Ouvir, escrever, atravessar: a mesa sobre jornalismo literário encerra o 1º Festival de Jornalismo da Manguetown Revista
Na última conversa do dia, Márcio Bastos e Jadeanny Arruda falaram sobre sensibilidade, memória e o que o jornalismo literário exige de quem o pratica

Encerrando um sábado inteiro de formação, debates e trocas sobre comunicação independente em Pernambuco, a quinta e última mesa do 1º Festival de Jornalismo da Manguetown Revista levou ao COMPAZ Ariano Suassuna o tema "Entre fatos e histórias: os caminhos do jornalismo literário pernambucano". O encontro aconteceu logo após a apresentação da campanha "Jovens fazem política, visse?", de Yane Mendes, completando o arco de discussões que mobilizou comunicadores e estudantes de todos os lugares do estado ao longo do dia.
A mesa foi conduzida por Guilherme dos Santos, editor de literatura da Manguetown e coordenador de comunicação do IP.rec, e reuniu dois convidados com trajetórias riquíssimas e com convicções comuns sobre o que faz um texto valer além do momento em que é publicado. Márcio Bastos é jornalista e mestre em Comunicação pela UFPE, com passagens por Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco, O Estado de S. Paulo e Revista Continente. Em 2023, lançou pela Cepe Editora "Pernalonga: uma sinfonia inacabada", biografia do ator, dançarino e ativista Roberto de França, figura central do grupo Vivencial e da cena LGBTQIA+ do Recife. Em 2026, lançou "Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do vivencial". Jadeanny Arruda é doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, mestre pela UFRN, e tem experiência em jornalismo impresso, assessoria e produção de conteúdo.
A escuta que o jornalismo perdeu

Logo na abertura, Guilherme dos Santos provocou a mesa sobre como preservar a sensibilidade diante do outro e quais mecanismos os repórteres podem adotar para manter o cuidado com as fontes durante a apuração. como se mantém sensibilidade num trabalho que, no cotidiano das redações, empurra para o rápido, o curto, o factual? Jadeanny Arruda entrou fundo na pergunta.
"No jornalismo e na vida, a gente precisa ter sensibilidade. E isso hoje é difícil, porque a gente não tem mais paciência com o tempo das coisas", refletiu a pesquisadora. Para Jadeanny, a aceleração do jornalismo contemporâneo não corroeu apenas o tempo, corroeu o compromisso com a escuta. A entrevista pelo WhatsApp, o áudio no lugar da conversa presencial, o vídeo assistido em velocidade dupla. O jornalista foi sendo treinado, aos poucos, a não ouvir de verdade.
"É necessário entender o tempo das coisas e o tempo da escuta. Porque a escuta é aquilo que vai te dar a base para o texto, é o sentimento para escrever. Você não vai escrever sobre o outro se não tiver o cuidado de ouvir o que ele está dizendo", explicou. Para Jadeanny, a profissão é essencialmente um trabalho artesanal: "Muitas vezes você passa três horas conversando com uma fonte e quase nada daquilo entra no texto final. Mas todo aquele processo constrói a relação e a compreensão sobre quem é aquele sujeito".
A pesquisadora também desconstruiu a ideia de neutralidade absoluta e ressaltou que a escolha de personagens e temas é um ato intrinsecamente político. "Eu nem gosto dessa expressão 'dar voz', porque todo mundo já tem sua própria voz. A questão é saber se a sociedade e a imprensa querem ouvir", cravou. Citando exemplos que vão de matérias televisivas populares, como as reportagens de rua de Bianca Carvalho no cotidiano pernambucano, até publicações de fôlego como a Revista Piauí, Jadeanny destacou que a empatia e a conexão humana criam o ambiente necessário para a profundidade: "A empatia é você compreender a dor e o contexto do outro sem necessariamente estar vivendo aquele lugar".
A apuração nas frestas e os labirintos da memória

Márcio Bastos chegou ao jornalismo literário pela prática, antes de nomear o gênero. Anos cobrindo teatro e cultura nas redações pernambucanas foram acumulando uma percepção de que a melhor cobertura raramente cabia no formato da notícia. A experiência de escrever "Pernalonga" sedimentou isso.
A pesquisa para o livro o levou a ouvir dezenas de pessoas, rastrear documentos, cruzar versões contraditórias sobre a vida de um homem que já havia se tornado lenda antes de morrer. Um dos desafios foi lidar com fontes cujas memórias eram fragmentadas, e decidir o que fazer com esses fragmentos. O desafio não era checar cada dado até a certeza absoluta. Era encontrar uma forma de trazer aquela memória ao leitor sem distorcê-la nem abandoná-la.
"As pessoas querem falar. A segunda pergunta já vai perguntando sobre ela, todo mundo quer contar uma história. E aí você tem que dar um tempo para as pessoas também falarem sobre coisas que não vão dar no seu texto, no seu livro. Mas fazem parte do processo.", explicou.
O autor contou que, durante a apuração de "Pernalonga", chegou a rastrear uma fonte até o Japão. A conexão que se formou a partir daí abriu portas que nenhum levantamento documental teria aberto. O jornalismo literário, para ele, opera muito nesse território: o da confiança construída ao longo do tempo, dos vínculos imprevistos que a pesquisa cria.
A busca da própria voz e o encerramento do festival

Na rodada de perguntas da plateia, a conversa conectou teoria e prática quando a estudante de Jornalismo Maria Eduarda trouxe os desafios do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Ela compartilhou a intenção de produzir um podcast narrativo na esteira de referências como o Rádio Novelo Apresenta, mas manifestou o receio de não conseguir entregar um formato com esse nível de acabamento sonoro e profundidade dentro dos prazos acadêmicos.
Tanto Márcio quanto Jadeanny responderam encorajando a estudante a não se prender a fórmulas rígidas ou ao peso de tentar reproduzir grandes produções logo de cara. A mesa pontuou que o processo do jornalismo narrativo em áudio é profundamente individual e exige, antes de tudo, encontrar a própria voz e a curiosidade genuína pelo tema escolhido. A orientação foi de que ela confiasse na força da história que quer contar e no seu próprio ritmo de investigação, permitindo que a pesquisa ganhe contorno autoral sem se deixar paralisar pela ansiedade das comparações.
Para marcar a despedida, Márcio Bastos realizou o sorteio de um exemplar de seu livro, “Pernalonga: uma sinfonia inacabada”, entre os participantes da plateia.
O momento fechou oficialmente as atividades do 1º Festival de Jornalismo da Manguetown Revista no COMPAZ Ariano Suassuna. O festival terminou como começou, apostando que jornalismo se faz com escuta, e que escuta se faz com tempo, presença e comprometimento com o outro. Ao longo do dia, mesas diferentes chegaram ao mesmo lugar por caminhos distintos, a música que não é registrada some, a periferia que não é ouvida some, o mestre que não é pautado some. O jornalismo literário, nesse contexto, é uma forma de resistir ao apagamento.
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista pelas lentes de Antônia Di Guimarães
Texto escrito por Thales Martins, repórter da Manguetown Revista.
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