Entre promessas e portas fechadas: Cine Olinda chega ao terceiro ano de acompanhamento da Manguetown Revista sem previsão de reabertura na gestão Mirella Almeida
Prefeitura anuncia avanço em projetos, mas não apresenta orçamento da obra; Manguetown não localiza contratação no TCE-PE e Fundarpe nega parceria com o município
Há espaços que ultrapassam sua função arquitetônica e se tornam parte da memória coletiva de uma cidade. Lugares onde gerações se encontraram, descobriram histórias e construíram relações com a cultura. Em Olinda, o Cine Olinda representa essa dimensão. O equipamento integra a história cultural do município e permanece como símbolo de uma reivindicação que atravessa gerações: a recuperação de um patrimônio histórico e sua devolução à população. Enquanto as portas continuam fechadas, o futuro do cinema segue condicionado a projetos, articulações institucionais e promessas de recuperação que ainda não se transformaram em uma obra.

Pela terceira vez, a Manguetown Revista retorna ao tema para acompanhar os desdobramentos da situação do equipamento. Desde 2024, a revista documenta o abandono do imóvel, as cobranças da sociedade civil e as respostas do poder público sobre a possibilidade de reabertura. Ao longo desse período, a recuperação do Cine Olinda passou por diferentes anúncios e perspectivas, mas ainda não chegou à etapa de execução. Agora, sob a gestão da prefeita Mirella Almeida, iniciada em janeiro de 2025, a atualização das informações revela que o processo avançou na elaboração dos projetos técnicos, mas continua sem orçamento definitivo, recursos assegurados ou previsão para o início das obras.
A situação atual foi apresentada pela Prefeitura de Olinda em resposta aos questionamentos enviados pela reportagem. Segundo a administração municipal, a empresa GTX Engenharia Ltda. foi contratada para elaborar os projetos complementares necessários à recuperação do prédio. A gestão informou que, em setembro de 2026, a empresa realizou a entrega da primeira etapa do material, atualmente em análise pela equipe técnica da Secretaria Executiva de Patrimônio.
Apesar da informação sobre a contratação, a Manguetown Revista realizou um levantamento no Portal Tome Conta, do Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE), consultando os registros de licitações e contratos da Prefeitura de Olinda. Durante a apuração, a reportagem não localizou o nome da GTX Engenharia Ltda. nem o respectivo registro da contratação nas consultas realizadas. A ausência de localização no sistema levanta questionamentos sobre a publicidade do procedimento e a documentação da contratação, especialmente diante da informação de que a empresa já teria realizado uma entrega técnica à administração municipal.
A Prefeitura foi questionada sobre a identificação da empresa, o valor contratado e os dados do procedimento, mas a resposta encaminhada à reportagem não apresentou o número do processo administrativo, o valor do contrato, o CNPJ da contratada ou outros elementos que permitissem identificar documentalmente a contratação. Também não foram informados os valores eventualmente pagos à empresa. A ausência desses dados impede, neste momento, que a reportagem confronte o anúncio da contratação com os respectivos registros financeiros e administrativos disponíveis para consulta pública.
Outro ponto ainda sem definição é o custo da recuperação completa do cinema. Questionada sobre o valor estimado da intervenção e a origem dos recursos, a Prefeitura afirmou que o orçamento definitivo somente poderá ser consolidado após a conclusão e validação dos projetos complementares. A administração municipal argumenta que a compatibilização das propostas técnicas e a elaboração dos respectivos orçamentos são necessárias para estruturar a execução da obra e identificar as fontes de financiamento.
A resposta também indica que a gestão pretende buscar recursos estaduais e federais para viabilizar a recuperação do equipamento. Entretanto, não foram apresentados valores captados, instrumentos de repasse, convênios ou compromissos financeiros formalizados. Na prática, a etapa de captação ainda depende da conclusão dos projetos e da definição dos custos necessários à intervenção.
A participação do Governo de Pernambuco
Um dos principais pontos da apuração está na participação do Governo de Pernambuco. Na resposta encaminhada à Manguetown, a Prefeitura informou que a Fundarpe já havia sinalizado interesse em contribuir com a recuperação do Cine Olinda, mas aguardava a conclusão dos projetos complementares para avançar nas tratativas. Diante dessa informação, a reportagem procurou a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco para esclarecer quais compromissos haviam sido estabelecidos e de que maneira o Estado poderia participar da obra.
O posicionamento apresentado pela Fundarpe, no entanto, foi diferente da sinalização descrita pela administração municipal. Em nota, a Fundação esclareceu que o Cine Olinda é um espaço gerido pela Prefeitura e afirmou que, no momento, não existe projeto conjunto entre o Governo de Pernambuco e a gestão municipal voltado à realização de intervenções no imóvel.

A manifestação estadual não confirma a existência de uma parceria institucional para a recuperação do equipamento. Embora a Fundarpe tenha demonstrado, em sua resposta, que o Governo de Pernambuco mantém investimentos em outros espaços culturais e audiovisuais, não anunciou previsão de recursos ou participação técnica específica para o Cine Olinda.
Entre as iniciativas citadas está a requalificação do Cine Theatro Guarany, em Triunfo, que recebeu investimentos de aproximadamente R$ 1,5 milhão. As intervenções incluíram a instalação de projetor 4K, tela retrátil, sistema de som 5.1 e melhorias de acessibilidade. Em janeiro de 2026, o equipamento retomou sua programação semanal de cinema.
Apesar dos investimentos apresentados, a resposta da Fundação não estabelece qualquer previsão de destinação de recursos estaduais para o Cine Olinda. A recuperação do equipamento, portanto, permanece sob responsabilidade da administração municipal, sem parceria estadual formalizada até o momento.
Sem prazo para as obras e para a reabertura
Além da indefinição financeira, o cronograma de recuperação continua sem datas estabelecidas. A Prefeitura informou que não é possível determinar quando as obras começarão ou quando o cinema poderá voltar a receber o público. Segundo a administração, o andamento depende da conclusão e aprovação dos projetos complementares, incluindo a avaliação do Conselho de Preservação do Patrimônio, da consolidação do orçamento, da definição das fontes de financiamento e da contratação da empresa responsável pela execução da obra.
A gestão afirma que as intervenções deverão respeitar as características históricas e patrimoniais do imóvel, conciliando a preservação arquitetônica com as condições necessárias ao funcionamento contemporâneo do equipamento. Os projetos devem contemplar soluções relacionadas à infraestrutura, segurança, acessibilidade e adequação das instalações. Entretanto, como o conjunto de documentos ainda não foi concluído, não há detalhamento definitivo das intervenções nem previsão para a execução.
Sobre as condições atuais do prédio, a Prefeitura informou que o imóvel recebe acompanhamento da equipe da Secretaria Executiva de Patrimônio, com visitas e serviços de limpeza realizados pela equipe da Sepactur. As avaliações e os levantamentos técnicos, segundo a administração, integram o processo de elaboração dos projetos de recuperação. A resposta, contudo, não apresentou um diagnóstico estrutural atualizado que permitisse dimensionar as condições atuais do edifício.

Também permanece indefinido o modelo de funcionamento do cinema após uma eventual recuperação. A Prefeitura afirma que pretende preservar o Cine Olinda como equipamento cultural de interesse público, mantendo sua vocação histórica e sua relação com o setor audiovisual. O formato de gestão, as atividades que serão oferecidas e as condições de manutenção do espaço, porém, ainda serão discutidos ao longo do processo.
Questionada sobre a participação da sociedade civil, a administração municipal afirmou manter diálogo aberto com os diferentes setores culturais, incluindo o audiovisual. Sobre as propostas apresentadas por movimentos e agentes culturais, acrescentou que as manifestações recebidas pela Prefeitura dizem respeito ao uso externo do equipamento. A resposta não detalha quais grupos foram ouvidos, quais propostas foram formalmente recebidas ou se existe algum processo de participação social voltado à construção do futuro modelo de gestão.
Três anos de acompanhamento e uma cobrança que permanece
A continuidade da cobertura do Cine Olinda pela Manguetown Revista acompanha uma reivindicação que não se limita à recuperação física de um prédio. A reabertura do equipamento envolve também o direito da população ao acesso à cultura, a preservação da memória cinematográfica da cidade e a existência de espaços públicos destinados à circulação e à difusão do audiovisual pernambucano.
Desde a primeira reportagem, em 2024, a revista acompanha as respostas institucionais e as mobilizações em defesa do cinema. Em 2025, a pauta voltou a ser atualizada diante das tratativas anunciadas pela Prefeitura para a contratação dos projetos necessários à recuperação. Agora, em 2026, a nova apuração mostra que a elaboração técnica avançou com a entrega de uma primeira etapa, mas ainda não há elementos suficientes para estabelecer quando a intervenção efetivamente sairá do papel.
A contratação anunciada, cuja documentação não foi localizada pela reportagem no Portal Tome Conta, a ausência de orçamento definitivo e a inexistência de um projeto conjunto com o Governo de Pernambuco são questões que permanecem sem esclarecimento completo. São etapas diferentes de um mesmo processo, mas que precisam estar articuladas para que a recuperação deixe de ser uma perspectiva administrativa e se transforme em uma política concreta de preservação e acesso cultural.
Enquanto os projetos passam por análise e as possibilidades de financiamento continuam em discussão, o Cine Olinda permanece fechado. A cidade segue sem uma previsão para recuperar um de seus espaços históricos de exibição cinematográfica. Três anos depois da primeira reportagem da Manguetown sobre o tema, a pergunta continua aberta: quando o Cine Olinda deixará de ser lembrado apenas pelas histórias que guarda e voltará a fazer parte da vida cultural de Olinda?
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