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Retrospectiva Literatura: a palavra como memória e o território como narrativa

Entre feiras literárias, lançamentos de livros e conversas com autores, a literatura ocupou um espaço central na Manguetown Revista em 2025


Solano Trindade e jornalista e escritora Jaqueline Fraga
Solano Trindade e jornalista e escritora Jaqueline Fraga

Ao longo de todo o ano, a Manguetown Revista contou como a literatura pernambucana é peculiar - com foco na memória, vivências e poesias. Em reportagens e coberturas especiais, foi possível conhecer novos e antigos escritores, crônicas e histórias que demonstram cotidianamente a potência do estado. 


Neste ano, dois grandes eixos guiaram a forma de se contar a editoria: acompanhamos lançamentos de livros e de eventos literários espalhados pelo estado. 


Retrospectiva de literatura


O ano começou com uma celebração especial aos 105 anos de nascimento de João Cabral de Melo Neto, um dos maiores nomes da poesia em língua portuguesa — assim reconhecido por escritores como Mia Couto. Nascido no Recife, no bairro da Madalena, ele construiu uma obra marcada pela precisão da linguagem e por uma relação profunda com sua cidade natal, que atravessa seus textos não como paisagem idealizada, mas como matéria concreta, social e histórica.


Em obras como "O Rio" e "Morte e Vida Severina", o Recife e o Capibaribe surgem como símbolos das desigualdades, do trabalho e da resistência cotidiana, revelando um olhar crítico e analítico sobre a realidade brasileira. Mesmo vivendo grande parte da vida fora do país, João Cabral de Melo Neto manteve com Pernambuco um vínculo mediado pela memória e pelo rigor intelectual, transformando o Recife em um microcosmo do Brasil e consolidando sua obra como uma das mais potentes da literatura em língua portuguesa.


Quadrinista e multiartista Júpiter - Foto: reprodução/@joaoasoliveira
Quadrinista e multiartista Júpiter - Foto: reprodução/@joaoasoliveira

Seguimos 2025 com uma entrevista exclusiva destacando a força das histórias em quadrinhos autorais com uma entrevista exclusiva com a quadrinista e multiartista Júpiter, explorando como a escrita e os elementos visuais se entrelaçam para narrar memórias, imaginários e questões de identidade. 


Com obras como “Bolinho de Amora”, “Birdie Lou: o cowboy que não sabia morrer” e “Manifesto de uma Lésbica de 20 Anos”, a artista vem alcançando diferentes públicos e consolidando seu espaço no cenário das HQs pernambucanas e nacionais, especialmente a partir do fortalecimento das webcomics e das redes sociais, onde criou o chamado “Júpiterverso”.


Já em Maio, a Manguetown Revista conversou com o poeta pernambucano Fabrício Arteiro, jovem negro do Cabo de Santo Agostinho que transformou vivências duras em poesia, performance e música. 


Inspirado pelo poeta de rua Miró da Muribeca, Arteiro constrói uma trajetória marcada pela palavra falada como forma de resistência, com obras como “O Homem Digitalmente Urbazinado” (2018) e “Diário Preto e Suas Mandingas” (2019), além de canções e poemas que denunciam violências e expõem a realidade urbana vivida por corpos negros entre o Recife e o Cabo.


Hmenageado da Flup 2025, o pernambucano Solano Trindade
Hmenageado da Flup 2025, o pernambucano Solano Trindade

Em setembro, a Manguetown Revista acompanhou a Festa Literária das Periferias (Flup), que realizou, pela primeira vez em Pernambuco, uma edição histórica homenageando Solano Trindade. Poeta, militante e artista popular, Solano foi o nome escolhido para marcar a estreia do festival no estado, reafirmando sua importância para a literatura, a cultura afro-brasileira e as lutas sociais do século 20.


Pernambucano de nascimento, mas radicado no Rio de Janeiro, onde faleceu, Solano Trindade era filho de um sapateiro e de uma dona de casa. Sua trajetória atravessa múltiplas linguagens: foi poeta, folclorista, pintor, ator e militante do Partido Comunista Brasileiro. Ao longo da vida, teve atuação decisiva no enfrentamento ao racismo, na defesa das causas populares e na valorização das expressões culturais negras. Em reconhecimento à sua luta, foi declarado Patrono da Luta Antirracista de Pernambuco em 2020, por meio da Lei nº 17.003, promulgada pela Assembleia Legislativa do Estado (Alepe).


A Flup ocupou o Compaz Governador Eduardo Campos, no Alto de Santa Terezinha, com o tema “Saberes conectados: negritude em todos os espaços”. A programação reuniu encontros gratuitos com autores, artistas, pensadores e lideranças de diversas regiões do país, celebrando a obra e o legado de Solano Trindade a partir do diálogo, da troca e da ocupação cultural do território.


Durante o festival, também conversamos com os escritores Caio do Cordel e Esmeralda Ribeiro, que participaram das atividades e destacaram a relevância da Flup como espaço de visibilidade e fortalecimento para escritoras e escritores negros, periféricos e dissidentes no cenário literário brasileiro.


Mais do que um evento, a Flup se afirma como processo: uma plataforma de pensamento, articulação e incubação de talentos historicamente invisibilizados. Um encontro onde festa e reflexão caminham juntas, reafirmando a literatura como ferramenta de transformação social.


Lançamentos de livros


Também acompanhamos alguns lançamentos de livros, em 2025, que evidenciam a diversidade e a força da produção literária pernambucana. 


"De Peito Aberto", estreia da cordelista Carla Montanha, leva ao sertão uma obra marcada por identidade, regionalismo e empoderamento feminino, dialogando com a tradição da poesia popular nordestina a partir de vivências pessoais. 


Já a poetisa e declamadora Dayane Rocha lançou "Virada num mói de Cuento", seu primeiro livro, reunindo poemas que atravessam feminismo, política e saudade, em um evento que integrou literatura, artesanato e economia criativa no Sertão do Pajeú.


Outro destaque foi o lançamento de "Afroversos": Coletânea Poética e Artística de Vozes Negras, fruto do projeto de extensão Afroversos, na UFPE. A obra reúne produções literárias e artísticas de pessoas negras, celebrando ancestralidade, memória e diversidade de experiências, e reafirma a literatura como espaço de afirmação, encontro e construção coletiva de narrativas.


Eventos e feiras literárias


Leitores exploram os estandes repletos de livros - Foto: Bienal Internacional do Livro de Pernambuco
Leitores exploram os estandes repletos de livros - Foto: Bienal Internacional do Livro de Pernambuco

A Manguetown Revista acompanhou em 2025 diversos festivais literários, entre os destaques:


Em outubro, a Manguetown Revista acompanhou a 15ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, realizada no Centro de Convenções, em Olinda.


Reconhecida como o maior evento literário do Nordeste e o terceiro maior do Brasil, a Bienal reuniu milhares de visitantes em encontros, lançamentos, oficinas e atividades formativas. 


Com o tema “Ler é sentir cada palavra”, a edição de 2025 destacou ações de formação, inclusão e acessibilidade, como o Educativo Bienal, a Bienal Inclusiva e novos selos curatoriais, além de destacar autores pernambucanos como Iandê Albuquerque, June Travassos e Ágnes Souza.


Em junho, o Festival Literário das Periferias (Fliperifa) 2025 aconteceu no Recife com o tema “Leia a Rua”, celebrando a literatura como ferramenta de resistência e valorizando vozes periféricas de forma gratuita. A segunda edição do festival ocupou espaços culturais das zonas oeste, sul e norte da cidade, promovendo atividades voltadas às comunidades periféricas da capital pernambucana.


Idealizado pela pedagoga e produtora cultural Palas Camila, com curadoria da poetisa, cantora e escritora Bell Puã, o Fliperifa foi coordenado por uma equipe majoritariamente formada por mulheres e pessoas com vivências periféricas. A programação transformou a rua em território de leitura, afeto e luta, com rodas de conversa, oficinas, feira de livros, espaço infantil, apresentações culturais, intervenções urbanas e recitais do Slam das Minas PE, além da emissão de certificados. Nesta edição, o festival homenageou as escritoras Maria Cristina Tavares (Maria Livreira) e Joy Thamires, referências na educação antirracista e na literatura marginal do Recife.


Festival Pernambucano de Literatura Negra é finalista do Prêmio Jabuti 2025 - Foto: Guga Renato
Festival Pernambucano de Literatura Negra é finalista do Prêmio Jabuti 2025 - Foto: Guga Renato

E também comemoramos a indicação do Festival Pernambucano de Literatura Negra  ao Prêmio Jabuti 2025, na categoria Fomento à Leitura, dentro do eixo Inovação, sendo o único representante das regiões Norte e Nordeste entre os projetos selecionados.


O reconhecimento, anunciado no início de outubro, celebrou o amadurecimento de uma iniciativa da jornalista e escritora Jaqueline Fraga que nasceu de forma independente e se consolidou como referência na valorização da literatura negra.


2025 reafirma que Pernambuco segue produzindo, narrando e reinventando histórias a partir de múltiplos territórios, vozes e linguagens. Que 2026 chegue mantendo esse fôlego criativo, ampliando horizontes e fortalecendo quem escreve, lê e vive a cultura no estado.


Confira a nossa retrospectiva no perfil oficial e siga acompanhando esses e outros conteúdos da Manguetown Revista.

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