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"Se o jornalismo que a gente faz não serve para reparação, serve para quê?": mesa do 1º Festival de Jornalismo Manguetown debate os desafios de cobrir a cena musical pernambucana

há 19 horas
5 min de leitura

Entre o algoritmo que não entrega, os mestres que morrem sem participarem de festivais e o corpo que pede limite, comunicadoras debatem o que significa fazer jornalismo cultural independente em Pernambuco


Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Gabriely Calado/ Manguetown Revista
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Gabriely Calado/ Manguetown Revista


A segunda mesa do 1º Festival de Jornalismo da Manguetown Revista trouxe um debate que misturou análise da cena, desabafo coletivo e provocação política em torno do tema "Escutar e analisar: desafios de cobrir a cena musical pernambucana". Com mediação de Manu Gomes, editor de teatro da Manguetown e pesquisador de música e cultura, o encontro reuniu três jornalistas que trabalham com música sob perspectivas diferentes, mas compartilham o mesmo diagnóstico: Pernambuco tem uma das cenas mais ricas do país e, ainda assim, é subvalorizada pela própria imprensa.


Participaram da conversa Camila Estephania, editora de cultura do Diario de Pernambuco e pesquisadora com mestrado em Comunicação pela UFF, cuja dissertação analisa o protagonismo das mulheres no brega funk; Mikhaela Araújo, jornalista, editora de conteúdo no Mapa dos Festivais e cofundadora da TAG Revista; e Lenne Ferreira, fundadora e editora do Portal Afoitas, curadora do festival No Ar Coquetel Molotov há três anos e idealizadora dos festivais Ajodun e Cores&Rimas. 


A contradição do bairrismo e o esquecimento das bases


Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Gabriely Calado/ Manguetown Revista
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Gabriely Calado/ Manguetown Revista

Um dos primeiros pontos levantados na mesa foi a contradição entre o orgulho que os pernambucanos afirmam ter da própria cultura e o que acontece na prática, especialmente nos grandes festivais. Para Lenne Ferreira, o bairrismo existe no discurso, mas falha quando o assunto é colocar artistas locais em posições de destaque.

 

"Eu acho que a gente ainda é muito pouco bairrista", pontuou Lenne. "Se a gente fosse bairrista de verdade, não aceitaria ver festivais de grande porte colocando artistas locais apenas como participação especial em outro show, em vez de ocupar o palco principal com quarenta minutos de apresentação solo." 

A editora do Portal Afoitas destacou que manifestações como o frevo e o coco sofrem com uma atenção puramente sazonal, mestres e orquestras ganham os holofotes em fevereiro, mas enfrentam o esquecimento no restante do ano. "Eu dirijo ouvindo frevo instrumental, é a coisa mais linda do mundo. Mas quem escuta fora do Carnaval?", questionou, lembrando que a ausência de um circuito permanente empurra grandes nomes para fora do estado.


"A gente exporta tanta coisa e muitos dos nossos vão embora. Como é que uma artista como a Siba tem que morar em São Paulo porque aqui não toca?", completou.

Na sequência, Mikhaela Araújo apontou que o problema não é apenas de cobertura, mas de enquadramento. Gêneros que sempre foram populares acabam presos no imaginário de "regional", tratados como folclore e não como música viva.

 

Essa questão foi reiterada na fala da estudante de jornalismo Marília, de Petrolina, que lembrou como esse apagamento se repete no interior, onde expressões centenárias como o Samba de Véio, da Ilha do Massangano, acabam sendo deixadas de lado nos festejos públicos por atrações comerciais de fora do estado.


O custo de trabalhar com mídia independente


Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Gabriely Calado/ Manguetown Revista
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Gabriely Calado/ Manguetown Revista

A urgência de cobrir uma cena musical tão vasta esbarra diariamente na sensação de insuficiência. A mesa apontou que nenhum veículo, seja tradicional ou independente, consegue abraçar o volume de coisas que acontecem ao mesmo tempo. Como explicou Camila Estephania, a rotina nas redações impõe cortes diários: "A gente tem que fazer escolhas o tempo todo dentro das possibilidades do jornal, do tempo de fechamento e da equipe que temos". 


Na mídia independente, cobrir música significa, na maioria dos casos, fazer tudo ao mesmo tempo sem equipe, sem remuneração fixa e pagando do próprio bolso para chegar nos lugares. "Parece que a gente é mais de uma pessoa", desabafou Mikhaela Araújo.


"Fui para o MIMO ontem e não gravei nada, estava tão cansada da semana inteira. Meu corpo fez assim: 'não, você não vai conseguir'. Geralmente quem atua na mídia independente não trabalha só com isso, tem outras correrias." 

 

O algoritmo aparece como mais uma camada de pressão. Camila relatou ter dedicado dias a um vídeo sobre a cena do samba em Pernambuco, e o alcance ficou aquém do esperado. "A gente depende do algoritmo. Toda vez que faço um vídeo de análise de frevo, bomba muito mais. Quando é samba, que tem essa rixa, não foi tanto." O formato dos vídeos também vira um dilema. O Instagram e o TikTok diminuem o alcance de vídeos longos, e os conteúdos acabam tendo que ficar curtos, o que vira um obstáculo para análises mais aprofundadas e ricas de informação. 


Registro, memória e reparação histórica 


Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Antônia Di Guimarães/ Manguetown Revista
Festival de Jornalismo da Manguetown Revista. Imagem: Antônia Di Guimarães/ Manguetown Revista

A discussão sobre os limites da cobertura também levou as jornalistas a refletirem sobre o que fica depois que uma pauta deixa de circular. As três convidadas convergiram no papel fundamental que o jornalismo musical independente cumpre em criar memórias. A cofundadora da TAG Revista ilustrou esse compromisso ao relembrar de uma entrevista que fez com a rapper Tremsete, do Ibura.


"Talvez não seja o maior texto do mundo. Mas tem ali o registro de uma menina de 16 anos fazendo rap no Ibura. Quando alguém pesquisar daqui a trinta anos, vai estar lá."

Camila Estephania confirmou pelo viés acadêmico, a sua dissertação de mestrado sobre mulheres no brega funk esbarrou exatamente na ausência de registros jornalísticos sobre a cena. "Não tinha matéria, não tinha registro. É gente que existe, que faz, que movimenta, e não tem nada escrito sobre isso." Para ela, a internet abriu um caminho que não depende de uma redação de um grande veículo, qualquer pessoa com real admiração por algo pode se tornar quem vai dar visibilidade àquela cultura."


Por fim, Lenne Ferreira amarrou a responsabilidade social do ofício à sobrevivência dos próprios artistas. Ao lembrar de mestres como Zé Negão e Galo Preto, que durante muito tempo não conseguiam espaço na imprensa tradicional por falta de fotos em alta resolução ou assessoria de imprensa, a comunicadora cravou a linha editorial necessária para o setor:


"A gente precisa pautar os mestres da cultura popular. Uma matéria publicada serve como documento comprobatório para aprovar um edital e garantir que um mestre vire patrimônio vivo. Se o jornalismo que a gente faz não serve para reparação, ele serve para quê?".

A programação do 1º Festival de Jornalismo da Manguetown Revista seguiu debatendo as práticas da comunicação com a oficina de Fotojornalismo, ministrada pelas fotógrafas Antônia Di Guimarães e Gabriely Calado ao lado da editora de Culturas, Eduarda Silva. 


Festival de Jornalismo da Manguetown Revista pelas lentes de Antônia Di Guimarães




Festival de Jornalismo da Manguetown Revista pelas lentes de Gabriely Calado




Texto escrito por Thales Martins, repórter da Manguetown Revista.

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