"Vai ter que pesquisar o que é gerar, vai ter que pesquisar o que é visse": Yane Mendes leva a campanha "Jovens fazem política" ao 1º Festival de Jornalismo da Manguetown Revista
Após oficina de Fotojornalismo, cofundadora da Rede Tumulto ocupou o espaço para defender a linguagem da periferia, a cobrança contínua ao poder público e a comunicação como ferramenta de sobrevivência e legado.

Yane Mendes entrou na sala do COMPAZ Ariano Suassuna no último sábado (26) com uma certeza que ela mesma enuncia sem rodeios: "Eu tenho essa vontade de falar para o mundo um pouco mais na linguagem da gente." E foi exatamente isso que ela fez.
Cineasta periférica, fotógrafa e educadora social com 15 anos de atuação em comunicação comunitária, Yane é fundadora e coordenadora da Rede Tumulto e coordena a Coalizão Nacional de Mídias Faveladas, Periféricas, Quilombolas e Indígenas. Nascida e criada na favela do Totó, hoje mora em Brasília Teimosa, mas faz questão de dizer que o Totó nunca saiu dela. "Eu sou da favela do Totó. Sempre vou ser, porque é o território que compreende essa pessoa que tá aqui."
Ela foi ao festival para apresentar a campanha "Jovens fazem política, visse?", realizada pela Rede Tumulto em parceria com o Instituto Lamparina. Com as eleições de 2026 se aproximando, a campanha percorre territórios periféricos do Recife para falar sobre voto, participação política e direitos, não como pauta eleitoral de ocasião, mas como extensão do que a Rede já faz desde o começo.
Uma linguagem que não pede licença

O "visse" no nome da campanha não é detalhe. É posição. Para ela, a linguagem é o primeiro território de disputa política.
"A gente deixou o visse porque é a nossa maneira de falar. O Nordeste muitas vezes é visto como aquele lugar que complementa e salva as eleições. Mas a gente salva o nosso povo todo dia, não só nas eleições."
A cineasta explicou que o nome carrega uma inversão deliberada, em espaços institucionais (COPs, G20, plenários), ela frequentemente se vê diante de uma linguagem que não inclui.
"Eu não entendo o que eles falam. Então vai ter que pesquisar o que é ‘gerar’, vai ter que pesquisar o que é ‘visse’. Vai ter que se dar o trabalho que a gente se dá quando a maioria faz questão de usar palavras inacessíveis para a gente se sentir fora do lugar."
A campanha já havia ocupado o Afropunk Experience Recife e, na véspera do festival, levou a Praia do Buraco da Véia, em Brasília Teimosa, uma ação com juventudes de mais de nove favelas para debater segurança pública e voto jovem, em parceria com o Fogo Cruzado. Yane chegou ao COMPAZ direto dessa ação, ainda processando o que havia vivido na praia. "Vocês acham que eu tô tranquila aqui, de boa para ir dormir? Não. É a praia que eu vou lá curtir também. E as pessoas já estavam sendo ameaçadas hoje à noite."
"A gente não espera ano de eleição para cobrar"

Um dos pontos centrais da fala de Yane foi a crítica à política que só aparece quando chegam as eleições. Para ela e para a Rede Tumulto, a disputa pelo voto jovem periférico não começa em outubro, ela é contínua.
"A gente não espera ser ano eleitoral para falar sobre voto. A gente não espera ser ano eleitoral para ir dentro de uma audiência pública. A gente não espera ser ano eleitoral para chamar um parlamentar e dizer: a gente não quer só homenagem, não. Eu quero construção."
Ela também confrontou a narrativa de que a periferia vota de forma desinformada ou manipulada. Para Yane, há muita gente da favela querendo pesquisar, querendo entender, querendo fazer escolhas com consciência. "Tem muita gente da periferia querendo saber em quem vai votar, interessada. Então que os candidatos falem também com eles."
A campanha, segundo ela, precisou ser reescrita várias vezes, não por falta de clareza, mas por excesso de risco. "A gente teve que modificar uma, duas, três, quatro vezes. Porque não é uma frase que saiu do nada. É uma frase que veio no corpo de quatro mulheres negras."
O cinema da urgência e a medida do legado

Além de comunicadora, Yane Mendes é documentarista e refletiu sobre como o audiovisual funciona como canal de vazão para as dores e lutas que não cabem no cotidiano. "Nem sempre a gente vai falar por vídeo-denúncia. Eu gosto de fazer meus filmes para dar o grito que não consigo dar na hora, porque se eu gritar ali, ninguém vai ouvir. No filme, a mensagem entra."
Mas a comunicação, para ela, também tem um custo que precisa ser nomeado. A Rede Tumulto não tem sede. Funciona no calor, sem estrutura fixa, com mulheres negras que trabalham sem salário e fazem o que fazem por convicção.
Para ela, o legado não se mede em visualizações. "Legado não está na quantidade de pessoas que assistem ao seu vídeo ou leem o seu texto. Está em quem você chegou. Você leu seu texto para alguém? Eu tenho vários seguidores que nem Instagram têm. São as pessoas da minha rua que estão comigo e não me abandonam. Lá na favela, o cancelamento da internet não assusta, porque existem coisas reais que nos preocupam muito mais."
"Não fiquem tristes se ninguém vai ler o texto. Tem que sair daqui com contato com o outro."
Ao se despedir, Yane convocou os participantes a se reconhecerem como profissionais de valor e a exigirem respeito do mercado e dos gestores públicos. "Que a gente seja o primeiro investidor da nossa própria vida. Tem muita gente que não sabe fazer e ganha rios de dinheiro. Nós somos mestres no que fazemos", finalizou, celebrando a parceria com veículos como a Manguetown Revista na construção de uma comunicação feita por quem vive a realidade do chão da cidade.
A campanha "Jovens fazem política, visse?" segue até as eleições de 2026. Mais informações e atualizações no Instagram da Rede Tumulto: @redetumulto.
Fique atento: o que você precisa saber para o dia da votação
Como parte das ações formativas da campanha "Jovens fazem política, visse?", a Rede Tumulto e o Instituto Lamparina reforçam duas orientações práticas e decisivas para os eleitores neste pleito:
Dois votos distintos para o Senado: Neste ano, a renovação das cadeiras do Senado exige a escolha de dois parlamentares diferentes. É fundamental ter os dois números anotados em mãos, já que votar duas vezes no mesmo candidato faz com que o segundo voto seja considerado nulo.
Prazo para o e-Título e documentos aceitos: Quem pretende utilizar o aplicativo digital da Justiça Eleitoral precisa baixar e validar o e-Título até as 23h59 do dia 3 de outubro (sábado), véspera da eleição, horário em que a emissão digital fica temporariamente suspensa pelo sistema. Para quem não for usar o aplicativo, basta apresentar qualquer documento oficial de identificação físico com foto (como RG, carteira de trabalho impressa ou CNH) no momento de votar.
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista pelas lentes de Antônia Di Guimarães
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista pelas lentes de Gabriely Calado
Texto escrito por Thales Martins, repórter da Manguetown Revista.
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