Entre muros, tecnologias e futuros: a trajetória de Tony Artes Gomes na Zona da Mata Norte de Pernambuco
- Manu Gomes

- há 7 horas
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Multiartista da Zona da Mata Norte constrói trajetória entre cultura popular e múltiplas linguagens, enquanto reflete sobre os caminhos da arte em tempos de transformação tecnológica
Aos 36 anos, Tony Artes Gomes carrega uma trajetória que começa muito antes de qualquer reconhecimento — e que nasce em meio às dificuldades da infância em Paudalho, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Criado entre o convívio familiar, o trabalho precoce e a vivência intensa da rua, encontrou na arte não apenas uma forma de expressão, mas uma possibilidade concreta de existência.

Hoje, se define por muitas frentes: artista plástico, artesão, escultor, músico/percussionista, ilustrador e muralista. Essa multiplicidade não é estratégia: é resultado direto de uma formação construída fora dos espaços tradicionais, onde criar sempre esteve ligado à sobrevivência. Sem acolhimento na escola, foi no desenho, na música e na observação do cotidiano que desenvolveu sua linguagem.
“Eu nasci num berço bem cultural… já desenhava, curtia rap, rock… e a rua também me deu uma profissão, tá ligado?”, explica o artista, em entrevista exclusiva à Manguetown Revista.

Entre fretes, trabalhos informais e uma rotina marcada por limitações financeiras, o gesto de desenhar foi se tornando uma constante. Com o tempo, essa prática se transformou em ofício — e, mais tarde, em sustento da própria família. “Hoje eu sustento dois filhos, uma casa, tudo com arte”, Tony afirmou com orgulho.
Mais do que uma trajetória individual, o percurso de Tony revela como, em muitos territórios do interior, a arte emerge como ferramenta de autonomia, identidade e permanência.
Entre muros e desafios
É nos murais que sua produção ganha maior visibilidade. Ao ocupar fachadas, prédios e espaços urbanos, Tony transforma superfícies em narrativas visuais que dialogam diretamente com o território. Trabalhar em grande escala, no entanto, exige mais do que técnica: implica preparo físico, planejamento e adaptação constante.
“Pintar um prédio grande é outro nível… o que tá pequeno no papel, quando joga na parede, fica gigante”, explica o multiartista.
Essa transposição do desenho para o espaço urbano envolve cálculos de proporção, domínio de materiais e leitura da arquitetura. Cada obra passa a ser também uma negociação com o ambiente — luz, textura, altura e circulação interferem diretamente no resultado final.

Ao mesmo tempo, o artista inicia um movimento de formação na região. Por meio de oficinas, busca compartilhar técnicas e incentivar novos profissionais a enxergarem a arte urbana como possibilidade real de trabalho.
“Eu faço as oficinas pra ver se encontro alguém que queira somar, aprender de verdade… porque trabalho tem, mas às vezes falta gente preparada”, lamenta.
Na Zona da Mata Norte de Pernambuco, onde ainda são escassas as oportunidades estruturadas para artistas visuais, essa iniciativa também aponta para a construção de uma rede local de criação.
A era digital e sobrevivência: os caminhos da circulação
Se a rua foi sua primeira escola, hoje o digital tornou-se ferramenta central para a continuidade do trabalho. As redes sociais funcionam como portfólio, meio de divulgação e principal canal de contato com clientes.

“A maioria dos trabalhos vem pelo Instagram… o cara vê lá, gosta e chama. Sem a rede fica até estranho pra mim.”
Essa dinâmica amplia o alcance do artista, mas também revela a dependência de plataformas que concentram visibilidade e oportunidades. Em contextos de trabalho autônomo, estar conectado passa a ser condição para existir profissionalmente.
Tradição e reinvenção: o maracatu como linguagem viva
Entre as referências centrais da obra de Tony está o Maracatu Rural, especialmente a figura do caboclo de lança. Presente em diversos murais, essa iconografia é construída a partir da observação cuidadosa dos detalhes — das golas bordadas às amarrações e cores.
O reconhecimento dentro da própria comunidade veio justamente desse compromisso com a fidelidade estética e o respeito aos mestres e brincantes. O artista, no entanto, agora propõe um deslocamento dentro dessa tradição.
Historicamente, as mulheres foram excluídas de determinados papéis no maracatu rural, especialmente da figura do caboclo de lança, considerada exclusivamente masculina. Esse afastamento, atravessado por questões de gênero e tradição, ainda reverbera em muitas práticas culturais.
Ao trazer mulheres caboclas para seus murais, Tony tensiona essa lógica, ampliando as possibilidades de representação dentro dessa estética. Além disso, também aponta para a inclusão de pessoas LGBTQIA+ nessas narrativas visuais.
A proposta não é romper com a tradição, mas expandi-la — reconhecendo que a cultura popular também é espaço de atualização e reinvenção.
Tony também desenvolve personagens próprios que atravessam sua produção, como o boneco de cana, figura que sintetiza sua pesquisa visual a partir da cultura da Zona da Mata. O personagem nasce de referências do cotidiano (rostos, gestos, corpos observados na rua) e ganha contornos caricatos, próximos do universo do mamulengo.
“Eu tenho esse personagem que coloco em várias situações… já virou até logomarca de evento”, explica. Mesmo quando experimenta ferramentas digitais, como em testes com inteligência artificial para aplicação de cor, Tony mantém o desenho como ponto de partida, reelaborando manualmente cada imagem.
Balanço do feito à mão e do avanço tecnológico
Em áreas ligadas à pintura e ao design gráfico, soluções industrializadas, como impressão digital, plotagem e adesivação, vêm substituindo o trabalho manual. Para quem construiu sua trajetória no fazer artesanal, esse movimento gera inquietações.
“Dá um medo, velho… mas acho que vai ter uma virada. A galera vai querer voltar pro que é mais orgânico, mais verdadeiro”, reafirma Tony.
Ao mesmo tempo, Tony reconhece que essas ferramentas fazem parte do presente — e que é preciso dialogar com elas, ainda que de forma crítica.
Esse diálogo se estende à inteligência artificial, ainda que de maneira inicial.“Eu mesmo não sei mexer muito não… sou mais de livro, revista. Mas usei uma vez com ajuda de um amigo, como um rascunho pra mostrar pro cliente”, explica.
Nesse caso, a tecnologia aparece como suporte no processo de criação, especialmente na etapa de apresentação de ideias. A obra final, no entanto, segue ancorada na execução manual — onde o gesto, o erro e a matéria continuam sendo fundamentais.
Um marco no percurso
No início de 2026, Tony Artes Gomes alcançou um marco simbólico: a realização de sua milésima obra. Mais do que um número, o feito sintetiza uma trajetória construída com persistência e diversidade de linguagens.
A obra, um mural de grandes dimensões em Nazaré da Mata, retoma justamente uma de suas principais referências: o caboclo de lança. Com cores intensas e escala monumental, o painel reafirma o vínculo entre produção artística e identidade cultural da região.
A arte como legado e permanência
Esse compromisso com a autoria também se projeta no futuro, especialmente na relação com a sua filha, “Ninarte”. Sem impor caminhos, ele reconhece na convivência diária um espaço de troca e continuidade. “Eu não forço não, mas quem sabe ela não vira uma artista magnífica”, diz, com um misto de orgulho e cuidado.
Para ele, a nova geração já chega com outra autonomia e repertório, inclusive questionando e opinando sobre seus próprios trabalhos. Nesse processo, mais do que ensinar técnica, Tony constrói um legado baseado na escuta, na liberdade criativa e na possibilidade de fazer da arte um caminho de vida.

Entre muros, sons e experimentações, Tony constrói uma trajetória que não separa criação e vida. Sua definição de arte, direta e contundente, resume esse percurso.
A arte, para ele, não é simples linguagem ou profissão: é força vital. É o que sustenta, organiza e dá sentido à experiência.
Em territórios muitas vezes atravessados por ausência de políticas culturais estruturadas, sua produção aponta para algo essencial: criar também é um gesto de permanência.
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