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Trup Errante celebra 20 anos de um teatro vivo entre memória, território e futuro

No Vale do São Francisco, grupo constrói há duas décadas uma trajetória coletiva onde palco e plateia se encontram e o futuro nasce da ancestralidade


No encontro entre Juazeiro e Petrolina, onde o Rio São Francisco atravessa territórios e histórias, um grupo de teatro decidiu, há 20 anos, caminhar contra a lógica da pressa e da centralização cultural. Desde 2006, a Trup Errante constrói sua trajetória como quem insiste em permanecer, mesmo quando tudo aponta para o contrário.


Espetáculo Prazer, Shakespeare ou Peças de Bolso, da Trup Errante. Imagem: Ferna/ Divulgação/ Imagem obtida através do Cultura PE
Espetáculo Prazer, Shakespeare ou Peças de Bolso, da Trup Errante. Imagem: Ferna/ Divulgação/ Imagem obtida através do Cultura PE

Para entender essa caminhada, a Manguetown Revista conversou com Thom Galindo, um dos diretores e fundadores da Trup Errante, que compartilhou memórias, desafios e perspectivas de futuro construídas ao longo dessas duas décadas de estrada. 


Além de ser um coletivo artístico, a Trup é um organismo vivo. Um corpo que se desloca, se transforma e se reinventa a partir da escuta, da troca e da relação direta com o público. São mais de 500 apresentações, 17 espetáculos, produções audiovisuais, publicações literárias e uma atuação que atravessa linguagens sem perder o vínculo com o teatro.


Mas talvez o que mais defina a Trup não seja o número, e sim o modo como ela se transforma ano após ano.


Um teatro que se constrói com o público


Desde o início, o grupo escolheu tensionar o fazer teatral tradicional. Em vez de distanciamento, aproximação. Em vez de espectadores passivos, plateias participantes. A cena se constrói junto, em tempo real, com espaço para o improviso, para o erro e para o inesperado.


A ideia de horizontalidade atravessa tudo. Como o próprio Thom resume, a intenção nunca foi ocupar o palco como um lugar de poder, mas partilhar a experiência com quem está assistindo. Esse gesto muda completamente a relação com o público e também com o próprio fazer teatral.


O artista traz boas novas: Palavra da salvação. Imagem: Lizandra Martins/ Reprodução Site da Trup Errante
O artista traz boas novas: Palavra da salvação. Imagem: Lizandra Martins/ Reprodução Site da Trup Errante

Os espaços são íntimos, muitas vezes com a plateia no próprio palco. As histórias deixam frestas abertas, convidando quem assiste a completar sentidos. “A gente sempre deixou buracos na cena, e esses buracos a plateia preenche”, conta. Não é só um recurso estético, é uma escolha de linguagem que mantém cada apresentação viva, única, em constante transformação.


Errar, no sentido de caminhar


O nome Trup Errante carrega mais do que uma identidade artística. Ele revela uma forma de existir. Ao longo dos anos, os integrantes se dividiram entre estados como Bahia, Pernambuco e Ceará, criando uma dinâmica de deslocamento constante, tanto física quanto criativamente.


Essa errância também expõe as dificuldades de fazer teatro fora dos grandes centros urbanos. Thom reconhece que, no interior, o teatro ainda se sustenta muito mais pela insistência dos grupos do que por políticas estruturadas. “São as pessoas que vão se somando”, diz, apontando para uma construção coletiva que depende menos de estrutura formal e mais de vínculo.


Mesmo diante desse cenário, a Trup construiu caminhos próprios. Circulou por diversas cidades, participou de festivais nacionais e criou estratégias de permanência, como a campanha #euVOUaoTeatro, que buscava aproximar o público com preços acessíveis e temporadas contínuas.


Os fomentos públicosaparecem como suporte, mas não como base. “Os editais não são uma garantia da nossa existência”, reforça Thom, ao destacar que o trabalho continua independentemente deles.


Memória como ponto de partida


Se o presente é marcado pela resistência, o passado é tratado como fundamento. Nos últimos anos, a Trup tem se dedicado a investigar a história do teatro e das manifestações culturais no Vale do São Francisco, resgatando trajetórias que foram apagadas ao longo do tempo.


Nesse mergulho, surgem histórias esquecidas, nomes invisibilizados e movimentos que ajudaram a construir a cena local. Para Thom, olhar para trás é também uma forma de responsabilidade, porque “a gente precisa dar contorno às histórias” para entender o que não deve se repetir e o que precisa ser preservado.


APresentação Trup Errante. Imagem: Lizandra Martins/ Reprodução Site da Trup Errante
APresentação Trup Errante. Imagem: Lizandra Martins/ Reprodução Site da Trup Errante

Esse processo resultou na criação de um projeto editorial que reúne diferentes olhares sobre a história cultural de Juazeiro e Petrolina. Não como um registro definitivo, mas como um ponto de partida. Um convite para que outras pesquisas e narrativas também surjam.


Entre o íntimo e o coletivo


Ao longo de duas décadas, a Trup construiu uma poética própria, marcada pelo protagonismo de mulheres em cena, pela mistura entre teatro e outras linguagens e pela criação de dramaturgias autorais que dialogam diretamente com o território.


Espetáculos como “A Dona da História”, “Fabulosas Histórias do Rio São Francisco” e “Amaranta” atravessam essa trajetória, cada um refletindo momentos distintos do grupo.


Há também um desejo antigo que segue em construção. Viver de teatro. Hoje, esse sonho já aparece como possibilidade, ainda que não totalmente consolidada. É um caminho em andamento, feito de tentativas, ajustes e permanência. Como ele aponta, existe o desejo de que esse trabalho seja cada vez mais reconhecido e digno, garantindo “uma velhice um pouquinho melhor” para quem escolheu essa trajetória.


O futuro é ancestral


Pensar o futuro da Trup não passa por promessas grandiosas, mas por continuidade. Existe um desejo simples e profundo de seguir trabalhando, de garantir dignidade para quem faz parte do grupo e de manter o teatro como prática viva no cotidiano.


Ao mesmo tempo, há um olhar atento para as novas gerações. Crianças que crescem próximas ao grupo começam a se aproximar do fazer artístico, criando vínculos que podem, ou não, se transformar em continuidade.


O artista traz boas novas: Palavra da salvação. Imagem: Lizandra Martins/ Reprodução Site da Trup Errante
O artista traz boas novas: Palavra da salvação. Imagem: Lizandra Martins/ Reprodução Site da Trup Errante

No meio disso tudo, uma ideia atravessa o pensamento de Thom e ajuda a entender a essência da Trup. O futuro não está dissociado do passado. Ele nasce dele.

“O futuro é ancestral”, diz.


É nessa travessia entre memória e invenção que a Trup Errante segue. Errante por necessidade, por escolha e por convicção. Construindo, todos os dias, um teatro que não quer apenas ser visto, mas vivido.


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