa de Naé para fazer o percurso anual entre as ruas do Jucá. Montado em um carro e acompanhado por uma versão mirim, o personagem completa a performance quando chega no campo do Cruzeiro, em frente da sede do time. Lá, os foliões devem adivinhar a identidade do indivíduo, escolhido pela diretoria do clube poucos dias antes desse momento. Quem acerta o palpite, garante prêmios como dinheiro ou bebida, mas essa missão, como pontuam os entrevistados, não é fácil. “Se você botar uma cabeça dessa, eu quero saber quem é que sabe quem você é”, observa Davino. “Eu nunca acertei”, completa Josildo.

Na sequência do Carnaval, destaca-se o Bloco Bucho de Cana, responsável por manter a festa em movimento e espalhá-la para além do entorno imediato do campo no restante dos dias. O bloco percorre ruas e travessas do distrito, visitando a casa dos moradores, que oferecem bebidas e comidas para a multidão. “No Bucho de cana todo mundo entra nas casas. Um dá um litro de cana, um dá uma galinha. Toda casa come, toda casa bebe, e vão simbora de casa em casa”, diz Davino. Ao longo dos anos, o bloco consolidou-se como um dos momentos mais aguardados da programação, justamente por transformar o deslocamento coletivo em celebração e evidenciar a rua como espaço central do Carnaval.
Outros blocos e grupos musicais integram a folia e ampliam a diversidade da festa sem descaracterizá-la. Na terça-feira, último dia, essa missão também fica por conta do Bloco das Virgens. Saudoso dos carnavais passados, Davino lembra do sentimento que toma conta do encerramento: “Quando era no derradeiro dia, umas duas horas da manhã para três, já tinha gente que começava a chorar. Agora me diga por quê? Porque o carnaval estava terminando”.
Entre o campo e o frevo: onde futebol e blocos se encontram
Desde o início, o Cruzeiro do Jucá Ferrado esteve no centro dessa história. Fundado em 11 de janeiro de 1911, o clube antecede em décadas o próprio Carnaval e sempre funcionou como mais do que uma agremiação esportiva. Antes de adotar o nome atual, passou por outras denominações acompanhando transformações administrativas e sociais do distrito, mas manteve intacta sua função de ser espaço de encontro. O campo de futebol e a sede do clube tornaram-se, ao longo do tempo, lugar de reuniões, decisões comunitárias, festas, assembleias e celebrações que extrapolavam o universo esportivo.

A alguns metros dali, um pé de jucá, responsável pelo nome da comunidade, acumula nas folhas a água da chuva que o banhou mais cedo. Nem Naé, nem Davino, nem Josildo, que agora se encontram debaixo da copa extensa, viram a árvore com tamanho maior ou menor. Ela, por sua vez, é testemunha do crescimento das tradições ali presentes, que mesmo com a ampliação estrutural, permanecem ancoradas na participação popular: costureiras locais que confeccionam fantasias, moradores que cedem casas para a passagem dos blocos, famílias inteiras que se envolvem na logística e na organização. O Carnaval pode ter crescido em público e estrutura, mas continua sustentado pela mesma base que o originou: a força coletiva do Jucá Ferrado.




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